Lionel Bonaventure / AFP
Lionel Bonaventure / AFP

O foco da Europa muda da Alemanha para a França

Com Merkel enfraquecida por resultado eleitoral,França deMacron tenta assumir protagonismo europeu

The Economist, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2017 | 05h00

Quem lidera a Europa? No início do ano, a resposta era óbvia. Enquanto Angela Merkel rumava tranquilamente para uma quarta vitória eleitoral, o Reino Unido fazia as malas, a Itália estava fora do páreo e a França, com a economia quase estagnada, tremia com a possibilidade de que Marine Le Pen se tornasse um Donald Trump gaulês.

Macron, o presidente jovem e da língua afiada 

Agora as coisas parecem bem diferentes. Merkel de fato venceu a eleição em setembro, mas com margem tão pequena que perdeu a estatura. A Alemanha tem pela frente meses de negociações difíceis para a formação de uma coalizão de governo. Cerca de 6 milhões de eleitores apoiaram um partido xenófobo de extrema direita, muitos deles em protesto contra as políticas de Merkel para refugiados. A Alternativa para a Alemanha, de tendências radicais, que até agora não tinha representação no Parlamento do país, tornou-se a terceira maior força no Bundestag.

Por sua vez, a oeste do rio Reno, com uma Assembleia Nacional dominada por seu recém-criado e devotado partido, o presidente da França, Emmanuel Macron, exala ambição. Em recente discurso sobre o futuro da União Europeia (UE) ele reivindicou seu direito à ribalta. O que não disse foi que a tarefa de recolocar a França no centro do palco da UE, depois uma década fazendo as vezes de coro, não depende apenas de seus planos para o continente, mas também de sua capacidade para implementar reformas num país que há muito parece irreformável.

Macron propõe o estabelecimento de um orçamento militar comum e a criação de uma agência voltada para a promoção de “inovações radicais”, assim como o desejo de fortalecer a zona do euro. Em certo sentido, ao requerer para si o papel de inovador intelectual da Europa, Macron estava se filiando a uma longa tradição francesa. Além disso, alguns elementos de seu discurso – a taxação de emissões de carbono em todo o bloco europeu, a proposta de tributar as empresas estrangeiras de tecnologia não em seu local de domicílio, mas onde são geradas suas receitas, a ideia de combater o “dumping social”, submetendo o setor privado do continente a uma carga tributária harmônica — remetem a antigas tentativas empreendidas pela França com o intuito de coibir a concorrência “desleal” entre membros da UE.

Não obstante isso, Macron tem um objetivo mais sutil e radical que o dirigismo à moda antiga. E, como se pretendesse dar mostras disso, o governo francês anunciou estar de acordo com a redução da influência que tem na fabricante de trens de alta velocidade Alstom, autorizando a fusão da empresa com a alemã Siemens, que é controlada por capital privado. O intuito é evitar o populismo, estabelecendo um equilíbrio que permita, de um lado, oferecer segurança no emprego para os cidadãos, e, de outro, estimular sua adesão à inovação, em razão da qual muitos franceses temem ficar sem trabalho. Em seu discurso, Macron também defendeu a desestabilização digital e a implementação do mercado comum digital. A reforma da zona do euro deixará a Europa menos vulnerável à próxima crise financeira.

Por mais louváveis que sejam em tese, essas ideias só terão mérito se na prática conduzirem a uma Europa mais empreendedora, aberta e confiante, e não a uma fortaleza protecionista. Além do mais, correm o risco de nem sequer serem experimentadas, caso Macron não tenha sucesso internamente. Pois, se a França continuar sendo antes uma ameaça à estabilidade econômica da UE, do que fonte de solidez e crescimento, seu presidente jamais passará de coadjuvante da chanceler alemã.

No plano interno, alguns podem ter ficado com a impressão de que Macron estreou com o pé esquerdo. Afinal, em seus primeiros meses no cargo, o presidente francês ganhou manchetes em virtude de seus gastos com maquiagem, do colapso de sua aprovação e do que há de arrogância em seu estilo “jupiteriano” de exercer o poder. Como era de se imaginar, os franceses, irritadiços como só eles, já questionam a legitimidade do programa que aprovaram ao eleger Macron. As reformas, na França, aparentemente seguem um padrão: as ruas protestam; o governo recua; e então se instaura o “immobilisme”.

No entanto, um exame mais minucioso revela que Macron parece prestes a subverter esse padrão de comportamento. Ainda que tenha passado quase despercebido, algo de extraordinário acontece: enquanto a maioria dos franceses se refestela na praia, Macron negocia com as centrais sindicais do país uma profunda liberalização do mercado de trabalho — que se tornou lei em 22 de setembro. E isso sem causar confusão. Até o momento, nem os sindicatos mais militantes, nem os esquerdistas mais apaixonados conseguiram pôr na rua as manifestações de massa que esperavam organizar. Nada menos que 59% dos franceses dizem apoiar a reforma trabalhista. Novos protestos acontecerão. Embates mais difíceis, envolvendo temas como aposentadoria, tributação, gastos públicos e educação, ainda terão de ser travados. Macron precisa manter a determinação. Mas, por incrível que pareça, já passou em seu primeiro grande teste.

Em muitos aspectos, o político de 39 anos ainda não foi bem compreendido pelos analistas. Por trás do talhe arrogante, emerge um político que parece ser, a um só tempo, corajoso, disciplinado e cuidadoso. Corajoso porque as reformas trabalhistas, como bem sabem alemães e espanhóis, levam tempo para se traduzir em criação de empregos, geralmente proporcionando recompensas políticas apenas aos sucessores dos que se livram do trabalho ingrato de aprová-las. Disciplinado porque Macron deixou muito claro antes da eleição quais eram seus planos, e manteve a palavra. Os sindicatos foram amplamente consultados, e duas das três maiores centrais concordaram com a reforma. 

Por fim, cuidadoso: Macron não vê as políticas governamentais como se fossem um menu à la carte. Ele está à par do impacto desestabilizador que a tecnologia digital vem tendo no mundo do trabalho. Sua filosofia de governo é ir adaptando o antiquado sistema francês de normas e proteções às mudanças, conforme elas forem acontecendo.

Nos últimos anos, uma França debilitada vinha sendo a parceira cronicamente frágil da Alemanha, empurrando Merkel para um protagonismo solo que ela não buscava nem tinha prazer em executar. É claro que Macron pode acabar tropeçando antes de se tornar o centro das atenções. Nenhum líder que pretenda implementar reformas na França inspira muito otimismo. Não será fácil convencer a Alemanha a se engajar em sua proposta de reforma da zona do euro. Mas, o que este ano vem mostrando é que é um erro apostar contra o formidável Macron. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

©  THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.