'O fim do fascismo e do comunismo não evitou todos os perigos'

Para filósofo francês, continente europeu caminha para um futuro sombrio

ROMAIN LEICK / DER SPIEGEL, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2012 | 03h07

Na França, André Glucksman é um dos chamados Novos Filósofos, que, motivado pela obra de Alexandr Soljenitsyn, O Arquipélago Gulag, repudiou o totalitarismo soviético. Profundo conhecedor da filosofia alemã, desde os anos de universidade sempre manteve uma atitude crítica em relação a Heidegger, e procurou estabelecer um diálogo intelectual com a Alemanha. O filósofo, hoje com 75 anos, critica energicamente o Ocidente por sua tendência a fechar os olhos para a persistente presença do mal no mundo. Eis os principais trechos da entrevista que concedeu à Spiegel.

À luz das experiências intelectuais e existenciais vividas pelo sr. no século 20 como pensador contrário ao totalitarismo, está preocupado com o futuro da Europa?

Nunca acreditei que, com o fim do fascismo e do comunismo, todos os perigos tivessem sido evitados. A História não ficou paralisada. A Europa não deixou de acompanhar a História após o desaparecimento da Cortina de Ferro, mesmo que ocasionalmente este parecesse ser o seu desejo. As democracias costumam ignorar ou esquecer as dimensões trágicas da História. Neste sentido, responderia: Sim, os acontecimentos atuais são inquietantes.

Desde o seu início, há 60 anos, a comunidade europeia quase sempre tropeçou em sucessivas crises. Os revezes fazem parte do seu modo normal de operar?

A moderna era europeia se caracteriza por uma certa sensação de crise. Disso, poderíamos tirar a conclusão de que a Europa não é um Estado de fato ou uma comunidade no sentido de nação, que cresce como um todo de maneira orgânica. Tampouco pode ser comparada às cidades-Estados da antiga Grécia, que, apesar das suas diferenças e rivalidades, formavam uma unidade cultural única.

Os países europeus também são unidos por aspectos culturais comuns. Existiria uma espécie de espírito europeu?

As nações europeias não se assemelham entre si, e é por isso que não podem se fundir. O que as une não é uma comunidade, mas um modelo social. Existe uma civilização europeia e uma maneira de pensar ocidental.

Quais são suas características?

Desde os gregos - de Sócrates a Platão e Aristóteles - a filosofia ocidental herdou dois princípios fundamentais: O homem não é a medida de todas as coisas, e não está imune ao erro e ao mal. No entanto, ele é responsável por si mesmo, e por todas as coisas que faz ou deixa de fazer. A aventura da humanidade é uma criação humana ininterrupta. Deus não participa dela.

Mas esses aspectos fundamentais da história intelectual europeia não bastam para criar uma unidade política permanente?

A Europa nunca foi uma entidade nacional, nem mesmo na Idade Média cristã. O cristianismo sempre permaneceu dividido - os romanos, os gregos e mais tarde o protestantismo. Uma federação europeia ou uma confederação europeia é um objetivo distante congelado na abstração do termo. Acho que aspirar a isso é uma meta equivocada.

A UE estaria em busca de uma utopia em termos político e histórico?

Os fundadores da UE costumavam invocar o mito carolíngio, e um prêmio concedido pela UE recebeu o nome de Carlos Magno. Então, os netos deste dividiram o império entre si. A Europa é uma unidade em sua divisão ou uma divisão em sua unidade. Entretanto, como quer que se prefira defini-la, evidentemente não é uma comunidade em termos de religião, linguagem ou moral.

O que o sr. concluiria disto?

A crise da União Europeia é um sintoma de sua civilização. Ela não se define com base em sua identidade, mas, ao contrário, em sua alteridade. Uma civilização não se baseia necessariamente em um desejo comum de atingir o melhor, mas em excluir e em fazer do mal um tabu. Em termos históricos, a União Europeia é uma reação de defesa ao horror.

Uma entidade definida em termos negativos que surgiu da experiência de duas guerras mundiais?

Na Idade Média, os fiéis oravam e cantavam em suas ladainhas: "Senhor, protegei-nos da peste, da fome e da guerra". Significa que a comunidade existe não para o bem, mas contra o mal.

Hoje, muitas pessoas citam a frase "guerra, nunca mais" como a razão de ser da Europa. Este fundamento persiste agora que o fantasma da guerra na Europa se dissipou?

As guerras dos Bálcãs na antiga Iugoslávia e os atos assassinos e incendiários dos russos no Cáucaso aconteceram não faz muito tempo. A União Europeia foi constituída para opor-se a três males: a memória de Hitler, com o Holocausto, o racismo e o nacionalismo exacerbado; o comunismo soviético na Guerra Fria; e, finalmente, o colonialismo, que alguns países da comunidade europeia abandonaram de maneira dolorosa. Estes três males deram origem a um entendimento comum do que seja democracia, um tema civilizador fundamental da Europa.

O que falta hoje será por acaso um desafio novo, unificador?

Não seria tão difícil de encontrar se a Europa não agisse de maneira tão imprudente. No início dos anos 50, o objetivo central da união foi o estabelecimento da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (Ceca), a primeira aliança econômica supranacional no campo da indústria pesada: em termos da área da Lorena e da Ruhr, a Ceca era uma maneira de prevenir a guerra. Como todos sabem, a contrapartida hoje seria uma União Europeia da energia. Em vez disso, a Alemanha decidiu realizar esta transição para a energia renovável por conta própria, ignorando a dimensão europeia. Cada um está negociando individualmente com a Rússia o fornecimento de gás e petróleo; a Alemanha assinou um acordo para a construção do oleoduto do Mar Báltico, apesar da resistência da Polônia e da Ucrânia e a Itália está envolvida no oleoduto South Stream através do Mar Negro.

Portanto, cada país cuida dos próprios interesses enquanto as alianças se modificam e estabelece acordos bilaterais que ignoram o espírito da UE?

É um exemplo sinistro de cacofonia porque mostra que os Estados-membros não estão mais dispostos e nem são mais capazes de formar uma frente unida contra as ameaças externas e os desafios que o mundo globalizado faz à Europa. Ele toca no ponto nevrálgico do projeto de civilização europeia, no qual cada pessoa deve ser capaz de viver por si, e no qual, entretanto, todos querem sobreviver juntos. Além do que, facilita as coisas para a Rússia na presidência de Vladimir Putin. Apesar de toda a debilidade deste gigante dotado de tão grande abundância de recursos naturais, sua capacidade de causar danos continua considerável e é o que o seu presidente gosta de usar. A negligência e o esquecimento criam as condições para novas catástrofes tanto na economia quanto na política.

Será que os fracassos europeus começam sempre com o fracasso da parceria franco-alemã?

Ela foi tipificada pela insignificância simbólica das comemorações do 50.º aniversário da reconciliação franco-alemã na Catedral de Reims, no início de julho. Angela Merkel e François Hollande não tinham praticamente nada a dizer um ao outro, além de umas piadinhas insípidas sobre o mau tempo, que muitas vezes parece coincidir com seus encontros. Ela ficou aquém de todos os valores intelectuais, históricos, filosóficos e políticos. O pathos e a importância histórica do encontro entre Charles de Gaulle e Konrad Adenauer naquele mesmo lugar, 50 anos atrás, não podem ser recriados.

Esta relação simplesmente se banalizou?

Ela se reduziu. Nossa elites política sofrem da doença intelectual da miopia. Adenauer e De Gaulle pensavam em termos completamente diferentes. Eles olharam para trás, para três guerras franco-alemãs, incluindo as duas guerras mundiais, e olharam para frente para a unificação democrática do continente e para a superação da divisão do poder na Europa, concordada na Conferência de Yalta em 1945. Foi essa a força fundamental que impulsionou a reconciliação franco-alemã.

Que se cumpriu em 1990, depois da queda do Muro de Berlim. A eliminação da ameaça e da divisão teria levado também à dissolução da coesão interna?

O ex-presidente francês François Mitterrand e o ex-chanceler alemão Helmut Kohl queriam que a união monetária se tornasse o novo elemento aglutinador. A mesma que por uma ironia da História, agora está liberando forças que poderão causar desagregação. Mas o problema é bem mais profundo. Em 1990, parecia que tínhamos chegado ao fim da História e, com ele, ao fim das ameaças, dos julgamentos, das ideologias e das grandes lutas e debates. Esta é a chamada era pós-moderna. Merkel e Hollande estão nadando no imediatismo do pós-modernismo, no qual as "grandes histórias", com sua exagerada reivindicação de legitimidade, foram abandonadas, como disse o filósofo Jean-François Lyotard. Os líderes da Europa de hoje pensam e agem no ritmo dos cronogramas eleitorais e das pesquisas de opinião. Um indivíduo não pode se libertar da história. Ela sempre tem novos fardos aguardando no horizonte. Se a dupla franco-alemã quer se aposentar, deve dizê-lo. Mas se a Europa não caminhar para frente, ficará para trás.

A UE não perdeu seu apelo. Ninguém está deixando voluntariamente a zona do euro.

Sócrates disse que ninguém comete erros voluntariamente. Eu interpreto isso do seguinte modo: As coisas ruins acontecem quando a vontade enfraquece. Não me parece que encontrar soluções e caminhos na atual crise financeira seja uma tarefa sobre-humana. Afinal, os líderes da UE costumam encontrando-os aqui e ali.

E procuram a saída de uma cúpula de Bruxelas a outra, e em intervalos cada vez mais curtos. Mas as soluções não aparecem.

O que falta é uma perspectiva global. O que levou à criação da UE, sua razão de ser, se perdeu. Sempre haverá maneiras de aprimorar as instituições da UE e de adequá-las às necessidades da situação. Podemos depender da capacidade dos políticos e dos advogados para fazer isto. O desafio aparece num outro âmbito, e é claramente uma questão de sobrevivência. Se as antigas nações europeias não se unirem e não apresentarem uma frente unida, perecerão.

Mas os líderes europeus não reconheceram isto? Se reconheceram, por que agem com tão pouco espírito de união?

A questão do tamanho tornou-se uma necessidade absoluta na globalização. Merkel indubitavelmente percebe que o destino da Alemanha também será decidido no quintal da Europa. É por isso que, depois de alguma hesitação, ela optou pela solidariedade, embora com moderação. Não obstante, também está permitindo que Alemanha, França, Itália e Espanha se dividam em razão da crise. Se os nossos países se dividirem por causa da pressão das forças de mercado, perecerão, individualmente e em seu conjunto. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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