O euro pode ser salvo. E a União Europeia?

Os anos de dificuldades econômicas em nome da boa administração doméstica sufocaram o crescimento e restaurar agora a confiança na integração será muito mais decisivo e difícil

O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2012 | 03h03

Depois de mais de um ano em crise, os países da zona do euro ainda lutam para salvar sua moeda comum. Seu plano é o comprometimento com uma disciplina fiscal necessária para acalmar os mercados financeiros e, ao mesmo tempo, a introdução de medidas que estimulem o crescimento. E provavelmente terão sucesso.

Independente de a Grécia sair ou não da zona do euro, a Alemanha no final fará o que for necessário para manter a moeda viva: o euro é forte demais para fracassar. A chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, François Hollande - líderes da parceria-chave que escora a União Europeia - parecem seguir na direção de um compromisso entre a austeridade, na qual Berlim insiste, e o estímulo, preferência de Paris.

Embora ainda não seja tarde para salvar o euro, no caso da União Europeia o tempo está passando rápido. O aperto de cinto proposto pelos alemães, necessário para reduzir a dívida, está produzindo uma revolta popular contra a UE que pode ser sua ruína. Uma brecha perigosa foi aberta entre a governança coletiva que a Europa precisa para prosperar e as populações nacionais cada vez mais hostis ao projeto europeu. Salvar o euro é a parte fácil; restaurar a confiança na integração será muito mais decisivo e mais difícil.

A União Europeia apenas proporcionou anos sucessivos de dificuldades econômicas em nome da boa administração doméstica, mas, com isso, sufocou o crescimento. No final deste ano, o PIB da Grécia deve cair quase 20% desde 2009. Itália e Espanha estão de novo em recessão. O nível de desemprego dos jovens espanhóis está em 50%. A zona do euro, como um todo, registrou um crescimento zero no primeiro trimestre.

Essas condições estão consumindo os elos que mantêm a UE unida. Não só a insistência na austeridade por parte dos 11 governos, mas também uma eleição após a outra fortaleceram as forças políticas que encaram com ceticismo a integração. Muitos dos principais partidos estão convergindo para o centro ideológico e firmemente comprometidos com a união. Mas os partidos políticos tradicionais estão perdendo uma fatia de mercado para partidos menores da esquerda e da direita, muito menos animados com a UE.

Nas eleições gregas no mês passado, a porcentagem de votos obtida pelos dois principais partidos despencou de 75% conquistados nas eleições de 2009 para pouco mais de 30%. Os principais beneficiários foram partidos contrários ao pacote de medidas de austeridade que a Grécia deve adotar para permanecer na zona do euro. Com o panorama político tão dividido a ponto de nenhum partido conseguir formar um governo, uma outra eleição será realizada no domingo. Apesar de uma nova campanha, alguns políticos que defendem a austeridade estariam se abstendo de aparecer em público, preocupados com sua segurança física.

No primeiro turno das eleições presidenciais na França, em 22 de abril, aproximadamente 30% dos eleitores votaram ou em Marine Le Pen, cujo partido de direita defende que a França abandone a zona do euro, ou no candidato da extrema-esquerda Jean-Luc Mélenchon , que frequentemente ataca o liberalismo econômico da UE e suas medidas que violam a soberania da França. Não surpreendeu o fato de que François Hollande e Nicolas Sarkozy, em sua campanha para o segundo turno, assumiram uma posição contrária à União Europeia.

A história é a mesma na Itália. Em eleições locais no mês passado, um partido liderado por um cômico, Beppe Grillo, conseguiu avançar de modo importante frente às principais agremiações políticas. Grillo também defende que a Itália abandone o euro.

A economia alemã vem se saindo razoavelmente bem, mas os social-democratas e os democratas-cristãos estão perdendo espaço para os partidos alternativos. O apoio à UE continua sólido entre os eleitores alemães, mas eles estão cansados de pagar a conta dos pacotes de ajuda para países em dificuldade econômica dentro do bloco - e exatamente por isso Merkel está tão determinada a impor a austeridade a seus vizinhos.

Ainda pior é a situação da Grã-Bretanha, onde a hostilidade em relação à UE é cada vez maior. Os britânicos sempre mantiveram a UE à distância preferindo ficar fora da zona do euro. Mas entre os conservadores no governo, o ceticismo com relação à UE está se transformando em fobia. Em outubro do ano passado, uma grande maioria dos membros conservadores requereu aprovação do Parlamento para um referendo público sobre a saída do país da União Europeia. Embora a moção tenha sido derrotada, uma pesquisa revelou que 49% das pessoas votariam a favor e 40% contra uma proposta para o país deixar a UE.

Pesquisas de opinião também fornecem uma avaliação igualmente séria da debilidade da UE. Num estudo divulgado na semana passada, intitulado "European Unity on the Rocks" (Unidade Europeia balança), o Pew Research Center indicou dúvidas generalizadas entre os europeus quanto aos benefícios da integração e da moeda única. Em muitos dos países pesquisados, o apoio à UE caiu drasticamente nos últimos cinco anos, com apenas 28% dos checos, 30% dos britânicos e 43% dos gregos acreditando hoje que a adesão foi boa para seu país.

Por toda a união as pessoas estão se revoltando contra Bruxelas e sua governança. Depois de décadas de complacência pública com a entidade, a questão da unidade há muito tempo tem sido tema de debate público: as pessoas discutem o assunto nos pubs, nos cafés, nas cervejarias, nas tabernas. Infelizmente para Bruxelas, a União Europeia tornou-se objeto de escárnio, não afeição.

O euro provavelmente sobreviverá, mas a Europa corre o risco de se salvar apenas na forma, não no espírito. As instituições coletivas que dão vida à UE de nada servirão se os cidadãos considerarem essa união irrelevante, ou pior, ilegítima e ineficaz.

Compensar os cortes draconianos com medidas que produzam o crescimento certamente vai ajudar. Perspectivas econômicas melhores deverão reduzir a hostilidade. Mas o crescimento não será o bastante. As bases políticas da UE estão muitíssimo corroídas.

Para reverter essa erosão, os líderes europeus precisarão moldar a opinião pública, não só satisfazê-la. Foi somente no fim do ano passado que Merkel ousou repreender os eleitores alemães, advertindo-os de que a Europa "passava seu pior momento desde a 2.ª Guerra", acrescentando que "o desafio da nossa geração é concluir o que iniciamos na Europa: criar, passo a passo, uma união política".

Cabe aos líderes europeus companheiros de Merkel agirem da mesma maneira e fazer com que seus concidadãos entendam que a Europa só poderá competir num mundo globalizado como um ente coletivo. Seus cidadãos podem se sentir mais tranquilos vivendo em Estados-nação autônomos, mas devem confrontar a realidade, de que uma União Europeia fragmentada cairá no oblívio geopolítico.

A melhor maneira de afastar essa possibilidade é partir rapidamente para uma união fiscal plena, necessária para escorar a zona do euro e reviver o crescimento. A aprovação de um novo pacto fiscal na Irlanda, num referendo na quinta-feira, foi um avanço positivo nesse aspecto. Os membros da UE precisam também unir seus recursos nas áreas da política externa e da defesa, único meio pelo qual os europeus farão com que sua presença seja sentida no cenário global. A legitimidade popular da UE depende de sua capacidade para oferecer prosperidade e segurança, e isso somente uma união mais profunda e mais eficaz conseguirá fornecer.

O que vai exigir que a UE institucionalize uma estrutura de "múltiplas velocidades" em que um grupo mais restrito de países avance no caminho de uma integração mais ampla do que o restante. Uma união de 27 Estados (e que vai aumentar) não pode mais se permitir caminhar tão lentamente como seus membros mais relutantes.

A Europa chegou a um momento do tudo ou nada. Como os europeus sabem bem, suas horas mais sombrias decorreram do torvelinho econômico e do nacionalismo nos anos 30. A menos que a UE consiga unir uma disciplina fiscal com o crescimento, refrear os nacionalismos e relançar o projeto da união, o passado atribulado da Europa pode se tornar o seu futuro. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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