O Exército em primeiro lugar

Virtudes militares predominam na Coreia do Norte e ameaçam desalojar a diplomacia

RA JONG-YIL, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

Com o bombardeio a nossa ilha no Mar da Coreia, as operações do Exército norte-coreano foram além do estágio de atos terroristas do passado, cuja cumplicidade sempre negaram. Os militares, agora, estão mostrando abertamente sua força, sabendo bem que este comportamento vai tornar impossível para o governo da Coreia do Sul continuar sua política conciliatória em relação ao Norte. O incrível é que o recente ataque ocorreu logo após o envio pela Coreia do Sul de arroz e cimento para o Norte, para ajudar as vítimas das inundações.

Será que o que observamos é uma arrogante autoconfiança dos norte-coreanos resultante do desenvolvimento da sua capacidade nuclear? Seus líderes estarão tão desesperados a ponto de recorrer a táticas armadas considerando ser esta a única maneira de o país sair da sua camisa de força econômica? Ou estão se sentido tão livres na sua arriscada empreitada porque confiam que a China sempre estará do seu lado, independente dos atos que praticarem? Tudo isso pode explicar esses últimos incidentes.

Mas o que me preocupa acima de tudo são as dinâmicas internas do regime norte-coreano que levaram a uma piora da situação, ou seja, a política que coloca "o Exército em primeiro lugar", que vem sendo adotada há bastante tempo. Incluo-me no grupo dos que, apesar de compreender as terríveis dificuldades da Coreia do Norte, estão alarmados com o ritmo desse desvio militarista. Particularmente, mesmo alguns defensores da política de aproximação iniciada pelo ex-presidente sul-coreano Kim Dae-jung com o objetivo de tornar a Coreia do Norte mais moderada e aberta, também compartilham dessa preocupação.

As virtudes militares hoje são valores predominantes na sociedade. A linguagem militar absorveu completamente a vida política. Qualquer tarefa, seja a construção de um prédio ou o trabalho de colheita, é realizada à maneira militar como se fosse uma campanha de guerra. Os líderes invariavelmente são "generais", embora jamais tenham servido o Exército. A história nos lembra que esse tipo de militarismo que coloca de lado a sociedade civil e domina a política de um país, no geral, acaba desalojando a diplomacia com suas ações militares quando tratam com o mundo exterior.

Seria um exagero da minha parte pensar no Japão Imperial no período que precedeu o bombardeio de Pear Harbor, uma aventura insana em que os líderes militares, convencidos da sua supremacia depois de o país injetar tantos recursos na criação das suas Forças Armadas? Como o Exército tinha uma influência excessiva sobre o governo japonês, a maneira lógica de sair da camisa de força das sanções impostas pelos EUA parecia ser o desafio militar. Temo que a influência política dos militares, combinada com os terríveis problemas econômicos da Coreia do Norte, tornem ainda mais difícil para Kim Jon-il e sua família controlarem a dinâmica interna do regime.

Os líderes norte-coreanos não conseguem sair do seu dilema atual por causa da sua rivalidade com a Coreia do Sul. E o perigo para todos na região, não só para a Coreia do Sul, é o fato de o regime norte-coreano manter no seu arsenal apenas armas para sua sobrevivência, o que o leva a recorrer a atos irracionais ou ameaças de violência.

Na atual crise, não podemos simplesmente nos acomodar e dizer que o problema norte-coreano só poderá ser resolvido pelos EUA e a Coreia do Norte, e ao mesmo tempo defender uma menor presença americana na região. Se não desejam depender de ninguém, então os países do Leste Asiático têm de ser capazes de resolver os problemas por conta própria. As sucessivas crises provocadas pela Coreia do Norte, cada vez mais perigosas, podem tornar esse imperativo cada vez mais uma realidade. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É EX-CONSELHEIRO DE SEGURANÇA NACIONAL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.