O fim possível de uma guerra que causou 30 mil mortes

Acordo anunciado nesta quarta-feira, 23, em Havana promete pôr fim definitivo a conflito que dura mais de meio século

Roberto Lameirinhas, O Estado de S. Paulo

24 Setembro 2015 | 07h52

Estimativas conservadoras apontam para mais de 30 mil mortos na guerra civil colombiana, que tomou corpo a partir da fundação da guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), em 1964. Às mortes, somam-se dezenas de milhares de sequestros e recrutamento forçado de crianças e adolescentes, uma infindável série de atentados e milhões de dólares em danos à infraestrutura das regiões disputadas pelos rebeldes, o Exército regular colombiano e as sanguinárias milícias de ultradireita associadas às Autodefesa Unidas da Colômbia (AUC).

É neste conflito de mais de meio século - entremeado pela intensa atividade dos cartéis de narcotráfico que chegaram a se infiltrar profundamente nas instituições de Bogotá nos anos 80 e 90 - que o acordo anunciado nesta quarta-feira, 23, em Havana promete pôr fim definitivo.

O encerramento do impasse militar - durante o qual a guerrilha não conseguiu tomar o poder nem as forças oficiais foram capazes de sufocar a rebelião - traz finalmente à Colômbia o alívio que tanto buscava para desenvolver sua economia e reunificar sua fraturada sociedade. 

É verdade que, nos últimos anos, as Farc definharam. 

Em seu auge, a partir da década de 80, chegou a ter um número estimado de 18 mil combatentes e dominou mais de 30% do território colombiano, convertendo-se num dos maiores pesadelos para sucessivos governos centrais em Bogotá. Boa parte de sua campanha militar era financiada pela cobrança de “imposto de guerra” sobre todas as atividades econômicas das áreas sob seu controle, incluindo o tráfico de cocaína.

Uma primeira tentativa de pacificar os rebeldes falhou após um acordo de paz em 1985, quando as Farc e demais grupos esquerdistas se uniram no movimento político União Patriótica (UP). O pacto foi sabotado pelos paramilitares e cartéis de drogas. Mais de 3 mil membros da UP foram mortos pelos “paras”.

Reagrupadas nas florestas e montanhas, as Farc retomaram o combate ao Exército regular. Eram bem treinadas, estavam fortemente armadas e mantinham posições bem consolidadas. 

A situação começou a mudar em 1994, quando os EUA passaram a ajudar com US$ 700 milhões por ano os militares colombianos, um esforço conhecido como Plano Colômbia, inicialmente voltado para o combate ao tráfico. Com a chegada ao poder de Álvaro Uribe, em 2002, o Exército recebeu ordens e armas para intensificar o combate à guerrilha. Político de linha dura cujo pai foi morto pela guerrilha, Uribe teve a caça aos rebeldes facilitada não só pelo Plano Colômbia, mas também pela pacificação dos “paras” e a derrota dos narcotraficantes.

Os militares restringiram a ação das Farc. Ataques pontuais mataram os principais líderes do grupo, como Raúl Reyes e Alfonso Caño. As Farc minguaram para entre 4 mil e 6 mil combatentes. Um acordo de paz, neste cenário, seria a saída mais honrosa.

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