O fim da Europa política

Decisões tomadas por países de bloco enfraquecem poder regional e dificultam a recuperação econômica europeia

Michel Rocard, Project Syndicate, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2010 | 00h00

Uma série de decisões tomadas na Europa nos últimos anos me alarmou. A primeira delas impôs a regra da unanimidade no âmbito da União Europeia para qualquer decisão que envolva a política externa ou o emprego de força militar para finalidades que não sejam humanitárias. Justamente porque todos precisam concordar, nenhum acordo é estabelecido.

Como resultado, a Europa é incapaz de desenvolver uma política externa conjunta. A segunda decisão alarmante limitou o orçamento da União a apenas 1% do PIB da UE, evitando assim qualquer nova iniciativa de política conjunta na maior parte da última década.

A terceira decisão envolve o veto britânico às candidaturas de Jean Luc Dehaene e Jean Claude Juncker para a presidência da Comissão Europeia. Quando a mais recente negativa britânica foi anunciada, declarei entristecido a morte da Europa política.

Estas decisões tornaram-se mais alarmantes com o passar do tempo conforme a necessidade de uma "Europa mais unida" era cada vez mais sentida. Somente uma Europa unida e forte pode entrar na luta contra a mudança climática, encorajar a implementação de novas regras financeiras para evitar os excessos que levaram à crise de 2008-2009, e lidar com uma China que logo corresponderá a 20% do comércio mundial.

Enquanto isso, a Alemanha, há muito a orgulhosa carregadora da tocha europeia, voltou cada vez mais as costas para este legado, especialmente depois que os mercados lembraram os alemães de que seu país é muito mais europeizado do que eles parecem perceber ou acreditar. A Alemanha se uniu à Europa quando a crise estava em seu auge global no ano passado. Mas agora, com o recuo do medo do Armagedon global, a Alemanha voltou-se para o próprio interior.

Isto ocorre num momento particularmente curioso, pois esta nova insularidade surge quase imediatamente após Alemanha, França e Grã-Bretanha terem concordado em conferir à UE um presidente do Conselho da União Europeia e um ministro das Relações Exteriores. Mas os indicados para os dois cargos traíram as intenções das três potências da UE: apesar de honrados e competentes, o presidente Herman Van Rompuy e a baronesa Catherine Ashton são perfeitamente desconhecidos e, assim, não representam ameaça para o status quo em Berlim, Paris e Londres.

É claro, ainda há a questão do euro, o único grande sucesso político da Europa nas últimas duas décadas. Mas agora, até a moeda comum é questionada, graças à Alemanha. Todos admiram a rigorosa administração e a capacidade de reforma da Alemanha.

Mas a crise mudou tudo. Ela prejudicou países europeus menos robustos do que a Alemanha.

Em oposição a quase todos os primeiros-ministros e presidentes da zona do euro, a Alemanha insistiu que o Fundo Monetário Internacional fosse convocado para o resgate da Grécia, uma brutal negação do princípio de solidariedade por trás do euro.

E, graças à Alemanha, os juros que a Grécia terá de pagar por pacotes de empréstimo serão altíssimos, o que significa que a economia grega será incapaz de se recuperar por um período considerável, e seu drama financeiro terá um grande peso no futuro do euro.

Além disso, a chanceler alemã, Angela Merkel, tomou a liberdade de ponderar sobre a exclusão dos países em dificuldades da zona do euro. Ao fazê-lo, ela ofereceu uma solução que é totalmente vetada pelos tratados de fundação do euro, mas que serviu como alerta de que a Alemanha pode estar preparada para desestabilizar a zona e a moeda comum em nome de seus próprios objetivos políticos. Por que Merkel está agindo desta forma? Um dos motivos está no fato de ela liderar um governo de coalizão que se encontra numa situação difícil diante do próprio Parlamento.

Mas se a visão limitada e as pressões políticas domésticas levarem cada membro da UE a adotar toda e qualquer medida que atenda aos seus interesses individuais, a Europa logo passará de uma crise econômica para uma crise política.

Se a "Europa política" dispusesse de mais poder, a crise grega teria sido resolvida por meio de um brutal debate entre altos representantes. Mas não existe Europa política - e não resta muita energia à Europa econômica. Levando-se em consideração o estado atual das finanças globais, a morte do euro seria uma catástrofe de proporções fenomenais.

Isso ainda pode ser evitado, mas somente se todos os europeus se lembrarem da solidariedade e começarem a agir com coragem e tenacidade fora do comum. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É MEMBRO DO PARLAMENTO EUROPEU, EX-PRIMEIRO-MINISTRO FRANCÊS E EX-LÍDER DO PARTIDO SOCIALISTA

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