O funcionário que enfrentou Kadafi

Revoltado com o regime, Mehdi Mohammed Zeyo deu início à ação que resultou na tomada de quartel de Benghazi

LOURIVAL SANTANNA, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2011 | 03h02

Mehdi Mohammed Zeyo era um pacato funcionário do setor de compras da NOC, a estatal de petróleo da Líbia. Diabético, de óculos redondos e 49 anos, Zeyo morava com a mulher e as filhas gêmeas de 16 anos num apartamento que dava de frente para a entrada principal da Katiba, o quartel-general de Benghazi.

De lugar mais seguro da cidade e representação máxima do poder de Muamar Kadafi, a rua de Zeyo transformou-se num campo de batalha entre os manifestantes e os kataeb, os militares leais ao regime. Zeyo foi se transformando com sua rua.

Os shebab, ou jovens, começaram a se reunir em 18 de fevereiro em frente ao portão principal da Katiba para protestar contra a repressão a manifestações pacíficas por causa da prisão do advogado Fathi Terbil, que defendia famílias dos mortos no massacre da prisão de Abu Salim, em 1996. As primeiras manifestações pacíficas reuniram juízes, advogados e parentes das vítimas em frente à Alta Corte de Justiça de Benghazi, na Praça dos Mártires, à beira do Mediterrâneo. As forças de segurança abriram fogo contra os manifestantes, dando um novo sentido ao nome da praça.

Primeiro, os jovens chegaram à Katiba apenas com pedras. Foram recebidos com tiros de fuzil. Depois, começaram a usar também granadas artesanais, feitas com dinamite usada pelos pescadores de Benghazi, acondicionada em garrafas. Mais de cem jovens morreram nesse combate desigual. Ao longo de dois dias, Zeyo ajudou a socorrer os jovens feridos e a remover os corpos com seu carro. Sua mulher Samira conta que ele se tornou raivoso, e lhe perguntava: "Por que não estamos todos fazendo algo?"

No terceiro dia, 20 de fevereiro, Samira o viu descendo as escadas com dois botijões de gás, um de cada vez, sobre os ombros. Mas não deu atenção. Zeyo os colocou no porta-malas, com uma lata de dinamite. Pegou o carro e dirigiu até o portão principal. Quando passou pelos jovens, fez o V de vitória com os dedos. Depois pisou fundo no acelerador. Os soldados abriram fogo contra seu carro, enquanto ele se chocava contra o portão principal.

A explosão que se seguiu destruiu os portões, abrindo caminho para os shebab. Pegos de surpresa, os soldados fugiram pelos fundos do quartel, deixando armas, munição e fardas. De outras katibas do leste da Líbia, os soldados escaparam também pelos fundos, ao fim de dois ou três dias de resistência. Foi assim que os jovens manifestantes tiveram acesso aos primeiros fuzis, munição e fardas, que os converteram em combatentes armados.

Outras bases do Exército foram sendo conquistadas ou abandonadas; militares desertores ou interessados em dinheiro contrabandearam armas para os shebab. Até em Trípoli, o Estado conheceu civis que prestavam serviços ao Exército e serviram de elo na cadeia de transmissão de armas, munições e informações para os revolucionários.

Muitos líbios contaram que, no início dos protestos, não defendiam a queda de Kadafi, mas apenas reformas como as propagandeadas havia cinco anos por Saif al-Islam, seu filho e pretenso sucessor. "Escrevi na minha página do Facebook que só precisávamos de reformas", recordou o cirurgião Ezedin Bosedra. Ao longo das semanas seguintes, Bosedra viu shebab mortos e feridos por foguetes e artilharia antiaérea, famílias e ambulâncias em zonas residenciais alvejadas, até que ele mesmo sobreviveu a um ataque ao hospital de Ajdabiya - proposital, como noutras cidades. Bosedra passou a não aceitar nada além da queda do regime.

Outros líbios que não passaram pelo que o cirurgião e seus colegas passaram contam que o divisor de águas em seu sentimento em relação ao regime foram os discursos ferozes de Kadafi e Saif nos primeiros dias da revolta. Nesse momento, constataram que Saif não era diferente do pai, viram que as reformas eram da boca para fora e sobretudo sentiram-se profundamente ofendidos pela forma como eles se referiram aos manifestantes, usando palavras como "cães" e "ratos", e ameaçando caçá-los "de casa em casa". O armamento pesado usado pelos kataeb deu às palavras uma concretude chocante.

Por tudo isso, da prisão de Fathi Terbil até sua captura, sevícia e morte em Sirte, foi Kadafi quem transformou manifestantes pacíficos em combatentes de uma guerra civil e inoculou em pessoas comuns o sentimento de que já não havia nada a perder.

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