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'O extremismo na África preocupa o governo americano', diz Amanda Dory

Diplomata fala sobre o futuro das operações militares americanas e sobre o esforço para extinguir conflitos antigos

Entrevista com

Lourival Sant'Anna, Enviado especial - O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2013 | 02h09

RABAT - O governo Barack Obama aumentou a ênfase no chamado soft power (poder brando), diminuiu o recurso ao poderio militar, que deve ser exercido em parceria com outros países. A avaliação é de Amanda Dory, vice-secretária assistente para África do Departamento de Defesa dos EUA. "Os EUA continuam combinando soft power e hard power (poder duro, ligado à força militar) de acordo com cada situação", disse.

Dory diz que as operações de forças especiais na Somália e na Líbia, no início do mês, não representam uma mudança na doutrina militar nos EUA, que continuarão usando forças convencionais. Ela concedeu, no sábado, a seguinte entrevista ao Estado, depois de um debate sobre segurança na África, no evento Atlantic Dialogues, em Rabat, no Marrocos.

As duas últimas operações, na Somália e na Líbia, significam uma mudança de doutrina, com maior ênfase em ações das forças especiais?

AMANDA DORY - Eu não detecto uma mudança. O uso tanto de forças de propósito geral quanto de forças especiais nas operações tem sido uma prática contínua. Eu não interpretaria nada de particularmente diferente.

No Mali, a França tomou a dianteira, enquanto os EUA ficaram na retaguarda. Qual a percepção dos EUA sobre isso?

AMANDA DORY - Os colegas franceses deixaram bastante claro para nós que a França sentiu que seus interesses de segurança nacional estavam direta e imediatamente ameaçados. Por isso, eles entraram em ação. Acho que não tem nada a ver com quaisquer outras potências mundiais, mas com a preocupação da França com o impacto da queda de Bamako e o que isso significaria para a região, para o próprio Mali e para a tremenda diáspora malinesa na França. Aceito essa explicação pelo seu valor de face.

Os EUA têm exercido mais o soft power diante da tendência de Obama em não usar a guerra para mudar regimes?

AMANDA DORY - Certamente. Obama deixou claro, desde o início, que buscava pôr fim a guerras que se desenrolavam havia bastante tempo. E ele teve êxito. Os EUA continuam combinando soft power e hard power de acordo com cada situação. Há sempre um desejo de conservar uma reserva de poderio militar para o uso da força, de usar a força militar em parceria e de elevar a capacidade dos parceiros.

Elevar a capacidade de aliados também no campo militar?

AMANDA DORY - Sim. No Departamento de Defesa, focamos na área militar, enquanto o Departamento de Estado tem autoridade e expertise para atuar em outras partes dos serviços de segurança, que são tão ou mais importantes em muitos dos contextos aqui na África.

Qual é a dimensão da ameaça do crescimento de grupos radicais islâmicos no sul da Saara?

AMANDA DORY - Em primeiro lugar, os EUA estão preocupados com o impacto, sobre nossos amigos e parceiros na região, do crescimento do extremismo na África. Em alguns casos, são países frágeis, que estão enfrentando problemas, e os extremistas tiram proveito do ambiente política e socialmente conturbado. Alguns grupos têm uma orientação mais associada à guerra santa global do que outros, e é a eles que dedicamos atenção especial, buscando evitar situações em que eles possam atingir os EUA diretamente ou nossos parceiros da Europa.

A maioria dos líderes desses grupos é treinada na Arábia Saudita, de onde trazem a interpretação wahabita do Alcorão. O envolvimento saudita com os grupos radicais é uma das causas do atual distanciamento entre EUA e Arábia Saudita?

AMANDA DORY - Acho que não devo comentar se a sua interpretação é correta ou não, porque está além do meu escopo regional.

Mas a senhora reconhece a influência wahabita sobre esses grupos?

AMANDA DORY - Há, certamente, uma dimensão salafista nesses grupos, que não é a forma típica de prática do Islã na África, e está causando tensão e perturbação.

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