O fracasso da educação nos EUA

Se país pretende reduzir desigualdade, precisa de reformar o sistema e de mais investimentos no setor

Fareed Zakaria*, The Washington Post/O Estado de S.Paulo

05 Maio 2014 | 02h00

Thomas Piketty, economista francês e autor do livro Capital no Século 21, de 700 páginas, afirma que os livres mercados tendem a produzir desigualdades de renda que se tornaram dinásticas e contrárias à meritocracia. A solução evocada por todos é taxar os ricos. Mas, lendo o livro, fica claro que Piketty reconhece o fato de que "por um longo período de tempo a principal força em favor de uma maior igualdade foi a difusão do conhecimento e das aptidões".

Afinal, países como Índia e Brasil tinham taxas de juros extremamente altas nos anos 70 e 80, mas não produziram um crescimento que fosse amplamente compartilhado. Os países do Leste Asiático, pelo contrário, mantendo uma alta taxa de alfabetização e com uma mão de obra cada vez mais qualificada, conseguiram atingir tanto crescimento como igualdade.

Este não é um argumento contra um aumento de imposto, mas queremos enfatizar que, para obtermos melhores resultados no longo prazo, a educação continua sendo um fator crucial. Infelizmente, é uma área em que os EUA estão fracassando.

Se a leitura do livro de Piketty nos lembra das preocupantes desigualdades de renda, o recente e revolucionário relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre as capacidades das pessoas adultas nos países ricos dá um quadro igualmente sombrio das desigualdades em termos de conhecimento - e, nos caso dos EUA, isto é aterrorizador. O equivalente a 36 milhões de americanos adultos têm um nível muito baixo de competência.

E não são apenas os trabalhadores mais velhos. Em duas das três categorias testadas, proficiência tecnológica e aritmética, os jovens americanos prestes a entrar no mercado de trabalho - em idades entre 16 e 24 anos - classificaram-se em último lugar.

Esse é o primeiro estudo de grande amplitude sobre as habilidades e conhecimentos que os adultos precisam ter no mundo de hoje - em termos de alfabetização, noções de aritmética e tecnologia. Do mesmo modo que os testes que a OCDE realiza entre crianças de quarta a oitava série, o estudo tem por fim testar a capacidade de resolução de problemas, não apenas de memorização.

Um bom desempenho nesses testes tem uma relação direta com emprego, aumento de salários e produtividade, boa saúde e até mesmo participação cívica e engajamento político. A desigualdade em termos de aptidão teve uma forte relação com a desigualdade de renda.

Os testes demonstram que as pessoas em todos os lugares desenvolvem suas aptidões ainda jovens, sua proficiência chega ao auge por volta dos 30 anos e então começa o declínio. Assim, se as pessoas começam sua vida com um baixo nível de conhecimento, habilidade e pouca capacitação profissional, essas desvantagens, provavelmente, persistirão e aumentarão no decorrer das suas vidas.

O quadro esboçado no caso dos EUA é profundamente perturbador. Apesar de ter a segunda maior renda per capita do mundo, o país tem um péssimo desempenho em praticamente todas as dimensões. Está abaixo da média em termos de alfabetização e proficiência tecnológica e em antepenúltimo lugar no quesito aritmética (no caso de pessoas entre 16 e 65 anos). O interessante é que a França, país de Piketty, também registrou um mau desempenho em muitas categorias.

As desigualdades em se tratando de aptidões também passam de geração para geração e estão arraigadas. Os EUA registram um grande abismo entre os que têm o melhor desempenho e aqueles que registram o pior - embora a porcentagem seja menor no topo da classificação em comparação com países como Japão, Finlândia e Holanda. O país registrou uma importante diferença em notas entre pessoas com pais ricos e educados e aquelas com pais pobres e sem formação.

Os EUA têm um alto nível de educação e uma grande porcentagem dos seus trabalhadores em programas de aprendizado e treinamento. Além disso, o país gasta muito dinheiro em todas essas atividades. No entanto, o seu desempenho é pior do que o de muitos países com menos vantagens e recursos. E não é por causa dos imigrantes. Cerca da metade dos países membros da OCDE hoje possuem uma porcentagem de adultos nascidos no estrangeiro maior do que os EUA.

O que podemos reter do estudo é que, na verdade, é apenas uma extensão do que descobrimos nos resultados do teste. A maior força por trás do declínio dos EUA nos rankings não é o fato de o desempenho do país ter piorado muito, mas que outros países o alcançaram e estão atuando melhor. O sistema americano de educação e aprendizado é inadequado no novo panorama global.

E não há sinais de melhora. A reação negativa bipartidária contra o Common Core - conjunto de padrões nacionais estabelecidos de comum acordo pelos governadores - é um trágico exemplo. Pais com nível cultural inferior, mas uma grande autoestima, mostram-se indignados com o fato de os testes mostrarem que muitas escolas americanas não vêm ensinando seus filhos como seria necessário.

Os testes devem ser falhos porque seus filhos são brilhantes. Alguns grupos de professores mostraram-se contrariados com a ênfase dada aos testes, embora Randi Weingarten, presidente da Federação Americana de Professores, tenha endossado o Common Core. E os republicanos agora se opõem a ele - embora o tenham defendido há poucos anos -, em grande parte porque o governo de Barack Obama apoia o projeto.

"A principal força de convergência da riqueza, a difusão do conhecimento, é apenas em parte natural e espontânea. Ela também depende em grande parte das políticas educacionais", escreve Piketty. Em outras palavras, se queremos realmente reduzir a desigualdade, precisamos reformar o sistema, investir dinheiro onde for necessário - como na educação infantil - e começarmos a trabalhar nisso agora.

*Fareed Zakaria é colunista.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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