O experimento do século

China põe em prática reformas que pretendem mesclar capitalismo, patriotismo e tradição

Timothy Garton Ash*, Especial/O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2014 | 02h05

Enquanto os europeus festejavam o presidente Xi Jinping em sua visita ao continente, na semana passada, quantos terão se dado conta de quão extraordinário é o experimento político que ele promove? O que ele tenta fazer, fundamentalmente, é transformar a China numa economia avançada e numa superpotência, canalizando energias do capitalismo, do patriotismo e das tradições chinesas, embora tudo ainda permaneça sob o controle do que continua sendo, na essência, um Estado leninista.

É possível que ele seja um imperador chinês, mas é também um imperador leninista. Esse é o experimento político mais surpreendente e importante no mundo. Ninguém esperava por isso no século 20. Ninguém deixará de ser afetado pelo seu sucesso ou fracasso no século 21.

Em 1989, quando o comunismo vacilava em Varsóvia, Berlim, Moscou e Pequim, quem poderia prever que, 25 anos mais tarde, nos debruçaríamos sobre os 60 pontos da Decisão do 3.º Plenário do Comitê Central do 18.º Congresso do Partido para analisá-los no âmbito da nova sovietologia? E entender de que maneira os líderes do partido propõem manter a China sob controle econômico e político?

Depois do trauma do caso Bo Xilai, Xi agiu de maneira decisiva para fortalecer o poder central do partido e sua própria posição. Além de assumir altos cargos de comando tradicionais mais rapidamente do que seus predecessores, ele criou outros quatro comitês de comando central ou "pequenos grupos de liderança" - sobre reforma econômica, segurança do Estado, reforma das Forças Armadas e, significativamente, internet. "Mais que Mao", reclama um reformista do partido.

Em geral, acredita-se que sua política de combate à corrupção pretenda, principalmente, afastar um ex-chefe de todo o aparato da segurança do Estado e membro da cúpula do partido, Zhou Yongkang. Como afirma a propaganda sub-reptícia do partido, ele precisa enfrentar tanto tigres quanto moscas. Isso pode ser considerado um sinal de profunda seriedade sobre o combate à corrupção nos mais altos escalões.

De outro ponto de vista, faz parte das manobras tradicionais de todo novo líder para garantir seu poder sobre facções reais ou potenciais no interior do partido. É uma operação de limpeza e também um expurgo. Ao mesmo tempo, blogueiros que se destacaram por suas críticas informam que suas páginas são deletadas, dissidentes são presos e as províncias insatisfeitas são marginalizadas por motivos de segurança.

Entretanto, podemos dizer que, em 2014, Pequim está a anos luz da Moscou de 1974, ou melhor, de 1934. É certo! Para cada fragmento do antigo, há um byte do novo. Circulando pelos modernos shopping centers de Pequim ou Xangai encontramos empresários, jornalistas, pesquisadores e acadêmicos superinteligentes, sofisticados, que falam com total liberdade praticamente de tudo - executivos e milionários da internet usam o jargão californiano.

Empreendedores de sucesso buscam na história da antiguidade chinesa, no confucionismo e no budismo um sentido pós-materialista. Vê-se consumo excessivo, alta moda e um estilo de vida cosmopolita - mas também orgulho nacional e um senso de otimismo histórico. Estudantes brilhantes, ambiciosos, filiam-se em massa ao Partido Comunista não por sua convicção, mas para uma ascensão pessoal mesclada a patriotismo. "Em que sentido dizemos que esse é um país comunista?", perguntei a um desses novos partidários. "Bom, ele é governado pelo Partido Comunista", respondeu. Para ele, resposta mais que suficiente.

O partido reconhece explicitamente que precisa de forças de mercado mais fortes. Anunciou a eliminação da burocracia que impede o avanço das pequenas e médias empresas, embora jornalistas chineses que analisam o setor continuem céticos quanto à capacidade de elas enfrentarem as corporações estatais politicamente bem conectadas que continuam predominando.

Li Keqiang, o hábil premiê desse Estado fundamentado num partido, compreende claramente os desafios econômicos assustadores identificados por especialistas chineses e estrangeiros, como o crescente ônus da dívida, a bolha imobiliária e a demanda excessivamente reduzida do consumo interno.

Na minha opinião, não se deve pensar que nada de novo acontece sob o sol da China (quando é possível enxergá-lo através da poluição). Ao contrário, existe um coquetel efervescente em que o novo se mescla ao antigo. Acho que não deveríamos perder de vista o velho que se encontra no bojo do novo e imaginar que a linguagem burocrática consagrada pelo Politburo é puramente formal.

Onde quer que olhemos, o secretário do partido continua sendo uma voz decisiva. Comitês e células do partido estão nas empresas privadas e também nas de capital estrangeiro. Muitos de seus integrantes são abertamente reconhecidos, outros, provavelmente, não. Quando Xi e seus colegas do Politburo trataram de consolidar seu poder e estabelecer seu novo rumo, ficou claro que seu "abrangente aprofundamento" da reforma será implementado mediante o revigorado controle do partido.

Há anos que muitos dos meus amigos chineses e estrangeiros, membros do partido, e críticos reivindicam medidas que favoreçam uma maior separação do Estado e do partido, um estado de direito mais autêntico (em contraposição ao mero legalismo ou a um governo por decreto), um espaço maior para as ONGs e um debate público mais aberto.

Alguns fragmentos dessas esperanças permanecem no atual pacote de reformas - por exemplo, os tribunais - serão pelo menos responsáveis perante uma autoridade mais alta do Estado-partido, em vez de serem controlados diretamente por aqueles que se encontram no mesmo nível e cujos freios e equilíbrios deveriam controlar.

No entanto, não são muitos. Em uma diretriz do partido conhecida pelo maravilhoso título orwelliano de "Documento Número 9", foram enumeradas sete ideias supostamente subversivas que o bom camarada não deve tolerar - que incluem democracia constitucional, valores universais e sociedade civil.

Como os próximos anos serão decisivos para a economia chinesa, agora a questão aparece de maneira clara. Um Estado-partido fortalecido, capaz de explorar de uma maneira sem precedentes as energias do capitalismo, do patriotismo e das antigas tradições chinesas, conseguirá controlar os desafios cada vez mais difíceis apresentados por uma constante modernização?

Falei com dois dos mais experientes correspondentes estrangeiros na China, ambos muito bem informados. O diagnóstico do problema foi quase idêntico, mas suas previsões espetacularmente diferentes. Um acha que o partido ainda conseguirá manter seu controle, administrando com habilidade o desenvolvimento liderado pelo Estado. Outro prevê um derretimento econômico, uma revolta social e um levante político. Em suma, ninguém sabe o que ocorrerá.

*Timothy Garton Ash é professor de estudos europeus na Universidade de Oxford e pesquisador da Universidade Stanford.

TRADUÇÃO CELSO PACIORNIK

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