O fim da era Kirchner?

Votação de domingo mostra que o projeto inaugurado em 2003 por Néstor está desgastado, mesmo com a oposição fragmentada

Joathan Gilbert*, O Estado de S.Paulo - Christian Science Monitor

30 de outubro de 2013 | 02h12

O futuro do modelo político da presidente Cristina Kirchner foi duramente posto à prova no domingo, depois que os partidos da oposição ganharam as eleições de meio de mandato nas principais províncias argentinas. Mas o bloco governista de Cristina, com a Frente para a Vitória (FpV), continua o mais popular no plano nacional, com 33% dos votos. Os aliados kirchnerista afirmam que a oposição, fragmentada, lutará duramente para romper esse apoio nas eleições presidenciais de 2015.

A ascensão de novas forças políticas nos centros urbanos em toda a Argentina significa uma mudança importante. "Os argentinos decidiram fechar o ciclo político dos Kirchner", escreveu o comentarista político Joaquín Morales Solá, no jornal La Nación. A Frente para a Vitória perdeu principalmente na Província de Buenos Aires, na qual residem cerca de 15 milhões de pessoas, mais de um terço do total da população do país.

Sergio Massa, prefeito de Tigre, que rompeu com o partido de Cristina em julho, liderou uma lista de candidatos naquela província para a Frente Renovadora, da oposição, ganhando de maneira convincente. Ele recebeu cerca de 44% dos votos, com 12 pontos a mais do que a Frente para a Vitória.

Massa agora se torna um parlamentar na Câmara Baixa do Congresso, onde deverá começar o lançamento de sua candidatura à presidência. Para isso, sua Frente Renovadora precisa ganhar o apoio dos peronistas, atualmente alinhados com a Frente para a Vitória, de Cristina.

"Haverá um realinhamento com o peronismo e Massa, que é muito perspicaz, vai ganhando apoio gradativamente", afirma o analista político Sergio Berensztein. Sugerindo suas aspirações presidenciais e seu objetivo de conseguir o apoio de todo país, Massa disse aos seus partidários depois das eleições: "Esses milhões de votos nos obrigam a cruzar as fronteiras das províncias e a viajar por toda a Argentina". Mas a oposição é ainda muito fragmentada no plano nacional.

Escrevendo no jornal Página/12, favorável ao governo, o analista político Mario Wainfeld destacou o fato de que a Argentina tem "um partido governista, mas muitos partidos de oposição".

Diferentes alianças opositoras, incluindo a Frente Renovadora, de Massa, ganharam em cinco centros urbanos. E, depois da vitória do seu partido de centro-direita, o prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, anunciou imediatamente que se candidatará à presidência em 2015. "Será muito difícil mudar o que o casal Kirchner fez na Argentina como um todo", diz Leandro Franchelli, partidário de Cristina.

Somando os anos de Cristina e Néstor, os Kirchners estão no poder desde 2003. Mas, pela Constituição, a presidente está impedida de concorrer a um terceiro mandato consecutivo. A opinião geral é que, se tivesse levado dois terços do Congresso, ela tentaria a reforma da Constituição para concorrer mais uma vez, embora Cristina negue isso.

Além dos resultados negativos das eleições, a restrição à liderança dos Kirchner desencadeou a incerteza dentro de seu partido. Entretanto, conseguiu manter uma pequena maioria em ambas as Casas do Congresso. Massa prometeu combater a alta da inflação, que segundo os economistas chega a 25%, e a violenta criminalidade das ruas, que atualmente está em alta. Ele pediu também união e diálogo. Muitas pessoas consideram Cristina excessivamente autoritária e combativa.

Votando em Tigre, cidade da qual Massa é prefeito, Carlos Domínguez diz que votou em Cristina em 2011, mas desta vez deu seu voto a Massa. "Ele é a melhor opção para o futuro", observou.

*Joathan Gilbert é jornalista.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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