AP Photo/Jon Elswick
AP Photo/Jon Elswick

O Exército cibernético russo

Conspiração a favor de Donald Trump envolveu a contratação de 80 pessoas e teve orçamento mensal de US$ 1,2 milhão

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2018 | 05h30

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos apresentou na sexta-feira o indiciamento de 13 cidadãos e 3 empresas russas, acusados de conspirar para favorecer Donald Trump e prejudicar Hillary Clinton na campanha presidencial de 2016. 

O documento de 37 páginas, com base nas investigações da força-tarefa comandada pelo procurador especial Robert Mueller, ex-diretor do FBI, oferece um retrato fiel do estado da arte da manipulação da opinião pública por meio das redes sociais.

A conspiração envolveu a contratação de 80 pessoas e teve orçamento mensal de US$ 1,2 milhão, de acordo com as investigações. No centro da operação esteve a Agência de Pesquisa da Internet, empresa de São Petersburgo especializada em “trolls”, como são chamados os boatos espalhados na rede.

Mueller acusa o empresário russo Yevgeniy Prigozhin, considerado próximo do presidente russo, Vladimir Putin, de encomendar e financiar as operações, por meio de sua empresa, Concord Management and Consulting.

Os operadores russos montaram um esquema para parecer que eram cidadãos e sites americanos. Compraram identidades roubadas, cartões de crédito e contas bancárias nos Estados Unidos.

A operação incluiu manifestações contra e a favor de Trump, na sequência da distribuição de boatos na internet. Aí também os russos se fizeram passar por ativistas americanos. Portanto, trata-se de um plano de articulação entre as redes sociais e o mundo físico.

Baixo custo

Em setembro, depoimentos de executivos perante o Comitê de Inteligência do Senado revelaram que a operação envolveu 3 mil anúncios no Facebook, no valor total de US$ 100 mil, e 1.800 tuítes, ao preço de US$ 274 mil. 

As publicações no Twitter partiram de 22 contas abertas pelo Russia Today (RT), órgão de comunicação ligado ao governo russo. Essas contas estavam vinculadas a 179 perfis no Twitter e 450 no Facebook.

Os custos parecem ínfimos, considerando os interesses em jogo. Mas especialistas em marketing digital atestam que, com US$ 100 mil, é possível publicar anúncios vistos centenas de milhões de vezes, desde que seu conteúdo tenha o apelo desejado.

Países como Rússia, China e Coreia do Norte têm avançado no uso de ferramentas que incluem, além da propaganda, ataques para derrubar sites, redes e sistemas de comunicação, comando e controle, inocular vírus, roubar informações, praticar extorsão contra empresas e usuários.

São parte da doutrina das guerras psicológica e cibernética, no contexto dos conflitos assimétricos. Esses países reconhecem que não têm chances de enfrentar os Estados Unidos com armas e regras de engajamento convencionais.

Estados Unidos e Europa têm se municiado para essa guerra, investindo em contraespionagem eletrônica e em barreiras sofisticadas de proteção, que equivalem às trincheiras da 1.ª Guerra.

O nível de detalhamento da investigação sugere que Robert Mueller teve acesso a interceptações realizadas pelo serviço secreto americano: só assim ele poderia chegar a informações internas sobre a Agência de Pesquisa da Internet e a e-mails trocados pelos agentes russos.

Entretanto, países menos preparados, como o Brasil, também estão expostos a esses ataques, que podem vir não só de fora, mas de dentro. Quando a ex-presidente Dilma Rousseff sofreu o impeachment, e o Ministério do Planejamento trocou de mãos, foram encontradas planilhas de pagamento de sites e blogs com a aparência de jornalísticos. 

Algumas dessas fábricas de notícias ostentam o nome de ex-jornalistas prestigiados, convertidos em penas de aluguel, pagos para espalhar mentiras nas redes sociais. Na campanha eleitoral deste ano, muito dinheiro será investido nessa guerra. 

O que fazer para se defender dessa manipulação? O cidadão comum tem dois aliados: o jornalismo profissional, que vive apenas de sua credibilidade, e as próprias redes sociais. Isso mesmo: se as pessoas destinarem parte de seu tempo dedicado à internet para denunciar as mentiras e suas fontes, quando flagradas, estarão ajudando umas às outras a escapar dessa armadilha. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.