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O futuro da democracia

Perspectiva de um presidente que não aceita entregar o cargo e de uma decisão para a Suprema Corte cuja legitimidade é contestada é um grande teste para os EUA

Lourival Sant'Anna*, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2020 | 07h27

A recusa de Donald Trump em garantir que aceitará eventual derrota nas eleições ganha nova dimensão com a morte da juíza Ruth Bader Ginsburg, e a corrida do presidente para substituí-la antes de 3 de novembro. O impacto dessa estratégia sobre a democracia americana depende das reais intenções do presidente, algo sempre difícil de decifrar.

Tenho três hipóteses. Ao enfatizar o risco de “fraude eleitoral” por causa do envio de cédulas, segundo ele, “não solicitadas” pelo correio, Trump procura mobilizar os eleitores por meio da raiva e do medo de serem roubados. A mobilização do eleitor é crucial em um país onde o voto não é obrigatório e ocorre em dia útil.

Em razão da pandemia, metade da votação poderá ser feita pelo correio. Historicamente, os democratas votam mais pelo correio do que os republicanos, porque pessoas de baixa renda, que tendem mais para as propostas democratas, têm mais dificuldades de deixar o trabalho para votar. Por essa hipótese, a recusa de Trump seria só tática de campanha, e se dissiparia após a eleição, independentemente do resultado. É o cenário mais racional e benigno.

Minha segunda hipótese é dominada pela emoção. Trump acabaria não resistindo a entregar o cargo, mas manteria a narrativa de que a eleição foi roubada. Essa atitude atenderia às suas fantasias egóicas. Três livros recém-lançados por autores muito diferentes descrevem o quanto a autoestima ferida de Trump é determinante em seu comportamento: The Room Where It Happened, de John Bolton, ex-chefe do Conselho de Segurança Nacional; Too Much And Never Enough, de Mary Trump, sobrinha do presidente e psicóloga; e Rage, do jornalista Bob Woodward, que o entrevistou 17 vezes, assim como seus assessores.

Essa hipótese é mais preocupante do que a primeira, porque implica em investimento de mais longo prazo em teorias conspiratórias que têm inflamado movimentos em favor de Trump. Entre eles, está o QAnon, que acredita que Trump combate uma rede de pedófilos composta por agentes secretos americanos e por democratas. Depois de ler no Facebook e Twitter que a pizzaria Comet Ping Pong, em Washington, escondia no porão crianças usadas como escravas sexuais de uma rede liderada por Hillary Clinton, Edgar Welch, de 28 anos, pai de dois filhos, viajou de Salisbury, Carolina do Norte, para lá. Ele invadiu a pizzaria com um fuzil e um revólver. Ninguém ficou ferido e Welch foi condenado a quatro anos de prisão.

Isso foi em dezembro de 2016, logo depois da campanha eleitoral, na qual o QAnon foi usado contra Hillary. A seita também ataca negros, judeus e muçulmanos. Em agosto, Trump celebrou no Twitter a vitória nas primárias republicanas de Marjorie Taylor Greene, candidata a deputada pela Geórgia. Greene é seguidora do QAnon.

Minha terceira hipótese é um híbrido de razão e emoção. É a mais perigosa. Trump pode ter a intenção de lutar até o fim para reverter eventual derrota nas urnas. “Com os milhões de cédulas não solicitadas que estão mandando, é uma armação”, disse o presidente, na quarta-feira, ao justificar a pressa em preencher a vaga de Ginsburg. “Todo mundo sabe. E os democratas sabem melhor que todo mundo. Acho que isso vai acabar na Suprema Corte, e é muito importante termos nove juízes.”

A nomeação do terceiro juiz (no caso, a juíza Amy Barrett) por Trump eleva o número de conservadores para seis, contra três liberais. Em 2016, os republicanos bloquearam a nomeação pelo então presidente Barack Obama oito meses antes das eleições, alegando que era preciso esperar o resultado das urnas. Estamos a 37 dias das eleições. A perspectiva de um presidente que não aceita entregar o cargo e de uma decisão por uma Suprema Corte cuja legitimidade é contestada é um grande teste para a democracia americana.

É COLUNISTA DO ‘ESTADÃO’ E ANALISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

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