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O fim da era Bouteflika na Argélia

A luta não acabou, pois permanecem no palácio os conselheiros da sombra

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2019 | 05h00

Na manhã de domingo, Ali Hadad, um rico argelino, preparava-se para cruzar a fronteira entre a Argélia e a Tunísia quando a polícia o prendeu, protegendo-o de uma multidão que gritava: “Vocês devoraram o país, bando de ladrões”. Foi realizada uma vistoria do carro de Ali Hadad e encontrou-se  5 mil euros. Mas o que são 5 mil euros em comparação com os 600 milhões de euros que possui o empresário? Um bocado de pão.

Dois dias depois, o general Gaïd Salah, chefe de gabinete e o número 2 do regime, anunciou que o presidente Abdelaziz Bouteflika havia renunciado a pedido dos generais. A fuga de Hadad, preso no domingo, então fazia sentido: era o fim do “regime Bouteflika” e os oligarcas tentavam fugir da derrocada.

Assim, Argel apresentava um espetáculo clássico: quando um ditador é rejeitado, seja por um golpe , ou como é o caso na Argélia, pela cólera do povo, aqueles que apoiavam o regime fogem do navio no momento em que ele afunda. Soubemos um pouco mais tarde que vários “oligarcas argelinos” estavam sob vigilância e provavelmente também tentavam sair do vespeiro da “rua argelina”.

Esta “rua” extraordinária acabou derrubando o sistema que sujeitou o país por 20 anos a uma “quadrilha”. Bouteflika, um presidente antes brilhante, mas atingido por um derrame e reduzido ao estado de “morto-vivo”, pretendia se apresentar pela quinta vez para a função suprema. Como ele conseguia manifestar sua vontade, esse fantasma, imóvel para a eternidade? 

Nesta tragédia, um participante mostrou sabedoria, coragem e grandeza. Foi o povo argelino, a rua de Argel, que semana após semana se reunia. Eram centenas de milhares, sem o menor gesto de violência, tendo como único meio de expressão discursos, canções, slogans, ousadia, sabedoria. Um soberbo exemplo de inteligência política, que deveria servir de inspiração à França, este país no qual as multidões, como a polícia, não conseguem se cruzar sem confrontos, selvageria e saques.

Nenhuma ilusão. Se Bouteflika parte, finalmente, a luta não acabou, pois permanecem no funéreo palácio da presidência os conselheiros da sombra em torno do irmão do presidente (Said) e sua escolta de lacaios. E também os grandes grupos do Estado que, servilmente, obedeceram durante anos ordens vindas do Palácio.

No primeiro escalão desses grandes grupos, o todo-poderoso Exército, cujo chefe do Estado-Maior é precisamente o general Salah que anunciou a destituição de Bouteflika.

Um bom exemplo de coragem? Bem, não. Pois o Exército era precisamente um daqueles respeitáveis grupos que sustentavam a múmia em seus braços, para prosseguir sua carreira como “generais de salão”, que administravam grande parte do aparato industrial e financeiro do país. Na verdade, o gesto do general Salah é o de um homem covarde que, no último momento, libera Bouteflika, que o havia designado para aquela posição elevada.

Algumas vezes tem sido dito que, se é difícil “tomar o poder”, é mais difícil ainda encontrar a saída de emergência quando esse poder chega ao fim. É então que as verdadeiras escolhas começam, e nos aproximamos deste território escabroso onde reinam demônios, ladrões e trapaceiros. Mas aquela rua mostrou tanta inteligência, fraternidade, sagacidade e coragem, que somos tentados a acreditar que ela atravessará esta parada sem macular sua alma, nem lamentar sua vitória. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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