CHRISTOPHE ARCHAMBAULT/AFP
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O furor islamista

Popularidade de Merkel sofre desgaste cada vez que há um incidente na luta contra o EI

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

21 Dezembro 2016 | 05h00

A poucas horas de diferença um do outro, dois lugares da Europa pegaram fogo na segunda-feira. No sul, em Ancara, Turquia, um jovem assassinou friamente o embaixador russo no país, Andrei Karlov. Mais ao norte, o coração da Alemanha foi golpeado: em Berlim, um caminhão investiu contra a multidão numa feira de Natal. Doze pessoas morreram e 48 ficaram feridas.

São dois crimes diferentes. Em Berlim, o alvo foi cruelmente escolhido: o Natal é a festa mais querida dos alemães, e o massacre foi a dois passos da Igreja Memorial do Imperador Guilherme, bombardeada durante a 2.ª Guerra e mantida com suas ruínas para que as marcas do sofrimento jamais se apaguem. Na noite de segunda-feira, a nova desgraça encobriu a primeira.

O motorista do grande caminhão atacou cegamente, como é hábito entre esses fanáticos, com a preocupação única de semear terror e ódio. Em Ancara, pelo contrário, tratou-se de um atentado bem definido, visando apenas uma pessoa e num contexto específico: o fim trágico da cidade síria de Alepo sob os golpes coordenados do líder sírio, Bashar Assad, dos russos e de milicianos xiitas.

Há, no entanto, aspectos comuns entre as ações. São ambas parte da interminável litania de terror que se abate sobre cidades europeias, sobre suas festas, suas alegrias, a simplicidade de sua vida cotidiana. São ações que parecem aleatórias e desordenadas, mas no fundo são assustadoramente coerentes.

Por mais diferentes que sejam, juntos, os episódios confirmam que a Europa vive tempos de tragédias que repetem seus horrores numa sequência que parece não ter fim. Essa sangrenta monotonia é um dos ingredientes do terror. Ela instila a ideia de que nenhum país está a salvo da desgraça e o morticínio nunca vai acabar. É um pouco como se a morte promovesse tais orgias por conta própria, sem necessidade do concurso dos homens – uma espécie de calamidade natural.

Escalada. Em Berlim, quem atacou foi o Estado Islâmico (EI) – o que representa uma ameaça grave para a chanceler Angela Merkel. Há um ano, ela tomou a nobre decisão de abrir as fronteiras de seu país às vítimas da guerra na Síria, no Afeganistão e na Líbia. Um milhão de imigrantes foram, desde então, acolhidos na Alemanha, enquanto outros países, entre eles, a França, receberam apenas algumas centenas.

O gesto de Merkel foi severamente condenado por uma grande parte dos alemães, aí incluídos os próprios aliados políticos da chanceler. Previram-se os piores dramas: a generosa medida seria desvirtuada pelos assassinos do EI ou da Al-Qaeda – nas multidões vindas do Oriente Médio se infiltrariam terroristas, que agiriam à vontade em solo europeu.

Um acontecimento anterior foi visto como uma espécie de advertência. Em dezembro de 2015, na noite de São Silvestre – a chegada do novo ano –, em todas as grandes cidades alemãs homens se misturaram à massa para agredir sexualmente mulheres – 1.200 foram atacadas.

Nos meses seguintes, a insegurança aumentou, sem que os alemães se dessem totalmente conta. É que os crimes jihadistas cometidos na França foram tão violentos, tão ignóbeis que desviaram um pouco a atenção do jihadismo na Alemanha. Entretanto, o massacre cometido na segunda-feira em Berlim foi precedido por três ou quatro outros ataques do EI.

Em 18 de julho, um jovem afegão feriu quatro pessoas a machadadas num trem. Três dias depois, um refugiado sírio se explodiu num festival de música na Bavária. Em 6 de outubro, um adolescente de 16 anos foi morto por um extremista em Hamburgo. E isso não é tudo. Houve vários outros atentados, que fracassaram por incompetência dos terroristas ou graças à vigilância da polícia alemã.

Efeito político. Os crimes marcam um retrocesso e assinalam perigos para Merkel. Foi ela, dizem seus inimigos, quem ingenuamente, tolamente, abriu as fronteiras para os matadores. Assim, hoje, com o EI em debandada no Iraque e na Síria, o terror se muda para a Europa. Calcula-se que 800 jovens alemães tenham aderido às milícias do grupo extremista. Uma parte deles provavelmente voltou para a Alemanha, com a intenção de cumprir sua missão de morte.

Merkel está de novo no centro da tempestade. Seria o homem que massacrou a multidão um dos imigrantes que entraram na Alemanha graças à tolerância da chanceler? Ontem, anunciou-se que o terrorista havia sido preso e era um refugiado paquistanês de 23 anos, chegado à Alemanha precisamente há um ano. A confirmação da identidade desse suspeito seria avassaladora para Merkel.

Mas, depois do meio-dia, o quadro se modificou. O suspeito negou com veemência qualquer participação na matança, e a própria polícia duvidou de sua culpa, libertando-o por falta de provas.

Mesmo que não se tenha confirmado que o motorista do caminhão seria um dos refugiados autorizados a entrar por Merkel, a posição da chanceler continuará frágil. Dentro de dez meses, haverá eleições gerais na Alemanha. Merkel se apresentará para tentar um quarto mandato na chefia do governo (recorde absoluto). E, pela primeira vez, sua vitória não está antecipadamente garantida.

Cada vez que um crime ou incidente grave ocorre na luta contra o EI, a popularidade de Merkel se desgasta, numa sucessão de pequenas hemorragias políticas. Foi o caso recente da presença de um infiltrado jihadista no serviço de informações internas do governo alemão. Foi, igualmente, a prisão de um refugiado afegão em Bade-Wurtenberg, acusado de violentar uma estudante de medicina. Fica claro que o massacre na feira de Natal em Berlim terá efeitos devastadores sobre a popularidade de Merkel.

Mesmo na coalizão de governo – os socialistas e a CDU (democracia cristã) de Merkel –, críticas severas vêm sendo feitas ao “ecumenismo”, para não dizer idiotice, da chanceler. O grande beneficiário da situação é o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD), que prospera na xenofobia, no ódio aos árabes. Ontem, um de seus dirigentes ameaçava: “Quando o estado de direito alemão vai revidar? Quando essa maldita hipocrisia vai acabar? Esses mortos são mortos de Merkel”. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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