O 'excepcionalismo' americano

Força, velocidade, garra - e nacionalismo. A 30.ª edição dos Jogos Olímpicos, que se encerra hoje em Londres, foi um desfile de orgulhos e vaidades ufanistas. Natural. Assim como na Copa do Mundo, nas Olimpíadas, o nacionalismo inflamado faz parte das disputas, em que o embate entre pátrias consagra heróis sem enterros.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2012 | 03h05

Quem narra os jogos frequentemente também expõe preconceitos que desfilam como flagrantes de nosso complicado tempo. Assim foi na final da prova das argolas, em que o brasileiro Arthur Zanetti conquistou o ouro. De passagem nos Estados Unidos, eu assistia aos jogos pela tradicional rede NBC. Seu elenco de locutores contou com jornalistas esportivos experientes além de medalhistas no esporte. Critério não lhes falta. Já visão e isenção...

Para os analistas da NBC, não havia dúvidas. O ouro estava predestinado ao chinês Chen Yibing. Excluídos os esportistas dos EUA, só restava ele - o "senhor dos anéis" - e a rede americana não hesitou em coroá-lo, enquanto Zanetti, último a competir, ainda fazia seus malabarismos.

"Não sei não", desabafou um dos comentaristas, frente ao placar final. Pelo mesmo canal, só se falava dos americanos do vôlei (eliminados) e do duelo na piscina entre Ryan Loche e Michael Phelps, também americanos, na prova em que Thiago Pereira levou medalha de prata e Phelps, nenhuma. É o "excepcionalismo" americano na tela.

Para o júri da NBC, Zanetti não poderia ser ouro, pois ele nem sequer aparecia no radar americano, povoado por superpotências. (Da mesma forma, admitiremos os boleiros gringos como campeões olímpicos?) Aos penetras e pretendentes, a incredulidade. Na política, como nos esportes, concluímos o que já esperamos. É crer para ver. Só que para enxergar o mundo como ele é, há que admitir em primeiro lugar que já ele se transformou, seja nas argolas, seja na geopolítica.

Pense na campanha política americana, onde Barack Obama tenta a reeleição contra o azarão republicano, Mitt Romney. Nas pesquisas de intenção de voto, o democrata tem ínfima vantagem. No esforço de desbancá-lo, o adversário republicano joga pesado para converter em votos o desencanto americano. Pudera, a economia está no chão e o dissabor americano com os rumos do governo, em alta.

Na sua mensagem, Romney apela: para os valores perdidos, o orgulho ferido e o resgate do prestígio global da murcha pax americana. Na maratona presidencial, os dois candidatos desfilam preconceitos e meias-verdades, melhor para atingir um ao outro. Mas é na campanha de Romney em que o "excepcionalismo" americano vira arma essencial.

Na sua primeira excursão além fronteira, Romney caprichou. Não falou diretamente nos EUA, mas encarnou o americano feio ao lecionar a seus anfitriões globais - aliados e adversários - sobre virtudes e receitas de sucesso e prosperidade. "A cultura faz toda a diferença", afirmou, em Israel, citando a obra de Max Weber e do historiador David Landes, de Harvard.

O argumento é válido e digno de debate. Na era da economia de conhecimento, quando o capital humano pesa mais no PIB que máquinas e minérios, a cultura pode sim ser o diferencial. Sua referencia a Israel foi para lisonjear um aliado, que fez do deserto um pomar usando ciência e pesquisa. Só que Romney fez um cartoon de cultura, tema complexo e cheio de nuances, pouco calibradas para a ruidosa corrida presidencial. Cultura, em seu discurso, soa mais como racismo.

A outrora (e famosa) indolência oriental cedeu lugar para os tigres da Ásia. Antes de se tornar o portento global atual, a China era um garoto propaganda para o atraso e a pobreza terceiro-mundista, como lembra o comentarista Fareed Zakaria. Turquia e Indonésia, além de potências econômicas, são democracias islâmicas - um oximoro na desatualizada apostilha ocidental. O continente africano abriga sete das dez economias que mais crescem no mundo.

A cultura é importante. Pode ser o tira-teima entre sociedades vizinhas com desempenho e riquezas naturais parecidos. Mas a cultura também se transforma. Novos competidores surgem nas argolas. Para enxergá-los, é preciso um segundo olhar. É rever para crer.

CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK, COLUNISTA DO 'ESTADO'; EDITA O SITE BRAZILINFOCUS.COM

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