O fantasma de Hugo Chávez

O medo agora é que as bravatas e inseguranças do chavismo possam oscilar nas mãos do sucessor do líder bolivariano

WILLIAM J., DOBSON, SLATE, É EDITOR DE POLÍTICA, ASSUNTOS INTERNACIONAIS DE SLATE, WILLIAM J., DOBSON, SLATE, É EDITOR DE POLÍTICA, ASSUNTOS INTERNACIONAIS DE SLATE, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2013 | 02h08

Antes mesmo de morrer, Hugo Chávez já havia se tornado um fantasma. Um silêncio estranho e incomum desceu sobre a Venezuela durante semanas enquanto as pessoas esperavam para ouvir a voz do presidente que fizera parte de suas vidas cotidianas por quase 14 anos.

Isso porque Chávez falava constantemente aos venezuelanos. Suas observações, em geral improvisadas, duravam tipicamente mais de quatro horas. E aí veio o silêncio. Os venezuelanos ouviram seu presidente pela última vez em 8 de dezembro quando ele anunciou que estava retornando a Havana para sua quarta cirurgia para tratar de uma recidiva de câncer.

Ele só voltaria à Venezuela em 18 de fevereiro, enfiando-se num hospital militar em Caracas. Chávez voltou para casa, mas nunca voltou de verdade. Estava presente, mas não podia ser visto. O silêncio lúgubre só foi quebrado com o anúncio feito por Nicolás Maduro, na terça-feira à noite, de que o presidente de 58 anos havia morrido.

O que Chávez legou a seus conterrâneos venezuelanos? Os fatos duros são inconfundíveis: o país sul-americano rico em petróleo está em frangalhos. Ele tem uma das taxas de inflação mais altas do mundo, um dos maiores déficits fiscais e as dívidas que mais crescem. A despeito do boom dos preços do petróleo, a infraestrutura do país está abandonado e o país é mais dependente das exportações de petróleo bruto do que quando Chávez chegou ao poder.

O crime e a violência cresceram exponencialmente durante os anos de Chávez. Num fim de semana comum, mais pessoas são mortas em Caracas do que em Bagdá e Cabul juntas. (Em 2009, houve 19.133 assassinatos na Venezuela, mais de quatro vezes o número de uma década antes).

A ideologia política por trás de Chávez, o chavismo, foi um fracasso demonstrável para o povo venezuelano, mas não é como se o próprio Chávez houvesse falhado. Apesar do desempenho fraco de seu governo, a plataforma do comandante garantiu-lhe mais seis anos no cargo, com uma vitória por uma diferença de 11 pontos em outubro.

Será que Maduro, o sucessor escolhido a dedo por Chávez, e seus outros camaradas conseguirão fazer as coisas melhorarem a partir da situação que o líder bolivariano as deixou? Seus sucessores estariam em melhor situação se Chávez tivesse sido um típico ditador sul-americano. Mas ele não foi apenas mais um caudilho que enchia urnas com votos e perseguia seus inimigos. O regime de Chávez foi bem mais sofisticado.

Como muitos líderes autoritários, Chávez centralizou o poder para seu uso. Pouco depois de assumir o cargo, em 1999, ele tratou de controlar cada ramo do governo, as Forças Armadas, o Banco Central, a companhia estatal de petróleo, boa parte da mídia, e toda empresa do setor privado que ele decidisse expropriar. Mas a Venezuela nunca experimentou amplos abusos dos direitos humanos. Apesar de todo amor professado por Chávez a Fidel Castro, seu regime nunca foi tão repressivo quanto a ditadura dos Castros.

E Chávez não temia eleições: ele as abraçava. A maioria dos líderes de oposição dirá que as eleições venezuelanas são relativamente limpas. O problema não é o dia da eleição - são os outros 364 dias. Em vez de encher as urnas com votos, Chávez compreendeu que poderia inclinar o campo de jogo o suficiente para tornar quase impossível alguém o derrotar. Assim, os gênios eleitorais do regime montaram esquemas dissimulados. Os cofres de campanha de Chávez são alimentados por fundos opacos com bilhões da receita do petróleo. O controle da mídia pelo governo sufocava a oposição. Políticos que pareciam formidáveis eram impedidos de concorrer à presidência. Chávez assumiu uma mensagem populista e a casou com um esquema autoritário que lhe permitiu consolidar o poder. O efeito resultante nos anos de Chávez foi paradoxal: em cada eleição a Venezuela perdia mais de sua democracia.

Como ocorreu com Che Guevara, o rosto de Chávez poderá estampar camisetas nas próximas décadas, mas o chavismo como projeto político não é possível sem Chávez. Como força motriz, não há nenhuma substância real nele além do homem em seu centro. O que ele é? Populismo, socialismo, militarismo, xenofobia, nacionalismo, marxismo, antiamericanismo, luta de classes, revolução bolivariana, ilegalidade, corrupção, colapso financeiro - depende do ponto de vista.

Vitrine. Ele sempre foi um amálgama. Se tinha algum poder de permanência, era porque ajudou os venezuelanos a construir alguma coisa sustentável. De novo, o país está quase em ruínas. O chavismo só serviu de vitrine para o homem que o propunha. Um homem cujas origens humildes e personalidade carismática ajudaram a forjar uma conexão com os pobres do país, uma população que fora por muito tempo excluída da política. Um homem cujo estilo, voz e métodos eram tão imprevisíveis que seus adversários precisaram de mais de uma década para compreender a quem estavam se opondo.

A questão que se coloca agora é o que virá em seguida. Segundo a Constituição, o governo deve realizar novas eleições presidenciais em 30 dias. Se isso ocorrer, o Maduro, herdeiro político de Chávez, provavelmente enfrentará Henrique Capriles, o líder da oposição que foi vencido nas eleições de outubro.

Apesar de sua derrota na última eleição presidencial, Capriles é um político bom de campanha que por duas vezes derrotou autoridades com laços fortes com Chávez em eleições estaduais. Mesmo assim, se a eleição for mantida no prazo estipulado, uma mistura de tristeza e nostalgia pelo líder tombado do país provavelmente dará vantagem a Maduro.

Como presidente Maduro responderia às condições críticas que herdaria? Quando Chávez enfrentava críticas por um governo falido após outro, seu carisma e conexão com os eleitores lhe permitiam pôr a culpa em seus ministros. (Chávez trocou quase 200 ministros em seus primeiros 10 anos). Maduro não tem a astúcia e o brilho do comandante. Sua principal qualidade parece ter sido sua disposição de prestar obediência a Chávez sem fazer perguntas. E, diferentemente de seu antecessor, Maduro poderá nem sequer estar principalmente preocupado em manter em cheque a oposição. Ele deve saber que há muitos políticos de seu próprio campo esperando para aproveitar seu primeiro tropeço.

Tudo isso pode apontar para um palácio presidencial mais inseguro, paranoico e, talvez, agressivo. Aliás, a declaração de Maduro informando aos venezuelanos sobre a morte de Chávez não perdeu tempo para se engajar na busca bizarra e politicamente carregada de bodes expiatórios. "Não temos dúvida, chegará um momento na história em que poderemos criar uma comissão científica para mostrar que o comandante Chávez foi atacado com essa doença", disse Maduro na terça-feira. Maduro também acusou os EUA de tentarem desestabilizar o regime.

Palavras combativas, advertências contra uma intervenção militar americana e teorias conspiratórias excêntricas sempre foram ingredientes básicos da retórica de Chávez. O medo agora é que a mistura de bravatas e insegurança do chavismo possa oscilar imprevisivelmente nas mãos do camarada que suceder a Chávez. Num país tão polarizado quanto a Venezuela, figuras políticas dizerem a seus seguidores que a pessoa que discordar delas poderá ser responsabilizada pela morte do amado líder chega perigosamente perto de tocar fogo num barril de pólvora.

Caracas permaneceu calma na terça-feira à noite, mas ela pode ser efêmera. Nos próximos dias e semanas, podemos esperar que os herdeiros políticos de Chávez continuarão virando as páginas de seu songbook. Mas já sabemos que nenhum deles conseguirá cantar uma canção como Chávez. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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