O fim de uma piada de três décadas

O humor egípcio chega aonde sua política não consegue

ISSANDR EL AMRANI, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2011 | 00h00

O que ocorreria se você passasse 30 anos fazendo piadas a respeito do mesmo homem? E se, na última década, tivesse zombado da sua morte iminente - mas ele continuou vivo, fazendo com que todas as histórias sobre sua imortalidade pareçam, de uma maneira incômoda, próximas da verdade?

Os egípcios, conhecidos pelo seu subversivo humor político, vivenciaram até ontem este cenário: Hosni Mubarak, seu presidente octogenário, às vésperas de entrar na sua quarta década de governo, agarrando-se ao poder e à vida com uma enorme força de vontade. Os piadistas egípcios, que de início caricaturavam seu líder nada carismático como um matuto ganancioso, passaram os últimos anos nervosamente fazendo piadas sobre sua insistência tenaz em permanecer no trono. E justamente agora, quando o humor começava a parecer um pouco obsoleto, veio a renúncia do ditador.

Um amigo meu adorava contar esta piada: "Qual é o dia perfeito para Mubarak? Aquele em que nada acontece". O agora ex-presidente egípcio preferia o status quo e não apreciava mudanças, mas a sua fantasia com o Dia da Marmota afetava enormemente os egípcios. Mubarak sobreviveu a tentativas de assassinato e a uma cirurgia complicada. Depois de passar a maior parte de 2010 convalescendo, todo mundo no Cairo -de motoristas de táxi a políticos e espiões estrangeiros - estava convencido de que ele morreria em questão de semanas. Mas ele se recuperou, aparentemente pensando em concorrer a um sexto mandato em setembro. Os prolíficos piadistas, com sua longa tradição de satirizar os poderosos, poderiam ficar sem material.

Fazer piada de autoridades tirânicas é uma parte essencial da vida egípcia desde a época dos faraós. Um comentário datado de 4.600 anos registrado em papiro gracejava que a única maneira de convencer o rei a pescar era colocar garotas nuas nas redes de pesca. Sob o império romano, os advogados egípcios foram proibidos de exercer a profissão por causa do hábito que tinham de fazer piadas, o que para os austeros romanos corroía a seriedade própria dos tribunais. Até Ibn Khaldun, o grande filósofo árabe do século 14, de Túnis, observou que os egípcios eram um povo extraordinariamente irreverente e hilário. O ator egípcio Kamal al-Shinnawi, também um mestre do sarcasmo, disse certa vez que "a piada é a arma devastadora que os egípcios sempre usaram contra invasores e ocupantes. Foi a corajosa guerrilha que penetrou nos palácios dos dirigentes e nos bastiões dos tiranos, interrompendo o seu descanso e deixando-os em pânico".

Existe muito material sobre os últimos 50 anos no Egito, marcado que foi por uma sucessão de líderes militares com pouco respeito pela democracia ou pelos direitos humanos. Embora até esta semana os egípcios estivessem virtualmente impotentes para mudar seus governantes, eles sempre tiveram uma ampla liberdade para ridicularizá-los com pilhérias, ao contrário da Síria, onde uma piada pode levá-lo à prisão. Nos povoados e cidades muito densos, onde a socialização é mais intensa, as piadas funcionam como uma maneira quase universal de "quebrar o gelo", ou dar início a uma conversa, e os temas básicos, que transcendem os governantes, as ideologias, as barreiras de classe, quase sempre são os mesmos: nossos líderes são idiotas, nosso país, uma confusão, mas pelo menos conseguimos fazer piadas juntos.

Os que governaram o Egito antes de Mubarak, o nacionalista Gamal Abdel Nasser e o prêmio Nobel da Paz Anwar Sadat, eram personagens exuberantes, e as piadas contadas sobre eles refletiam sua personalidade fora do comum. O paranoico Nasser teria mobilizado sua polícia secreta para recolher as piadas sobre ele e seu governo autoritário, da mesma maneira que a KGB monitorava nervosamente as legendárias anekdoty feitas na mesa da cozinha sobre o governo gerontocrático, para compreender realmente o que sucedia nos derradeiros dias da União Soviética. Sadat, apesar de conhecido no Ocidente pela paz firmada com o vizinho Israel, foi alvo de inúmeras piadas envolvendo seu governo corrupto e sua atraente esposa, Jehan.

Após o assassinato de Sadat, Mubarak assumiu o poder e foi recebido com alívio e ceticismo - alívio, pois parecia ter pulso mais firme do que o seu antecessor, que se tornou esquizofrênico um ano antes da sua morte, e ceticismo porque Mubarak não tinha absolutamente nada que se assemelhasse ao governo carismático que Sadat e Nasser encarnaram. Mubarak também era, pelo menos no começo, um piadista. Não muito tempo depois de assumir o poder, ele mesmo gracejou que jamais esperara ser nomeado vice-presidente. "Quando fui chamado por Sadat", disse ele a um entrevistador, "achei que seria nomeado chefe da EgiptAir".

Por décadas Mubarak foi ridicularizado, chamado de "La Vache qui Rit" (A vaca que ri) - numa referência ao queijo francês que apareceu no Egito nos anos 70, com a abertura do mercado - por causa das suas raízes rurais e seu estilo bonachão. A imagem que persistia nas piadas a seu respeito na época era a de um arquétipo egípcio, o camponês bufão e ganancioso.

Uma piada que me lembro bem dos anos 80 satirizava a decisão de Mubarak de não nomear um vice-presidente depois de assumir a presidência. "Quando Nasser tornou-se presidente, ele queria um vice mais estúpido do que ele para não ter um concorrente, então escolheu Sadat. Quando Sadat tornou-se presidente, escolheu Mubarak pela mesma razão. Mas Mubarak não tem um vice porque não existe no Egito ninguém mais estúpido do que ele."

As piadas ficaram mais acerbas nos anos 90, à medida que Mubarak consolidou seu poder e começou a vencer eleições com mais de 90% dos votos, expurgando seus rivais no Exército. Uma história sempre relatada é a de que ele enviou seus assessores políticos para Washington para ajudarem na campanha de reeleição de Bill Clinton, em 1996, pois o presidente dos Estados Unidos admirava a popularidade do egípcio. Ao chegarem os resultados, Mubarak é que teria sido eleito o presidente dos EUA.

Mas as piadas sobre o presidente egípcio na verdade viraram uma mania no inicio de 2000, quando ele completou 70 anos e começou uma vigília nacional. Uma delas, por exemplo, fala de Mubarak no seu leito de morte, lamentando para o seu assessor: "O que o povo egípcio fará sem mim?" Procurando confortá-lo, o assessor, respondeu: "Senhor presidente, não se preocupe com os egípcios. É um povo forte que conseguirá sobreviver mesmo comendo pedra!". Mubarak faz uma pausa, reflete sobre isso e depois diz ao assessor que era preciso dar ao seu filho Alaa o monopólio do comércio de pedras.

Numa outra cena, Azrael, o arcanjo da morte, chega ao presidente egípcio e diz que ele precisa se despedir do seu povo. E ele indaga: "Por que, aonde estão indo?". Azrael tornou-se uma figura comum nas piadas, e a mais famosa delas faz alusão à reviravolta brutal do governo Mubarak nos anos 90. Deus convoca Azrael e lhe diz: "É hora de buscar Hosni Mubarak"."O senhor tem certeza?", pergunta Azrael, timidamente.

Deus insiste: "Sim, chegou a hora dele; vá e traga-me a sua alma".

Azrael desce para a Terra e dirige-se ao palácio presidencial. Chegando lá, tenta entrar, mas é capturado pela Segurança do Estado. É jogado numa cela, espancado e torturado. Depois de alguns meses, é libertado.

De volta ao céu, Deus, ao vê-lo todo machucado e arrebentado, pergunta: "O que aconteceu?"

"A Segurança de Estado de Mubarak me espancou e me torturou", Azrael responde. "E agora me mandaram de volta." Deus fica pálido e, com uma voz apavorada, pergunta: "Você não disse que fui eu que o mandei, não é?"

Não é somente Deus que tem pavor de Mubarak - mas também o demônio. Outras anedotas falam de Mubarak deixando o diabo em estado de choque com suas ideias para martirizar o povo egípcio, ou morrendo e tendo sua entrada recusada tanto no céu como no inferno, porque é considerado uma pessoa abominável por Deus e pelo Satanás.

A internet abriu novas janelas para o humor. Comentários sarcásticos que costumavam circular online nas mensagens de texto agora são transmitidas pelo Twitter, enquanto no Facebook foram criadas identidades falsas e páginas satíricas sobre políticos conhecidos do país.

Mas hoje a maior parte dessas sátiras é sobre a tenacidade com que Mubarak se agarra à vida e ao poder. Hishan Kassem, conhecido editor e uma figura da oposição liberal, contou-me esta :

Hosni Mubarak, Barack Obama e Vladimir Putin estão reunidos quando de repente Deus aparece para eles: "Vim aqui para lhes dizer que o fim do mundo será daqui a dois dias. Avisem o seu povo".

Assim, cada um dos líderes volta para sua capital e prepara um discurso pela TV para fazer o comunicado.

Em Washington, Obama diz: "Meus caros americanos. Tenho uma boa e uma má notícia. A boa é que posso confirmar que Deus existe. A má notícia é que ele me disse que o mundo vai acabar em dois dias".

Em Moscou, Putin declara: "Povo da Rússia, lamento lhes dar duas más notícias. A primeira é que Deus existe, o que significa que tudo aquilo em que nosso país acreditou durante todo o último século era falso. Em segundo lugar, o mundo estará acabando dentro de dois dias".

No Cairo, Mubarak diz: "Egípcios, venho lhes dar duas excelentes notícias! Primeira, Deus e eu tivemos uma importante reunião. A segunda é que ele me disse que serei o seu presidente até o fim dos tempos".

Para Hishan Kassem, o principal legado do governo Mubarak talvez seja a abundância de chacotas sobre seu líder. "No governo de Nasser, era a elite, cuja propriedade ele nacionalizou, que fazia piadas sobre o presidente". E, no governo de Sadat, "foram os pobres que ficaram abandonados pela liberalização econômica que faziam piadas. Mas no caso de Mubarak, são todos que o satirizam".

Mas um grande número de egípcios não achava mais que a situação do seu país era assim tão divertida e estava transformando o talento nacional para a sátira numa arma agressiva de dissidência política. O movimento Kifaya, contra Mubarak, usou o humor mais pungente para manifestar a indignação de uma nação inteira que se tornou um país de segunda mão para a família do presidente, com os planos de Mubarak para indicar seu filho Gamal como seu herdeiro. Outros manifestantes, queixando-se do alto custo de vida e dos salários estagnados, usaram caricaturas para representar políticos e magnatas roubando o país. E desde o início de 2010, o laureado com o prêmio Nobel Mohamed ElBaradei, ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e um candidato potencial à presidência, tornou-se o símbolo de uma liderança digna que a oposição egípcia busca há décadas. O interessante é que, recentemente, Baradei censurou Mubarak por um comentário engraçado sobre um acidente com uma balsa que provocou a morte de mais de mil egípcios em 2006.

Mas mesmo que os democratas do Egito tenham conseguido impedir que o herdeiro de Mubarak o suceda no cargo, com certeza continuarão fazendo piadas sobre Gamal, filho do agora ex-presidente. Uma sátira épica foi criada na forma de um blog popular chamado Ezba Abu Gamal (O vilarejo do pai de Gamal). O blog é uma coleção de comentários, normalmente da perspectiva de Abu Gamal, prefeito de um vilarejo. A esposa está sempre insistindo para o filho ser promovido, mas Gamal tem muitas dúvidas a respeito: o rapaz não entende nada de reformas, laptops e assim por diante. É uma descrição mordaz para os iniciados na política egípcia. A persona de "camponês astuto" de Mubarak ressurge no seu filho e Gamal é descrito como um indivíduo inexperiente e incompetente, manipulado pelos amigos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É ESCRITOR EGÍPCIO. FOI ANALISTA PARA O NORTE DA ÁFRICA DO INTERNATIONAL CRISIS GROUP

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