O ''falklander'' argentino

Os biógrafos de Willem de Kooning, artista holandês que migrou para os EUA, mas vivia com a alma dividida entre Europa e América, escreveram que "todo imigrante se quebra; magnificamente, às vezes". Não se sabe o que o pintor britânico James Peck pensa do mestre do expressionismo abstrato, mas ele acabou de ganhar cidadania argentina e, de quebra, quase provocou um conflito diplomático.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2011 | 00h00

A história de Peck seria uma das mais cotidianas, mas - por um mero acidente geográfico, potencializado por feridas históricas e ambições eleitorais - ela acabou tomando proporções internacionais, quase trágicas. Peck casou-se com uma argentina, de quem se separou há 18 meses. Hoje, ambos moram em Buenos Aires; Peck em uma casa e sua ex-mulher e os dois filhos do casal, em outra. Até aí, nada demais.

O problema é que Peck nasceu nas Ilhas Malvinas - ou Falklands, como preferem os britânicos -, aquele pedaço de nada no Atlântico Sul que foi pivô da brevíssima e inglória guerra entre Grã-Bretanha e Argentina, em 1982. O conflito acabou em apenas dez semanas, mas a guerra, ainda não. Com o casamento desfeito, Peck vinha enfrentando obstáculos para permanecer em solo argentino, mesmo sendo pai de filhos com cidadania binacional. Para não abrir mão da convivência com os filhos, o jeito foi abrir mão de parte da sua identidade.

Semana passada, Peck tornou-se cidadão argentino. Nada demais, em um mundo globalizado, onde milhões de pessoas cruzam fronteiras e trocam de pátria. Mas o feito ganhou tintas políticas quando a presidente Cristina Kirchner subiu ao palanque no aniversário da Guerra das Malvinas para apresentar pessoalmente a carteira de identidade de Peck. O pintor ainda posou ao lado de Cristina e o retratos dos dois - ela de sorriso soberbo, ele boquiaberto e com ar de fadiga - correu o mundo.

Pegou mal. Especialmente em Port Stanley, cidade natal de Peck e capital das Malvinas, das quais Argentina jamais desistiu e insiste em reaver. Logo: "Traição!", bradaram os "falklanders", como se chamam os nativos da ilha desde o tempo da rainha Vitória. Os mais exaltados até o ameaçaram de morte, segundo Peck. "As Falklands são da Grã-Bretanha", afirmou o primeiro-ministro britânico, David Cameron, e "ponto final". "Estupidez!", retrucou Cristina. "No século 21, a Grã-Bretanha continua um poder colonial tosco em decadência, pois o colonialismo está fora de época além de injusto", declarou.

Para piorar, Peck não é um falklander qualquer. É filho de Terrence John Peck, ex-policial e espião de guerra, herói eterno dos habitantes das ilhas - que o condecoraram por sua resistência aos latinos. Logo, Peck, que se desdobrava para evitar uma tragédia pessoal, se achou o "inocente útil" de um imbróglio intercontinental, à mercê de ranços políticos, demagogia eleitoral e vaidade. As relações entre Argentina e as Malvinas foram normalizadas há mais de uma década, mas "repatriar" as ilhas é ponto de honra na Argentina, ainda mais em campanhas eleitorais. E, embora Cristina esteja bem colocada para conquistar a reeleição na próxima votação, em outubro, empunhar a bandeira azul celeste contra um império invasor não faz mal.

O que o herói de guerra acharia de tudo isso? Terry Peck morreu em 2006, mas não antes de ver decolar a carreira de seu filho, prestigiado por seus retratos comoventes dos combatentes da Guerra das Malvinas.

Não acompanhou James em sua exposição de estreia, em Buenos Aires, mas, por causa do filho, acabou amigo do peito de outro veterano da guerra, o argentino Miguel Savage.

Até o fim de sua vida, o herói das Falklands sofreu com as sequelas da guerra, mas conseguiu vencer os demônios pessoais e políticos e até abraçar o inimigo. Quem dera agora, 29 anos depois, os governantes fizessem o mesmo.

É COLUNISTA DO ''ESTADO'', CORRESPONDENTE DA ''NEWSWEEK'' NO BRASIL E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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