O faraó na jaula: Mubarak no banco dos réus

Julgamento deve marcar novo momento para mundo árabe, mas pode tornar mais difícil depor outros ditadores

Anthony Shadid, The New York Times, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2011 | 00h00

As manchetes dos jornais à venda numa estação de metrô antes chamada Mubarak - e agora rebatizada de Estação dos Mártires - capturaram na terça-feira o momento que pode se revelar um dos mais marcantes da história árabe moderna: "O faraó na jaula dos acusados".

"Estamos vivendo um momento importante da revolução", disse o passageiro Mohammed Fathi, enquanto os trens se arrastavam pela caótica algazarra do ofegante Cairo.

A jaula é exatamente como sugere o nome - um pequeno espaço delimitado por barras metálicas, semelhante à jaula em que foi julgado o assassino de Anwar Sadat 30 anos atrás. O faraó é o sucessor de Sadat, Hosni Mubarak, ex-herói de guerra, ex-presidente e ex-ditador deposto pelas épicas manifestações que ganharam força na Praça Tahrir em fevereiro.

Na véspera, ainda havia dúvidas quanto à participação de Mubarak - recuperando-se num hospital no Sinai - no julgamento, que está sendo realizado numa academia de polícia no Cairo que, como a estação de metrô, antes trazia o nome dele. A ansiedade fez-se sentir em toda a inquieta paisagem do Egito nas horas que antecederam o início do julgamento, onde a revolução que o depôs se mostrou muito mais fácil do que o árduo trabalho posterior de erguer uma nova ordem.

Nas estações de metrô, bibliotecas, escolas e ruas de uma cidade que ferve com o calor do verão e os temperamentos explosivos, havia um clima de assombro, ansiedade e dúvida em relação ao julgamento de um homem cujo poder imperial pareceu um dia tão distante e incontestável que um famoso romance egípcio se referia a ele simplesmente como O Chefão. Nas conversas a respeito do destino dele, eram comuns os pedidos de justiça e de vingança, bem como catárticas manifestações de sentimentos intermediários.

"Quem poderia imaginar que um dia Mubarak seria levado a julgamento?", perguntou Ahmed Abdullah, mecânico de 30 anos, diante de uma escola que antes tinha o nome de Mubarak e agora ostenta o nome do primeiro muezim do Islã - o responsável pelo chamado às preces diárias. "Quem acreditaria nisso se contássemos? E até os filhos dele!", acrescentou um amigo, Mohammed Ibrahim. "É muito estranho", respondeu Abdullah.

A própria perspectiva do julgamento de Mubarak parecia marcar um novo momento para o mundo árabe. Talvez seja comparável à captura, julgamento e execução de Saddam Hussein, apesar de ele ter sido derrubado por uma invasão americana que tinha como base um pretexto que se revelou falso.

Mubarak foi deposto por uma revolução popular. A cena de Mubarak diante de um juiz pode, na verdade, fazer com que as revoltas árabes na Síria, Líbia e Iêmen se tornem ainda mais difíceis de resolver. Alguns representantes de governos árabes disseram que processar Mubarak pode fazer com que ditadores desafiados por levantes se mostrem mais relutantes em deixar o poder.

No Egito, poucos estão preocupados com estas implicações - nem mesmo aqueles que se afligem ao pensar num homem de 83 anos e saúde frágil enfrentando um julgamento que pode acarretar na pena de morte.

Num país há tanto tempo governado pelos caprichos arbitrários daqueles que nunca podiam ser responsabilizados, os egípcios sentiram que algo tinha mudado. "Somos um estado de direito, e o direito está sendo aplicado", disse o arquiteto Fathi.

Representantes do governo egípcio disseram na terça-feira que Mubarak seria levado de Sharm el-Sheikh a bordo de um avião militar, possivelmente ao raiar do dia. A saúde de Mubarak tem se mostrado frágil desde abril, quando ele foi oficialmente acusado.

Houve relatos de que ele teria parado de se alimentar, tinha entrado em coma ou desenvolvido depressão, mas o ministro da Saúde disse que Mubarak estava bem o bastante para viajar de Sharm el-Sheikh até a academia de polícia no Cairo.

Julgamento. Cerca de 600 pessoas receberam permissão para entrar no tribunal, que foi guardado por 5 mil soldados e 50 tanques e veículos blindados. Para as multidões do lado de fora, funcionários do governo disseram que instalariam monitores para que o povo acompanhasse o andamento do processo, que acabou sendo adiado para o dia 15, a pedido do advogado de Mubarak.

O conselho militar formado por 19 generais que governa o Egito desde a revolução parecia repudiar a ideia de levar a julgamento um dos seus - ninguém menos do que seu antigo comandante. Muitos especulavam que os generais estariam torcendo para que ele morresse antes da data marcada para o início do processo.

"No governo, ninguém quer julgá-lo", disse a estudante Afaf Ali, de 19 anos. "Sabe o que espero?", perguntou o amigo dela, Mohammed Hussein. "Algum tipo de surpresa. Não sei ao certo que tipo de surpresa, mas será algo grande."

A Praça Tahrir, no centro do Cairo, é hoje um eco distante das tumultuadas cenas de fevereiro que inspiraram o mundo árabe. O centro da Praça Tahrir está agora cercado pela tropa de choque de uniforme preto e capacete, antigo símbolo do regime de Mubarak, que durante 30 anos reprimiu ritualmente até mesmo as manifestações mais modestas de dissensão. Soldados de boina vermelha sentam-se sob desgastadas pichações que dizem: "O povo egípcio é livre".

A perspectiva do julgamento pareceu encarnar todas as emoções conflitantes atuais em relação à revolução egípcia - segundo as quais ela teria ido longe demais, ou não teria ido longe o bastante. Ou que o julgamento serviria equivocadamente como fim símbolo das demandas de muitos em fevereiro, que afirmaram que a revolução não era simplesmente pela queda de Mubarak, e sim pelo fim do Estado autoritário.

Um jornal se referia ao "acusado Hosni Mubarak" e, para Aboul-Ela Ahmed, alguém importante estava finalmente sendo responsabilizado por todas as humilhações, subornos, indignidades e dificuldades que seu Estado causou. "Ele precisa ser levado ao juiz", disse Ahmed, motorista aposentado.

Na Estação dos Mártires, perto de um cartaz que dizia "Vamos construir nosso país", Ahmed Sayyid mostrou-se mais pensativo. Suas palavras não pediam vingança nem justiça. "O único motivo pelo qual queremos julgá-lo - o único - é fazer do caso dele um exemplo para seu sucessor", disse. "Há limites para o poder." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É CORRESPONDENTE

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