Ivor Prickett/The New York Times
Ivor Prickett/The New York Times

O fim de um agente infiltrado no Estado Islâmico

O iraquiano Sudani impediu dezenas de atentados, mas foi descoberto por grupo radical

Margaret Coker, THE NEW YORK TIMES, BAGDÁ, O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2018 | 05h00

O motorista suava na picape branca marca Kia, dirigindo em alta velocidade por uma rodovia escorregadia por causa da chuva. A cada solavanco ou curva, seu pulso acelerava. Ocultos no chassi da picape, estavam quase 500 quilos de explosivos que o Estado Islâmico (EI) planejava usar em um ataque na véspera do ano-novo em Bagdá. 

O motorista, o capitão Harith Al-Sudani, era um espião. Nos últimos 16 meses, atuara como militante jihadista do EI, enquanto passava informações importantes para uma sucursal da agência de inteligência iraquiana.

Seus antecedentes eram impressionantes. Ele havia conseguido frustrar 30 ataques do EI com carros-bomba e 18 por homens-bomba, segundo o diretor da agência Ali Al-Basri. Sudani também forneceu para a agência uma linha direta com alguns comandantes do EI em Mossul.

Técnico de computação de 36 anos, ele foi talvez o maior espião da agência de inteligência, um dos poucos no mundo a ter se infiltrado nos altos escalões da organização. 

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Dentro da unidade de inteligência iraquiana, a célula Os Falcões provavelmente é a mais desconhecida na guerra contra o terrorismo. Suas informações ajudaram a expulsar em 2017 os extremistas dos seus últimos redutos urbanos e agora auxiliam na caça aos líderes do grupo, como Abu Bakr Al-Baghdadi.

Segundo autoridades iraquianas, os Falcões frustraram centenas de ataques em Bagdá, que ficou mais segura do que em qualquer momento nos últimos 15 anos. Basri, chefe da inteligência iraquiana, credita essa segurança ao trabalho secreto do grupo. 

Motivado por fotos de crianças mortas nos ataques do EI, Sudani se tornou um agente secreto conhecido como Abu Suhaib. Sua missão: infiltrar-se em um reduto do EI em Tarmiyah. Todas as vezes que recebia ordens, ele alertava os Falcões. A tarefa deles era interceptá-lo e as mercadorias letais que transportava, antes de chegarem a Bagdá.

Um carro seguia Sudani usando equipamento de interceptação para bloquear o sinal do detonador da bomba, que é acionada remotamente por meio de um celular. Seus camaradas indicavam seu caminho para um local onde poderiam desativar o explosivo.

Depois, os Falcões encenavam explosões falsas e difundiam “fake news”, às vezes informando um grande número de vítimas, em parte para manter a falsa identidade de Sudani intacta. Em 31 de dezembro, o comandante de Mossul disse a Sudani que ele havia sido escolhido para participar de um ataque de grande porte na véspera do ano-novo, uma série de atentados a bomba coordenados em várias cidades no mundo.

Sudani pegou seu Kia branco e telefonou aos Falcões para combinar onde o interceptariam. O plano começou a se desmantelar logo que desviou na rodovia e seguiu para o refúgio dos Falcões. Seu telefone tocou. Era o comandante de Mossul, pedindo sua localização. O agente disse ao comandante do EI que devia ter feito uma curva errada. Assustado, ligou para seus colegas Falcões e lhes disse que deviam se encontrar mais perto do local do planejado ataque. Oito agentes desativaram a bomba. Em questão de minutos, Sudani estava na rodovia a caminho do mercado.

Pouco antes da meia-noite do dia 31 de dezembro, a mídia árabe reportou que uma picape branca havia explodido em Baghdad al-Jdeidah, sem causar vítimas. A missão foi um sucesso. O que Sudani não sabia era que o EI havia plantado dois grampos na picape, o que lhes permitiu ouvir sua conversa com os Falcões. 

No início de janeiro de 2017, o EI convocou Sudani para outra missão. Seria a última. Ele foi enviado para uma fazenda nos arredores de Tarmiyan. Um local muito remoto para se monitorar e sem nenhuma rota de fuga.

Os Falcões deduziram que algo estava errado. Uma força conjunta da polícia e do Exército atacou a fazenda. Não havia nenhum sinal de Sudani. Durante seis meses, os Falcões reuniram evidências. Descobriram os grampos na picape Kia. 

Em agosto, o EI divulgou um vídeo de propaganda mostrando militantes executando prisioneiros vendados “Não preciso ver seu rosto para saber que é meu irmão”, disse Munaf.

Morto, Sudani ficou famoso no mundo das sombras dos espiões. O comando de operações conjuntas do Iraque emitiu comunicado citando seu sacrifício pela nação. Mas como a família de Sudani não teve acesso ao corpo, não consegue obter o atestado de óbito, pré-requisito para receber os benefícios pagos por um soldado morto. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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