O falso amanhecer do México

O progresso do país ainda está ligado a forças externas

É JORNALISTA, LARRY, KAPLOW, FOREIGN POLICY, É JORNALISTA, LARRY, KAPLOW, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2013 | 02h04

O México inicia o ano-novo com um otimismo inusitado. As pessoas estão esperançosas de que o pior da guerra da droga já passou e a economia voltou a crescer depois de uma brutal recessão. Mas no México as coisas nem sempre são o que parecem: o país está realmente mudando para o melhor, ou esta é apenas uma fase de sorte? As promessas do país - e seus problemas - ficaram plenamente à mostra nas primeiras semanas do presidente Enrique Peña Nieto no cargo.

Moradores de Juárez, conhecida pela violência, tiveram seu primeiro fim de semana sem um homicídio em cinco anos. Mas a maioria dos policiais de uma outra cidade na área central do México pediu demissão em meio a uma série de ataques.

Grande parte do México continua muito violenta, mas o número de mortes caiu um pouco em relação aos piores dias da guerra da droga. Nos últimos anos a taxa de homicídio era mais de três vezes e meia a dos Estados Unidos. Mas a situação melhorou bastante. Num (provavelmente incompleto) cálculo, o jornal Reforma citou 9.800 assassinatos envolvendo gangues em 2012 - uma forte queda em comparação com os 12.366 em 2011. Alejandro Hope, diretor da área de política de segurança no Mexican Competitiveness Institute diz que houve uma queda de 8% no número de mortes - talvez um melhor indicador do que apenas uma contagem de assassinatos relacionados com os cartéis.

Mas embora tenham se registrado quatro vezes mais mortes envolvendo gangues em relação a 2007, a queda registrada no ano passado trouxe um certo alívio. Em Juárez, as empresas estão reabrindo as portas e a vida noturna retornou. Os turistas voltaram para Acapulco depois de uma enorme operação militar na região.

Mas impedir uma nova e mortífera espiral de violência depende do quanto a mudança se deve às instituições mexicanas mais fortalecidas. Numa recente conversa Alejandro Hope citou sinais encorajadores: o governo duplicou e triplicou o orçamento destinado à segurança nos últimos anos, e a polícia e o Exército aprimoraram suas táticas. As forças de segurança foram à caça de traficantes do médio escalão, reduzindo, assim, os efetivos do cartel, mas não criou vazios de poder violentos que surgem quando chefões são derrubados. Outros observam que os agentes federais que inteligentemente desmantelaram forças policiais locais, com frequência muito corruptas ou intimidadoras para produzir alguma coisa positiva, antes de começar suas operações antidroga.

Mas a queda da violência também pode ter sido impelida por fatores menos encorajadores. No caso de Juárez, por exemplo, há discordâncias quanto às razões do forte declínio da violência. O México pode estar menos violento porque os cartéis estabeleceram seus feudos e em consequência agora têm menos motivo para guerrear. Uma queda no uso de cocaína nos EUA, disse Hope, provavelmente provocou uma queda das entregas para o país do norte, resultando em menos assassinatos relacionados à droga. E para um especialista, as guerras de cartéis podem ter esgotado o suprimento de assassinos de rua - no momento. "Isso pode sempre começar de novo", afirma Hope. "Vamos ter de combater o crime organizado por gerações."

No ano passado surgiram dúvidas sobre se a polícia estaria preparada para a batalha. Em junho, três policiais federais foram assassinados por colegas numa área do aeroporto da Cidade do México, aparentemente quando um grupo tentou prender os outros por contrabando. Outros 14 agentes federais foram acusados de atacar de surpresa um carro que transportava funcionários da CIA e um capitão da Marinha mexicana em agosto. A polícia federal é uma força independente e foi um elemento-chave da estratégia antidroga do ex-presidente Felipe Calderón. Mas Peña Nieto incorporou-a num outro ministério e constituiu uma "gendarmaria" para combater os cartéis. E embora os fuzileiros navais do México tenham registrado um grande êxito quando mataram o mais temido líder de cartel, o chefão do Zetas, Heriberto Lazcano, na realidade não sabiam quem era ele na época e seu corpo foi rapidamente roubado.

Dúvidas similares envolvem a economia mexicana, que se aproximou ou superou o crescimento de 4% dos últimos três anos. Mas ninguém sabe se o país conseguirá continuar avançando. Alguns acham que sim: segundo um recente estudo otimista, mas com reservas, na revista Economist, a reviravolta do país provavelmente levará a economia mexicana a figurar entre as dez maiores em 2020, ao passo que para o Banco Mundial, entre 2000 e 2010, 17% da população do México ascendeu à classe média.

Mas observando as entrelinhas vemos que o sucesso econômico do México é mais complicado. O estudo do Banco Mundial sobre uma classe média em expansão, por exemplo, definiu a renda da classe partindo de US$ 10 por dia por pessoa. Um levantamento feito pela ONU em 18 países latino-americanos mostra que quase todos reduziram a pobreza na última década de modo mais rápido do que o México. E a nova classe média com frequência depende de remessas em dinheiro enviadas por parentes nos EUA, que totalizam US$ 21 bilhões anuais.

O progresso econômico do país ainda está ligado a forças que fogem ao seu controle. A nova economia foi ajudada pelo fim da recessão nos EUA, que aumentou as exportações e liberou a demanda reprimida. Mas ficar à mercê dos caprichos das forças externas não é receita para um sucesso continuado. A prosperidade do livre mercado no longo prazo exige mais educação, infraestrutura e oportunidades iguais impostas por lei.

No momento o México e seu novo presidente estão mostrando grande ímpeto. Mas os mexicanos sabem que os bons tempos podem rapidamente degradar. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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