O fator Nadine e o Peru

Na América do Sul, o Peru surpreende. Enquanto a economia global patina, ele cresce a taxas quase chinesas - 8,8% em 2010 e 6,9% em 2011. Nesse ano, o PIB deve dilatar uns 6%, quase o dobro da média latino-americana. Investidores estrangeiros fazem fila e agências de risco aplaudem. Atrás apenas o Chile, é o segundo melhor país para se fazer negócio na América Latina, segundo o Banco Mundial. O governo ainda ofereceu uma mão para repatriar 22 mil migrantes peruanos apanhados na crise econômica - da Europa. O que foi afinal que deu certo?

MAC MARGOLIS É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA NEWSWEEK E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2012 | 02h05

Ollanta Humala tinha tudo para fazer um governo desastrado. Ex-militar que liderara um golpe de Estado frustrado, Humala era dono de um currículo incendiário que arrepiava metade do eleitorado, escaldada com uma sequencia de populistas e autocratas, enquanto eletrificava a outra, ansiosa pela revolução. Quando Humala liderava a campanha presidencial do ano passado, seguido pela direitista Keiko Fujimori, o escritor Mario Vargas Llosa desesperou-se. Seria uma escolha entre aids e câncer, desabafou. Agora seria Humala o antibiótico?

A conversão do presidente Humala é uma das histórias mais intrigantes da política latino-americana. Talvez o mais fiel dos acólitos do consenso Lula, o peruano contratou marqueteiros petistas para se reinventar e deu um cavalo de pau nas ideias. Despiu-se das camisas vermelhas, relaxou o punho cerrado. Elegeu-se como radical do centro e cercou-se de medalhões da economia, paladinos da sobriedade fiscal.

Seu ministro da Economia, Luis Miguel Castilla, acaba de prescrever medidas urgentes para turbinar a produtividade, outrora pauta "neoliberal". Sua meta: fazer jus à previsão do banco HSBC, que aponta o país como uma das 26 economias capazes de liderar o crescimento global até 2050. Em giro internacional, Humala estendeu o tapete vermelho aos europeus. Em Lisboa, vendeu seu país - alô, Brasil? - como o portão principal de entrada de bens portugueses para América Latina e também para o continente asiático.

Foi longe demais? No caminho para o centro, Humala atropelou sensibilidades. O presidente comprou brigas com a esquerda, que o acusa de traidor da pátria, e com os trabalhadores, que exigem fatias cada vez maiores da bonança mineira. Sucessivas greves nas minas do país já preocupam as mineradoras, que têm engavetado projetos.

Primeira-dama. Mas há outra explicação para a turbulência de seu mandato. Chama-se Nadine. Jovem, estilosa e com traços aquilinos, Nadine Heredia é uma primeira-dama de ferro. Segundo os desafetos, ela é a eminência parda do país. "Vivemos uma feminocracia", fulminou o respeitado jurista constitucional Javier Valle Riestra, em entrevista ao jornal Espresso Peru. "Ollanta Humala preside e Nadine governa", completou.

Pelas más línguas, Nadine Heredia não apenas teria ascendência sobre seu marido, como também exerceria quase um poder de veto na política palaciana.

Um gesto recente atribuído a ela foi a repentina transferência de Antauro Humala, irmão do presidente, de um presídio comum para uma penitenciária de segurança máxima. Autor intelectual da tentativa de golpe de 2005, Antauro foi condenado a 25 anos de prisão. Com a eleição, esperava o indulto presidencial, que não veio. Ganhou até um habeas corpus, mas acabou transferido para a Base Naval, reduto de assassinos, traficantes e terroristas. Atrás das grades, hoje lança petardos contra a política do irmão mandatário e, especialmente, da suposta ingerência da primeira-dama.

A clã dos Humala tomou as dores do familiar detento, incentivado pelo próprio patriarca, Isaac. "Se Antauro fosse presidente da República, faria melhor que seu irmão", fulminou em entrevista à televisão peruana.

Humala não é o único chefe de Estado com parentes inconvenientes. Jimmy Carter teve seu irmão bebum. Lulinha deu trabalho ao papai, Lula. Mas poucos parentes ostentam o poder de fogo de Nadine. Na última pesquisa de opinião pública, o presidente alcançou 43% de aprovação. Já a primeira-dama cravou uns 68%. Quando Nadine fala, convém ouvir.

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