AFP PHOTO / STEPHANE DE SAKUTIN
AFP PHOTO / STEPHANE DE SAKUTIN

O fim também da era Mandela

Pela primeira vez desde 1994, o Congresso Nacional Africano não tem como certo reencontrar os caminhos do poder

O Estado de S.Paulo

14 Fevereiro 2018 | 05h00

Jacob Geddleyihlekisa Zuma nasceu em um clã zulu, pobre e autodidata. Como explicar sua ascensão? Pela guerra. Ingressando no CNA muito jovem, aos 17 anos, Zuma ficou famoso por  sua coragem desmedida, chegando aos altos escalões do braço armado do partido. Em 1963, monta uma rede clandestina e é preso. É condenado a 10 anos de prisão e é levado para Robben Island, onde já estava outro resistente, Nelson Mandela. Ao sair da prisão, não está mais calmo. Se bate como um leão.

Uma biografia perfeita, que irá protegê-lo por muito tempo quando, após o fim do apartheid e a criação de uma África do Sul democrática, ele entra na vida política. Sua biografia irrepreensível é manchada a olhos vistos. Desde 1999, é acusado de ter embolsado enormes somas pela compra de armamentos de uma empresa francesa filial da Thalès. Foi acusado de ter estuprado à época dos combates a filha de um dos seus camaradas e absolvido, em 2005.

Zuma traçou seu itinerário e conseguiu ser eleito presidente do partido em 2007. Em 2009, livrou-se das acusações de tráfico de armas e foi eleito presidente em abril daquele ano. Em 2010, Zuma está no apogeu. As empresas públicas sofrem. A Eskom, companhia de energia elétrica, é “saqueada”. Os ministros de Zuma jamais são perseguidos. Zuma está lá como proteção. É o chefe o clã.

Entre as inúmeras malversações e pilhagens de Zuma, uma em particular deixou indignados os cidadãos. Ele possui uma residência particular em Nkandla que reformou com dinheiro do Estado, uma soma de 15 milhões de euros. 

A curiosa família indiana Gupta se esgueirou no centro do poder, a ponto de influir nas decisões mais delicadas do governo. Mais espantoso ainda: os ministros às vezes são escolhidos em uma reunião mantida com os membros da família Gupta em sua residência.

Como não pensar em casos similares em outros países? Na Coreia do Sul, por exemplo, a presidente Clark Geun-hye foi destituída por ter saqueado os cofres públicos para presentear sua velha amiga Choi Soon-sil.

Em 2008, na África do Sul, o presidente da Thabo Mbeki foi convidado a renunciar. E se submeteu sem alvoroço à decisão do Conselho de Estado. Mas Zuma é diferente. Basta rever sua biografia para saber que ele não ficaria inerte.

Mas este último “combate” não o salvará. E será ao mesmo tempo o fim da época Mandela. Pela primeira vez desde 1994, o Congresso Nacional Africano, que chegou ao seu ápice com Mandela, não tem como certo reencontrar os caminhos do poder. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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