The Washington Post/ Yan Cong
The Washington Post/ Yan Cong

O fim do idoso de 85 anos que comoveu a China ao se colocar em adoção

Han Zicheng é o retrato da crise demográfica do país, que não oferece apoio à população que envelhece

O Estado de S.Paulo

03 Maio 2018 | 12h19

TIANJIN, CHINA - Han Zicheng sobreviveu à invasão japonesa, à guerra civil chinesa e à revolução cultural, mas sabia que não poderia suportar a tristeza de viver sozinho. Em um dia frio de dezembro, o avô chinês de 85 anos pegou alguns pedaços de papel branco e rabiscou um pequeno texto em tinta azul: "Procurando alguém para me adotar".

"Homem velho e solitário de 80 anos. Corpo forte. Pode fazer compras, cozinhar e cuidar de si mesmo. Nenhuma doença crônica. Me aposentei de um instituto de pesquisa em Tianjin, com uma pensão mensal de 6 mil iuanes (R$ 3347)", escreveu.

"Eu não vou para um lar de idosos. Minha esperança é que uma pessoa ou uma família de bom coração me adote, me conforte pela velhice e enterre meu corpo quando estiver morto". Ele pregou uma cópia em um ponto de ônibus de sua vizinhança movimentada. Então foi para casa esperar.

Ele disse que sua mulher havia morrido, seus filhos estavam fora de alcance e seus vizinhos tinham filhos para criar e pais idosos. Estava em forma para pedalar sua bicicleta até o mercado para comprar castanhas, ovos e pãezinhos, mas sabia que sua saúde um dia o deixaria. Ele também sabia que era apenas um entre dezenas de milhões de chineses envelhecendo sem apoio.

A melhoria dos padrões de vida e a política do filho único viraram de cabeça para baixo a pirâmide populacional da China. Atualmente, 15% dos chineses têm mais de 60 anos. Projeções apontam que, em 2040, os idosos serão quase um a cada quatro.

É uma crise demográfica que ameaça a economia chinesa e o tecido familiar. As empresas passam caminhar lentamente com menos funcionários. Uma geração de filhos únicos cuida de pais idosos sozinha.

Em 2013, o governo chinês criou uma lei tornando obrigatórias as visitas aos pais. Na prática, milhões de idosos com "ninho vazio" - aqueles que não vivem com seus cônjuges ou filhos - têm pouca proteção. A rede de seguridade social está cheia de buracos.

Han já tinha tentado encontrar cuidadores. Mas desta vez, uma mulher o viu pregando o anúncio na janela de uma loja, tirou uma foto e postou nas redes sociais com um pedido: "Espero que as pessoas de bom coração possam ajudar".

A equipe de televisão de um site chamado Pear Video foi até o lugar e contou a história do solitário vovô de Tianjin. O telefone de Han começou a tocar. E pelos últimos três meses, não parou.

Família difícil de encontrar.

No início, Han estava esperançoso. Ele vinha procurando, há anos, pessoas para escutá-lo, parando os vizinhos para dizê-los que estava sozinho, que tinha medo de morrer, que não queria morrer sozinho.

Agora, as pessoas estavam se aproximando, demonstrando preocupação. Um restaurante local ofereceu comida. Uma jornalista da província de Hebei prometeu visitá-lo. Ele começou uma amizade pelo telefone com uma estudante de direito de 20 anos, do sul do país.

Mas seu humor azedou quando percebeu que a família que ele imaginava seria difícil de encontrar. Ele rejeitou ofertas. Quando um trabalhador imigrante ligou em janeiro, ele o dispensou e desligou o telefone.

Nascido em 1932, ele era um garoto quando os japoneses invadiram a China, um adolescente quando Mao Tse-tung fundou a República Popular, um jovem durante os anos de fome que se seguiram.

Conseguiu um emprego em uma fábrica, conheceu sua mulher e matriculou-se em aulas noturnas, depois numa universidade. Seus filhos cresceram durante a Revolução Cultural, uma década de desordem que quebrou famílias e mentes.

"Os chineses da minha idade realmente sofreram", disse.

Tendo suportado tanta coisa, sua geração esperava envelhecer como os que os antecederam: vivendo em um complexo familiar, cuidados por filhos e netos. Para Han e milhões de outros, isso não aconteceu. E isso o deixou furioso.

O problema, Han dizia a quem quisesse ouvir, era que os jovens haviam abandonado o modelo antigo, mas o governo ainda não tinha encontrado um novo sistema para o atendimento ao idoso.

Jiang Quanbao, professor de demografia no Instituto para Estudos de População e Desenvolvimento na Universidade de Xi'an Jiaotong, disse que o desafio é que a China é tanto uma sociedade envelhecida como um país em desenvolvimento. A China "envelheceu antes de enriquecer", afirmou.

Peng Xizhe, professor de população e desenvolvimento da Universidade Fudan, de Xangai, explicou que a oferta e a qualidade dos lares de idosos na China são "seriamente inadequadas".

Mesmo aqueles que, como Han, podem pagar por um quarto decente em uma lar de repouso, geralmente são céticos. Pessoas mais velhas não querem que seus colegas pensem que foram abandonados pelos filhos, disse Peng. Os filhos têm medo de parecer malcriados.

Han disse que teve um desentendimento com um filho e o outro se mudou para o Canadá em 2003, sem ligar com frequência. Mas se recusou a fornecer seus números de contatos, dizendo que não queria constrangê-los.

Ele comparou sua situação à de uma planta murcha. Os idosos são "como flores e árvores", disse. "Se nós não formos regados, não podemos crescer."

Quando as pessoas que viram sua história ligaram para ver como ele estava, ele frequentemente começava a reclamar do governo ou da comida nas casas dos idosos locais - que ele experimentou e odiou. As porções eram pequenas demais para o preço, disse. A sopa estava rala.

Quando o inverno veio, as ligações se tornaram menos frequentes. Han foi novamente consumido pelo medo de morrer na cama, sozinho.

A velhice traz a raiva.

As últimas semanas da vida de Han foram envoltas por um silêncio teimoso e ligações perdidas. Após sua morte, seus vizinhos e filhos não puderam ou não quiseram esclarecer as circunstâncias dos seus últimos dias. O que está claro é que o sistema falhou com ele - e que provavelmente irá falhar com outros.

O idoso passou seus últimos dias tentando se conectar. Em fevereiro, começou a ligar para uma linha de ajuda a idosos, chamada Entrega de Amor de Beijing. A fundadora da linha, Xu Kun, criou o serviço para prevenir o suicídio, particularmente frequente entre idosos que moram sozinhos.

Xu disse que idosos frequentemente se tornam mais rancorosos conforme envelhecem. E o problema é que isso afasta as pessoas justamente quando mais precisam delas. "A família e a sociedade têm dificuldade para entender o mau-humor, a depressão que vem com o envelhecimento", explicou.

Han ligava para a linha algumas vezes na semana, desabafando para a equipe sobre sua solidão e lamentando o estado dos lares para idosos na China. Ele parou de ligar no início de março, revelou Xu.

Han também manteve contato com sua amiga estudante de direito, Jiang Jing. Ele disse a Jian que havia outro jovem, um militar chamado Cui, com quem falava regularmente e tinha interesse em adotá-lo.

Jiang falou pela última vez com Han em 13 de março. No dia 14, ela perdeu uma ligação dele. Na próxima vez em que ela telefonou, no início de abril, uma voz desconhecida atendeu: seu filho, ela descobriu. Ele disse que o pai morrera no dia 17 de março.

Em Tianjin, a morte de Han passou despercebida. Duas semanas depois, o comitê do bairro que deveria vigiar os moradores ficou surpreso com a notícia de que ele morrera. Cinco vizinhos disseram que notaram sua ausência, mas não foram checar.

O filho de Han, Han Chang, voou do Canadá à China para cuidar dos procedimentos. Ele estava com raiva do pai por ter postado um pedido de adoção e irritado com os repórteres por terem seguido a história.

O caçula disse que o pai estava mentindo, que tinha três filhos e não dois, e cuidavam bem dele. Se recusou a fornecer nomes ou números dos seus irmãos ou de qualquer outra pessoa que pudesse confirmar a informação.

Seu pai não tinha sido solitário, insistiu, apenas havia se tornado um velho. "Isso pode acontecer em qualquer lugar", disse.

Ele não quis discutir a vida de seu pai, mas confirmou os detalhes básicos de sua morte. Quando Han ficou doente no dia 17 de março, ligou para um número desconhecido em seu telefone. O filho não disse de quem era o número - poderia ter sido do militar, outro possível adotante ou alguma outra pessoa.

O maior medo de Han era que morresse em sua cama, que alguém encontrasse seus ossos. Mas quando a hora chegou, ele tinha alguém para ligar. Ele chegou ao hospital. Quando seu coração parou, ele não estava sozinho. / W. POST

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