Federico Rios Escobar/The New York Times
Jovem rebelde das Farc posa com sua Kalashnikov Federico Rios Escobar/The New York Times

O fim de 52 anos de guerra na Colômbia: Ausência do Estado ameaça acordo de paz

Moradores de Planadas temem que quadrilhas assumam vazio deixado pelas Farc

Fernanda Simas, enviada especial / Planadas, Colômbia, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2016 | 05h00

PLANADAS, COLÔMBIA - Falar do acordo de paz entre o governo de Juan Manuel Santos e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) na região conhecida por ser o berço da guerrilha não é motivo de alegria para todos. Os moradores de Planadas, no Departamento (Estado) de Tolima, estão dividos entre votar a favor ou contra o acordo no plebiscito de hoje, mas concordam em uma coisa: se não houver forte presença do Estado a partir de agora, na cidade e povoados vizinhos, outros grupos criminosos ocuparão o vazio de poder deixado com a saída da guerrilha mais antiga da América Latina.

“O acordo é um engano para o povo, para os camponeses. As pessoas estão iludidas, apenas veem as festas pelo processo de paz. Para mim, quando as Farc estavam aqui, as coisas funcionavam melhor. Agora, se vê uma grande quantidade de gente usando drogas, as coisas estão piores”, afirma Marta, dona de uma barraca de salgados na praça da cidade, ao redor da qual estão os principais pontos do local: prefeitura, delegacia e igreja. Não há um grande hospital no local, por exemplo.

A região de 28 mil habitantes – 21 mil vivem na área rural – presenciou o nascimento das Farc em 1964, quando no dia 27 de maio, em Marquetalia, que fica dentro de Planadas, um grupo de liberais armados liderados por Pedro Antonio Marín, conhecido como Manuel Marulanda, o “Tirofijo”, tentou impedir o avanço militar contra uma comunidade camponesa autônoma. Na época, Marquetalia era uma zona de autodefesa camponesa formada sob a influência dos comunistas no sul de Tolima e o ataque militar resultou na formação de diversos focos de guerrilha.

“Aqui era o local onde os grupos guerrilheiros ‘governavam’. Há muitas pessoas que se sentiam mais protegidas com eles, porque eles tinham uma determinada forma de executar as leis. Não é segredo que aqueles que lhes desrespeitavam eram mortos. Então, é normal que haja a impressão de que a polícia não faz nada. Capturamos as pessoas e cumprimos as leis, mas a diferença é que eles matavam”, explica o tenente Anderson Arana, chefe da Zona Veredal de Transição à Normalidade da região. Ele espera que, com o avanço do processo de paz, as pessoas “percam o medo.”

Alguns moradores, embora reconheçam ser necessária uma forte atuação do Estado para garantir que outros grupos criminosos não ocupem o espaço deixado pelas Farc, acreditam que o acordo “é a chance que os camponeses precisavam”. É o caso de Jorge Ardila, de 59 anos. “Essa é uma grande oportunidade. Tomara que eles cumpram tudo o que foi prometido e as coisas mudem. Essa é uma oportunidade para os colombianos e quem deve dar o primeiro exemplo é o Estado.”

Atualmente desempregado, Ardila é conhecido na cidade por ser o filho do enfermeiro de Tirofijo. Ele perdeu dois irmãos – mortos pelas Farc em 1993 e 1994 –, mas afirma não guardar mais rancor. “Eu perdoei, ou nunca seria feliz, ficaria em paz, mas não esqueci. Esse processo vale a pena se todos mudarmos”, explica o colombiano, lembrando que votará em favor do acordo. 

Nas pequenas ruas da cidade, o cenário de uma noite para outra mudou radicalmente enquanto a reportagem do Estado esteve no local. Em um dia de festa, crianças corriam pela praça apertando as mãos de soldados – há um batalhão do Exército no local –, os adultos dançavam e davam risadas enquanto o locutor do evento chamava algumas pessoas para cantar no palco em comemoração à paz. A festa ocorreu um dia depois da assinatura do acordo de paz em Cartagena de Índias. 

Na noite seguinte, sem evento organizado pelo governo, a praça estava mais vazia e as pessoas sentadas em rodas perto das barracas que vendem comidas criticavam o acordo. “Não vai mudar nada, apenas vai haver a troca de um grupo criminoso por outro. É cansativo, claro que queremos a paz, temos um país lindo, com muita biodiversidade, mas é preciso fazer as coisas certas”, afirma o motorista de caminhão Ander Acevedo, de 28 anos. 

“Em três ou quatro anos essa paz virará uma guerra de novo. Não temos apenas as Farc aqui, existe o ELN (Exército de Libertação Nacional), os grupos criminosos. Eles dizem que entregarão as armas, mas duvido que vão entregar tudo o que têm”, acrescenta Diego, de 30 anos.

Os dois afirmaram que votarão contra o acordo, mas acreditam que ele será aprovado. Quando eles nasceram, as Farc já existiam e já ocupavam a região onde hoje vivem e Acevedo lembra que a guerrilha era um tema recorrente na escola. “Era o principal assunto.” 

Para Diego, a guerra já teria acabado se o governo de Santos tivesse continuado as políticas de seu antecessor e padrinho político, Álvaro Uribe, hoje senador e líder da campanha contra o acordo. “Uribe ensinou muito a Santos, que agora lhe apunhala pelas costas. Esperamos que com as Farc não ocorra o mesmo e não deem um golpe contra Santos.”

Veja abaixo: Zonas onde Farc ficarão concentradas estão prontas

Questionados sobre a ideia de ter o grupo que afirmaram trazer segurança à região em cargos políticos, os dois jovens ficaram em dúvida, mas no fim disseram que a guerrilha na política pode se tornar corrupta. “Claro que no começo terão muitas ideias para os povos mais pobres e afetados pelo conflito, mas, como sempre ocorre na política, quando eles tiverem a oportunidade de ganhar algo a mais o farão. Se a política da corrupção não mudar, nada vai mudar”, argumentou Acevedo. “Quando as Farc estavam aqui, se alguém tinha um problema eles (guerrilheiros) iam até o local e resolviam. Agora, se entram para a política é que acaba tudo”, acrescenta Marta.

Mudanças. Para o tenente Arana, a situação de repúdio ao sistema policial deve mudar com a aplicação dos acordos de paz. “As pessoas, muitas vezes, ficam com medo de nos acompanhar porque temem a represália deles (Farc). Agora, com esse processo de paz, acreditamos que esse medo deve desaparecer e isso é o que fazemos nas comunidades daqui, mostramos que não somos apenas repressão, mas também prevenção e educação. Nós não somos guerra”, disse, acrescentando que o policiamento e a presença militar aumentaram na cidade desde o início das negociações de paz.

Pelas ruas da cidade, sinais de apoio ao acordo estão estampados. As casas têm folhetos com a frase “a paz, SIM, é contigo”, nos cruzamentos, faixas com os mesmos dizeres e o “voto sim” estão penduradas. Para Ardila, a situação é boa e mudanças já podem ser vistas. “Vejo com alegria esse processo. Já não escutamos que guerrilheiros estão ameaçando as pessoas. O que ouvimos são casos de violência comum, mas não ouvimos mais sobre a guerrilha.” 

A mesma situação é vista em Gaitania, outra pequena área urbana na região de Planadas, também muito afetada pelo conflito e onde vivem, segundo dizem moradores, alguns parentes de Tirofijo. “As Farc dominaram o local pela falta do Estado, mas há cerca de três anos a situação está mudando, vivemos mais tranquilos”, afirma o presidente da Junta Nacional de Gaitania, Raúl Durán. Segundo ele, as pessoas no local concordam com o acordo. “Espera-se que ele traga benefícios. A população daqui quer paz.”

Mais conteúdo sobre:
ColômbiaFarcPlebiscito

Encontrou algum erro? Entre em contato

‘Enfermeiro das Farc’ deixa legado de esperanças

Filho de Pedro Ardila, que cuidou da saúde do fundador da guerrilha, cobra melhorias para os camponeses

Fernanda Simas, enviada especial / Planadas, Colômbia, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2016 | 05h00

PLANADAS, COLÔMBIA - Caminhar pela praça principal da área urbana de Planadas implica em esbarrar em alguém que conheça o senhor Jorge Ardila, o filho do enfermeiro de Tirofijo, fundador das Farc. Com 59 anos, Ardila tenta escrever um livro para contar como a guerrilha se formou e tomou conta da região por tantos anos. “Meu pai era maravilhoso. Ele trabalhou para todo mundo, sem discriminação. Realizava partos, indicava remédios. Ele servia a todos que precisavam e as Farc confiavam muito nele, por isso mandavam pedir os medicamentos para ele”, conta o homem, emocionado, sobre o pai, Pedro Antonio Ardila.

Os anos de conflito foram muito difíceis para sua família, segundo relata. “Quando mataram meu primeiro irmão, ele (Tirofijo) fez uma reunião e eles destituíram o comandante que deu a ordem das Farc. Isso foi em 1993. Eu perdi dois irmãos. O segundo também morreu pelas balas das Farc em 1994. Eles pediram desculpas depois”, lembra, sem dar detalhes de como ocorreram as mortes.

Ardila não tem muitas lembranças do convívio com o líder guerrilheiro da época, pois era uma criança, mas um gesto ficou marcado em sua memória. “Eu era muito pequeno na época, mas lembro que quando Charro Negro (Jacobo Prías Alape) morreu, ele (Tirofijo) pegou eu e meu irmão pelos braços e disse ‘ele morreu pelo povo’.”

Atualmente, Ardila vê o processo de paz na Colômbia de forma positiva, principalmente porque já trouxe mudanças. Mas ele pede que o governo nacional não se esqueça de desenvolver os setores agrícolas. “A guerrilha, que claramente se arrependeu, só esteve aqui por tanto tempo porque faltava a presença do Estado. Tomara que os camponeses tenham oportunidades agora. O campo está abandonado. Se o Estado quer nos dar uma nova forma de vida, precisa começar pelos camponeses.”

Mais conteúdo sobre:
ColômbiaFarcPlebiscito

Encontrou algum erro? Entre em contato

‘Casas’ das Farc já estão prontas

Guerrilheiros ficarão instalados em área de difícil acesso para desarmamento

Fernanda Simas, enviada especial / Cartagena, Colômbia, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2016 | 05h00

PLANADAS, COLÔMBIA - Chegar à zona onde as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) se concentrarão para o processo de desmilitarização na região de Planadas, Departamento (Estado) de Tolima, não é um caminho fácil. 

Depois de percorrer quase 15 quilômetros de uma estrada cheia de curvas, mata fechada, animais passando pela via e um ponto de checagem militar com soldados fortemente armados, o local tem um portão de madeira vermelho na entrada e é cercado por estacas de madeira e arame farpado.

Na parte de dentro, uma caixa d’água e muito espaço para que o guerrilheiros se instalem e deixem suas armas. A única forma de comprovar que o local é uma das 23 áreas de concentração da guerrilha é uma pequena placa que diz “Bem-vindo ao veredal El Jordán”. Após o plebiscito de hoje, espera-se que o governo comece a construir a infraestrutura para receber os cerca de 400 guerrilheiros que irão para o local.

O difícil acesso à zona não é um acaso. As 23 áreas onde os guerrilheiros ficarão para entregarem todas as armas, em até 180 dias, são as mais afetadas pelo conflito armado na Colômbia que durou 52 anos. Os locais foram escolhidos justamente por serem distantes de áreas urbanas e fronteiras, terem uma extensão “razoável para garantir a verificação por parte das Nações Unidas” e não estarem em parques naturais ou regiões de cultivos ilícitos. 

Atualmente, segundo o Ministério da Defesa colombiano, o país tem 33 mil veredas – a menor divisão na estrutura administrativa territorial. “Esses eram os locais onde eles (guerrilheiros) trabalhavam”, conta o tenente Anderson Arana, chefe da Zona Veredal de Transição à Normalidade local, que coordena uma equipe de 32 policiais e enfermeiros e técnicos em agropecuária diversificada que atuarão na região.

Mesmo distante de áreas urbanas, o local tem alguns vizinhos, cerca de 300 famílias que vivem em povoados e na sua maioria não se importam em ter tão perto uma concentração de guerrilheiros. “Já estamos acostumados a viver entre eles, cresci junto com eles e não nos incomoda tê-los aqui no nosso pé”, conta Carmenza Ardones, explicando que o local ficou pronto há cerca de 15 dias, mas ninguém foi ao povoado onde vive explicar o que acontecerá nos próximos meses. 

“As zonas são temporárias e são a oportunidade para iniciar os primeiros passos para a reinserção (na sociedade). Ou seja, lá poderão ser feitos censos demográfico e socioeconômico. Também servem para os primeiros contatos com a população local”, afirma o cientista político e coordenador da Fundação Ideias para a Paz, Eduardo Álvarez Vanegas.

Como o local estará no fim deste mês, quando os guerrilheiros estarão instalados caso o povo colombiano ratifique o acordo de paz no plebiscito é uma incógnita, o que, segundo Vanegas, tem um motivo. “Nem todas as zonas veredais precisam ser iguais. Existem pontos transitórios, espaços menores onde estarão acampamentos respeitando a unidade territorial das Farc.”

Segundo o governo colombiano, o trabalho de preparação dos campos uniu guerrilheiros e militares que nunca estiveram frente a frente, mas se consideravam inimigos, por isso foi uma tarefa difícil. Uma integrante do grupo que acompanha o trabalho disse ter sido essencial a presença dos dois lados para determinar que parte do território pertencia a quem. 

Veja abaixo: Zonas onde Farc ficarão concentradas estão prontas

Desconfiança. O trabalho que precisa ser feito agora é com as comunidades próximas das “casas” dos rebeldes, onde muitos se sentem inseguros sobre o futuro. “Eles (Farc) não saíam matando qualquer pessoa. Quem descumpria as leis era castigado, mas não havia ladrões, por exemplo. Agora, não sabemos como será”, explica Ardones, acrescentando que votará ‘sim’ no plebiscito de hoje, mas não sabe como ficará a região nos próximos meses. 

“Vamos sair para votar e ver o que muda por aqui”, afirmou, sorrindo, antes de posar para a foto e dizer que se parece uma guerrilheira em razão das botas que usava.

Com ela, um jovem que não quis se identificar dizia estar em dúvida sobre o voto. “Tenho medo de que quando as Farc saiam falte segurança. De toda forma, eles tomaram conta da gente daqui, sem eles cada um fará o que quer.” Mesmo assim, ele acredita que o ‘sim’ vai ganhar no povoado onde vive.

Sobre a presença de um campo para o desarmamento de guerrilheiros tão perto de onde vive, ele concorda com a amiga e diz que ninguém se opõe a isso. “Os contrários ao acordo têm essa opinião porque não querem que as Farc se entreguem, não tem relação com o fato de grupos virem para cá.”

Preservação. Além da localização, é importante preservar as características do grupo guerrilheiro para que não haja deserções, o que também justifica a estrutura das zonas veredais, explicou o cientista político e coordenador da Fundação Ideias para a Paz, Eduardo Álvarez Vanegas. “O que se deve evitar nessas zonas nos 180 dias que durará o desarmamento é uma abrupta separação de forças porque isso pode levar alguns guerrilheiros à reincidência ou ao crime organizado. O importante é que as lideranças militares se transformem em lideranças políticas”, disse Vanegas.

O cientista político compara o processo atual com o processo de paz realizado com as Autodefesas Unidas da Colômbia, um grupo de paramilitares de extrema-direita que participou do conflito na Colômbia e se desmobilizou em 2006. “Não houve uma contenção, não foram aplicadas medidas de contenção e as tropas se separaram, o que provocou insegurança e muitos deles nem completaram o processo formal de desmobilização e reintegração, mas passaram a integrar estruturas criminais”, explicou.

 

Mais conteúdo sobre:
ColômbiaFarcPlebiscito

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.