O fator medo

Sem ditadores, árabes não deixaram de temer uns aos outros

THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2012 | 03h06

Uma análise que resume a força e a fraqueza das sublevações árabes foi fornecida por Daniel Brumberg, codiretor do programa de estudos sobre governança e democracia na Universidade Georgetown. Ele observou que os levantes árabes ocorreram porque as populações deixaram de temer seus líderes, mas essas revoluções não avançaram porque as mesmas populações árabes não deixaram de temer umas às outras.

Essa dicotomia não provoca nenhuma surpresa. A cultura do medo foi alimentada e nutrida pelos ditadores. Muitos governaram seus países como os chefões da Máfia, usando da chantagem. Seu desejo era o de que as pessoas temessem umas às outras mais do que o líder, de modo que cada ditador ou monarca se mantivesse acima da sociedade como um todo, oferecendo amparo e proteção e, ao mesmo tempo, governando com punho de ferro. Será preciso mais do que apenas decapitar esses regimes para superar esse legado. Será necessária uma cultura de pluralismo e cidadania. Antes disso, tribos continuarão temendo tribos na Líbia e no Iêmen, seitas continuarão temendo seitas na Síria e no Bahrein, cristãos e laicos continuarão temendo os islâmicos no Egito e na Tunísia e a filosofia do "governar ou morrer" ainda será um concorrente poderoso do princípio do "um homem, um voto".

Transição. Você seria muito ingênuo se pensasse que a transição de identidades enraizadas para "cidadãos" seria fácil. Foram necessários dois séculos de luta e compromissos para os EUA chegarem a ponto de eleger um homem negro, tendo Hussein no seu sobrenome, como presidente e depois pensar em substituí-lo por um mórmon. E este é um país de imigrantes.

Mas você também seria cego e surdo às vozes e aspirações profundamente autênticas que desencadearam a Primavera Árabe se não entendesse que, em todos esses países, existe um anseio - particularmente entre os jovens árabes -, de uma verdadeira cidadania e um governo participativo e responsável. É o que muitos analistas não estão percebendo hoje. Essa energia ainda está presente e a Irmandade Muçulmana, ou qualquer outro que governar o Egito, terá de responder a isso.

Exatamente porque o Egito é o oposto de Las Vegas - o que ocorre ali nunca fica ali - a maneira como o presidente recém-eleito, Mohamed Morsi, o candidato da Irmandade Muçulmana, vai trabalhar com elementos seculares, liberais, salafistas e cristãos da sociedade egípcia terá um enorme impacto sobre todas as outras sublevações árabes. Se os egípcios conseguirem forjar um contrato social factível para se governarem, isso servirá de exemplo para toda a região. Os EUA promoveram a criação desse contrato social no Iraque, mas o Egito necessitará de um Nelson Mandela.

Mandela. E Morsi conseguirá assumir um papel no estilo de Mandela? Há algo de surpreendente nele? As primeiras indicações são ambíguas. "À medida que Mohamed Morsi se prepara para se tornar o primeiro presidente eleito democraticamente do Egito, ele precisa decidir quem ele realmente é: um unificador político que deseja 'um Egito para todos os egípcios', como disse logo após ser declarado presidente, ou um islâmico leal à proposição várias vezes reafirmada durante sua campanha para o primeiro turno da eleição, ou seja, 'o Alcorão é a nossa constituição'", escreveu Brumberg no site foreignpolicy.com.

"Não é tanto uma escolha intelectual e mais uma opção prática e política", ele acrescentou. "O maior desafio para Morsi é unir uma oposição política que sofreu com as divisões fundamentais entre islâmicos e não islâmicos e dentro de cada um desses campos também. Se o seu apelo a um governo de união nacional representa apenas uma tática de curto prazo para enfrentar os militares e não um compromisso estratégico de adotar o pluralismo como modo de vida político, as chances de ressuscitar uma transição que há apenas alguns dias estava prestes a sucumbir serão mínimas, na verdade."

Cabe à Irmandade Muçulmana, agora, estender a mão para os outros 50% do Egito - seculares, liberais, salafistas e cristãos - e assegurar a eles que não só não serão prejudicados, mas suas opiniões e aspirações serão equilibradas com as da Irmandade. E isso vai exigir, no decorrer do tempo, uma revolução de pensamento no caso da liderança e das bases da Irmandade para realmente adotarem um pluralismo político e religioso à medida que passam da oposição para o governo. Isso não deve se verificar da noite para o dia, mas, se não ocorrer, o experimento democrático egípcio fracassará e será um terrível precedente para a região.

Os EUA têm alguma influência em termos de ajuda externa, ajuda militar e investimentos estrangeiros e devemos usá-la deixando claro que respeitamos o voto do povo egípcio e queremos ajudar o país a prosperar, mas nosso apoio ficará condicionado a certos princípios.

Que princípios? Os nossos princípios? Não. Os princípios identificados pelo Relatório das Nações Unidas de 2002 sobre o Desenvolvimento Humano Árabe, que foi escrito pelos e para os árabes. De acordo com o documento, para o mundo árabe prosperar ele terá de superar seu déficit de liberdade, seu déficit de conhecimento e de capacitação das mulheres. E eu acrescentaria, o seu déficit de pluralismo político e religioso. Devemos ajudar qualquer país cujo governo trabalhe com base nesse programa - incluindo um Egito liderado por um presidente da Irmandade Muçulmana. E devemos retirar nosso apoio a qualquer governo que não o faça. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É COLUNISTA, ESCRITOR, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER

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