O Exército de fugitivos

Libertados por companheiros, militantes iraquianos que cumpriam pena em seu país por atividades jihadistas estão indo para a Síria fazer a 'guerra santa' contra Assad

Harald Doornbos e Jenan Moussa, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2013 | 03h11

Abu Omar está esperando o bonde para ir ao centro comercial da cidade de Gaziantep, no sul da Turquia. Em sua lista de compras, há um tablet e um GPS carregado com mapas do Oriente Médio. "Não é nada de especial", diz o iraquiano, guardando as compras em sua mochila. "Mas essas coisas serão muito úteis quando chegar à Síria".

Abu Omar, um bonito jovem com uma longa cabeleira negra, não é o único a seguir rumo à Síria. Centenas de prisioneiros iraquianos - na maioria acusados ou condenados por atividades jihadistas - estão em liberdade desde julho, quando militantes ligados à Al-Qaeda destruíram a famosa prisão de Abu Graib, nas proximidades de Bagdá. Na época, autoridades iraquianas e ocidentais temeram que alguns desses prisioneiros fossem para a Síria, contribuindo para o surgimento de grupos extremistas naquele país. Seus temores tornaram-se realidade.

Abu Omar é um dos membros da Al-Qaeda que escaparam durante o ataque à prisão. Ele diz que seis dos seus companheiros de cela também foram para a Síria. "Todo mundo quer ir para a jihad na Síria." O ex-prisioneiro considera a guerra na Síria muito mais que um conflito contra um brutal ditador. Para ele, trata-se de uma guerra contra os infiéis e seu objetivo último é o estabelecimento de um governo islâmico que transcenda as fronteiras. "Tanto o Iraque quanto a Síria são liderados por infiéis, por isso lutaremos contra ambos. A Síria está hoje muito enfraquecida e deverá cair em breve nas mãos dos mujahedines (jihadistas)".

Abu Omar recusa-se a dizer sua idade exata. Afirma apenas que tem mais de 20 anos. Ele passou 26 meses na prisão de Abu Graib, que ganhou notoriedade em 2004 com a publicação de imagens chocantes de guardas americanos torturando e humilhando prisioneiros iraquianos. Omar foi preso sob a acusação de terrorismo, mas declara-se inocente de qualquer crime. Segundo ele, a experiência na prisão o levou a radicalizar-se. "Quando estava na cadeia, conheci vários presos do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL, na sigla em inglês). Sua ideologia me convenceu. A ideia de criar um califado é perfeita", conta.

A destruição da prisão de Abu Graib deu-lhe a oportunidade de pôr em prática essa decisão. Foi uma operação violenta: a Al-Qaeda declarou ter usado militantes suicidas, granadas propelidas por foguetes e 12 carros-bomba no ataque ao complexo, libertando mais de 500 prisioneiros. Segundo o governo iraquiano, 29 funcionários da prisão morreram no ataque.

Depois de ser libertado, Abu Omar procurou refúgio na província de Anbar, no Iraque, tradicional reduto sunita. Nos últimos anos, a região tornara-se o epicentro da resistência ao governo xiita do Iraque e fundamental ponto de encontro dos jihadistas a caminho da Síria. Os líderes do campo do ISIL deram treinamento militar e mostraram vídeos inflamados de discursos jihadistas e operações no interior da Síria para Abu Omar.

"Eles nos explicaram o que era a jihad na Síria. Resolvi então ir, porque as mesquitas estão sendo destruídas e as mulheres muçulmanas estão sendo mortas pelos infiéis", diz. Omar recebeu um telefone celular de um membro iraquiano do ISIL ao qual se refere como "meu treinador". Ele só pode chamar um número - o do treinador. É uma precaução para proteger a rede jihadista em caso de monitoramento.

Ainda antes de ir para a Síria, o ex-prisioneiro cortou a barba para não ser identificado como homem religioso. Desse modo, viajou para o norte, entrou na parte da Síria controlada pelos rebeldes curdos e, depois, cruzou ilegalmente a fronteira da Turquia. O "treinador" disse a Abu que fosse para a cidade de Gaziantep e deu-lhe o endereço de uma casa do ISIL onde poderia ficar em segurança. No dia 18 de setembro, Abu foi levado para a cidade turca de Kilis. Ao entrar em território sírio, ajoelhou, beijou o chão e orou. Cinco minutos mais tarde, seus novos companheiros o pegaram e o conduziram para Azaz, onde ele desapareceu na névoa da guerra síria.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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