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O experimento Trump

Cansados dos políticos, os americanos resolveram colocar um empresário na Casa Branca

Lourival Sant'Anna, O Estado de S. Paulo

15 Janeiro 2017 | 05h00

Cansados dos políticos, os americanos resolveram colocar um empresário na Casa Branca. Não um empresário qualquer, mas um bilionário, que não está disposto a abrir mão de sua profissão. As vastas consequências disso ficaram claras nesta semana, quando Donald Trump apresentou seu plano de desligamento de seus negócios para se proteger de acusações de conflitos de interesses. 

A Organização Trump passará a ser comandada pelo seu diretor financeiro, Allen Weisselberg, sob a pessoa jurídica de um trust controlado por seus dois filhos adultos, Eric e Don. Um consultor de ética estará encarregado de garantir que os filhos não informem ao pai sobre o andamento dos negócios. E os lucros provenientes de pagamentos feitos por clientes ligados a governos estrangeiros – como hóspedes dos hotéis, por exemplo – serão doados ao Tesouro.

Toda a complicação desse esquema, desenhado por um grande escritório de advocacia da Filadélfia, não muda uma simples realidade: Trump continuará sendo o dono de empresas cujo desempenho depende de inúmeras decisões tomadas pelo governo americano, seja no campo econômico, regulatório, habitacional, ambiental, na infraestrutura, nas relações internacionais, etc.

Nenhum político, por menos que tenha se dedicado a outras atividades, pode se declarar isento de ligações com interesses econômicos. George W. Bush, por exemplo, filho de ex-presidente, irmão de governador e ele próprio também ex-governador, foi acusado de invadir o Iraque em razão das ligações de sua família com a indústria do petróleo no Texas. 

Em geral, os fazendeiros e empresários que se envolvem com a política não costumam ter negócios de dimensões tão gigantescas a ponto de isso se tornar um tema dominante em suas gestões. Trump é diferente. Seu império dos ramos imobiliário, de turismo e de entretenimento se estende não só por todo o território americano, mas por boa parte do mundo, e seus interesses alcançam países com os quais os EUA têm relações delicadas, como a Rússia e a China. 

Na visão de especialistas em ética governamental, a percepção pública a respeito de suas decisões será contaminada pela sua condição de proprietário desse império. Boa parte de seu ministério é formada por empresários bilionários como ele e de altos executivos dos setores industrial, financeiro e petrolífero. Seu genro Jared Kushner, como ele bilionário do ramo imobiliário, também esteve envolvido em tratativas com grupos chineses, antes de ser nomeado seu conselheiro, e também se mantém proprietário das empresas.

Em certo sentido, o fato de Trump não querer abrir mão dessa condição é até coerente com as razões que levaram a sua vitória: ele foi eleito por ser, e não apesar de ser empresário. Os eleitores quiseram trazer para a gestão pública suas habilidades de empreendedor de sucesso. Foi uma escolha movida pela frustração com o desempenho dos políticos, que esses eleitores consideram incompetentes e mais preocupados com o êxito de seus partidos e em atender aos interesses dos lobbies do que com o bem comum.

Se isso é verdadeiro para os Estados Unidos, é mais ainda para países como o Brasil, onde se soma a esses problemas um nível de corrupção impressionante. A eleição de João Doria, em São Paulo, também é uma resposta à frustração diante da má gestão dos políticos.

Trata-se de um deslocamento das expectativas do político para o empresarial e do público para o privado. No Brasil, assim como nos Estados Unidos, essa escolha vem carregada de uma preferência para que a iniciativa privada assuma mais papéis, e o Estado interfira menos. A Lei de Atendimento Acessível, conhecida como Obamacare, que obriga todo americano a ter plano de saúde, é o símbolo máximo dessa interferência. 

A experiência pela qual os americanos passarão agora sob Trump serve de laboratório sobre as consequências dessa falência da crença na esfera pública e a aposta no modelo privado. Como fazer essa passagem sem agravar o problema que se queria resolver, que é a captura do Estado por interesses privados – considerando que partidos também são grupos privados?

Por outro lado, como recuperar a crença na cultura da gestão pública, depois da terra arrasada causada pelos políticos e seus partidos, seguramente muito mais no Brasil do que nos Estados Unidos? São questões que talvez só uma nova geração de políticos, com uma cultura mais adaptada às exigências éticas e ao nível de informação da opinião pública, poderá responder.

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