'O futuro da Líbia será bem melhor do que muita gente esperava'

Êxito de eleição abre espaço para democracia com elementos da sharia, diz ex-premiê

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / TRÍPOLI, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2012 | 03h06

Após derrubar Muamar Kadafi em uma revolução considerada impossível, os líbios contrariaram todos os prognósticos e fizeram, na semana passada, uma eleição parlamentar quase irrepreensível e com resultado surpreendente. Pela primeira vez, um país que passou pela Primavera Árabe escolheu um partido não islâmico. Como foi possível? Para responder a essa e outras questões, o Estado entrevistou o ex-líder revolucionário Mahmoud Jibril.

Doutor em ciências políticas pela Universidade de Pittsburgh, nos EUA, ele foi presidente do Conselho Nacional de Transição (CNT) durante o levante contra Kadafi. Nessa função, encontrou-se com os principais líderes mundiais e conseguiu apoio político e militar para a revolta armada que tomou Trípoli há quase 11 meses.

Jibril é hoje líder da Aliança de Forças Nacionais, vitoriosa nas eleições, e tornou-se o homem mais poderoso da nascente democracia líbia. Ele recebeu o Estado em seu escritório para a primeira entrevista concedida a um veículo estrangeiro desde a votação. A seguir, os principais trechos da conversa.

O sr. está otimista quando ao futuro do país?

Não creio que o futuro da Líbia dependerá desse ou daquele partido político, seja da nossa aliança ou não. O futuro do país depende exclusivamente da determinação popular. E foi um sinal muito claro disso que vimos dias atrás. Como disse, não tem a ver com a organização de nossos partidos, com suas alianças ou com uma ou outra personalidade. O povo líbio provou em três ocasiões recentemente que ele é a verdadeira força política do país.

De que três ocasiões o senhor fala?

A primeira é a mais evidente: 17 de fevereiro de 2011, dia que marca o início da revolução. Depois, 17 de fevereiro de 2012. Dois ou três dias após o primeiro aniversário da revolução, houve uma ameaça púbica feita por Saadi Kadafi, filho de Kadafi que está refugiado em Níger. Ele disse que um grupo sob seu comando estava traficando pessoas para Trípoli e Benghazi, que elas patrocinariam assassinatos e explosões. As ameaças não surtiram efeito nenhum. Pelo contrário, despertaram uma reação em massa nas cidades da Líbia, quando a população se mobilizou sem que ninguém pedisse. Todos foram às ruas para celebrar sem medo, levando cinco ou seis membros de suas famílias, prontos para festejar a vitória na revolução e, se necessário, para defender suas conquistas com as próprias mãos. Foi um grande sinal de maturidade e de independência.

A terceira ocasião, imagino, seja a

eleição de 7 de julho.

Sim, foi o dia da eleição legislativa. Ninguém sabia se ela ocorreria, se haveria ataques ou se o leste do país participaria do pleito, fazendo parte ou não do processo democrático. Alguns falavam em ameaças, em ações de desestabilização do governo provisório e das eleições em Trípoli. E o que o mundo inteiro viu foi uma eleição transparente e democrática, elogiada por todos os observadores internacionais.

E como foi possível?

Essa é a pergunta que todos se fazem. Afinal, a Líbia era um país que saía de uma revolução, com uma grande lacuna em sua cultura democrática causada por um regime autoritário de 42 anos. Os líbios não conheciam o comportamento democrático. O que vimos, porém, foi o povo em massa nas ruas, fazendo fila nos locais de votação e celebrando nas ruas um processo democrático totalmente transparente. Como? Ninguém pode explicar o que aconteceu com o país.

O sr. está surpreso?

Sim. Eu não esperava que a eleição fosse ser tão transparente. A organização foi quase perfeita. Foi como se estivéssemos realizando eleições em Paris, Roma ou Washington. Ao longo da história, eleições só ocorriam quando existia um Estado organizado, com Forças Armadas preparadas, com polícia presente, com uma Justiça ativa e forte, que regulasse os eventuais excessos. Esse é o guarda-chuva que sempre garantiu eleições corretas. Na Líbia, fizemos eleições em condições totalmente adversas, sem um Estado organizado e com uma população armada. Deveria ser muito perigoso, muito sensível, mas não foi. A única explicação que tenho é que a sociedade decidiu participar sem armas, com um comportamento cidadão.

É essa a razão de seu otimismo?

Sim. Essa força que emanou da população, esse desejo de democracia que foi capaz de surpreender o mundo mais uma vez, me faz crer que o futuro será bem melhor do que muita gente esperava.

Na Tunísia e no Egito, os islâmicos

venceram as eleições livres. Por que

está sendo diferente na Líbia?

A maior parte da população da Líbia pertence a uma mesma corrente moderada do Islã, com exceção de nossos irmãos berberes, que pertencem a outra corrente, também moderada. Seguimos essa orientação desde a chegada do islamismo ao país. Até aqui, se discutia que tipo de Islã queríamos. Creio que os líbios se deram conta de que são uma população muçulmana homogênea desde sempre. Talvez sejamos a única sociedade no norte da África 100% muçulmana. Por que deveríamos colocar esse tema no centro de nossas discussões, se todos estamos de acordo sobre que tipo de religião queremos? Creio que alguns grupos islâmicos quiseram impor essa agenda de discussões, tentando criar uma fratura entre quem seria ou não realmente muçulmano. Mas a população rejeitou esse discurso.

Kadafi também reprimiu a Irmandade Muçulmana e os segmentos mais radicais da sociedade. Isso não desarticulou o movimento?

Sim, o regime de Kadafi criticou muito fortemente o islamismo político durante os 42 anos. A população soube reconhecer, na campanha eleitoral, que havia um islamismo político. Mas não acho que a Líbia possa ser comparada com Tunísia ou Egito, onde a Irmandade Muçulmana atua desde 1938. Na Líbia, eles não tiveram a oportunidade de amadurecer sua organização nem de lhe dar experiência política. No Egito, a Irmandade Muçulmana tinha um papel econômico e oferecia atendimento de saúde e educação quase de graça. Eram serviços à população que, de certa forma, criavam um vínculo de dependência social e econômica e lhes dava um papel quase inevitável na vida de cada cidadão. Isso não ocorreu na Líbia, mesmo que tivéssemos serviços públicos calamitosos.

Mesmo com o grande apoio desse eleitorado moderado, o sr. pediu à imprensa internacional que não usasse os rótulos de 'liberais' ou 'seculares' a sua coalizão? Por quê?

Porque esses rótulos não são saudáveis. Não temos nada a ver com ideologia. Essa coalizão não fala de ideologias.

Mas é um tabu ser liberal na Líbia?

Não. Quem é liberal vai às ruas e diz que é liberal. Há alguns partidos liberais, que na campanha se apresentaram como liberais. Mas esse não é o nosso caso. Não somos liberais. Por que as pessoas tentam nos rotular assim? Respeitamos todas as ideologias, mas essa não é a nossa. No liberalismo, fala-se de liberdade, igualdade. Mas, muitos séculos antes da Revolução Francesa, o Islã já falava desses princípios universais. Todos nós buscamos a liberdade.

E os Islã garante essa liberdade?

Sim. O Islã afirma que não há autoridade além da de Deus. Todas as autoridades que criamos como intermediárias não têm o mesmo valor para nós. O que falamos é da liberdade mais absoluta. As outras ideologias pregam o respeito aos intermediários: a lei, a Constituição. No Islã, aprendemos a temer apenas a Deus. Essa é nossa principal liberdade. O rótulo liberal não é útil. Precisamos de todas as forças políticas para construir o país. Temos de construir um Estado, uma Justiça, uma polícia eficiente, Forças Armadas dignas. Quando tivermos um Estado, discutiremos tendências políticas. Agora, precisamos trabalhar juntos. Por isso, falamos em coalizão, não em competição.

E quais serão os grandes desafios do futuro governo?

Nossos temas devem ser soberania, unidade territorial, inclusão social e política, desenvolvimento regional e descentralização do governo. Não precisamos de muitos ministérios. Teremos o básico: Economia e Petróleo, Relações Exteriores, Defesa, Interior. Os demais, todos os que tiverem relação com serviços públicos, devem estar associados aos municípios. As pessoas sentirão que estarão controlando suas vidas.

E a Constituição?

Quando falamos na Constituição, precisamos ter claro que as pessoas precisam se reconhecer nela. Nossa identidade de muçulmanos e moderados deve estar nela, como sempre esteve em nossa sociedade.

Qual será o peso da lei islâmica na Constituição?

A sharia (lei islâmica) tornou-se parte de nossa identidade. Tudo o que contrariar nossa visão comum do Islã não deve ser incluído na Constituição. Por outro lado, ninguém deve impor sua própria visão da sharia à Constituição. O que os líbios escolherem será o correto, porque eles são o sujeito da Constituição. Bares, álcool, prostituição e coisas do tipo devem ser rejeitadas, porque não são aceitas pelas pessoas nas ruas. É nesse sentido que digo: uma parte da sharia está internalizada em nossa consciência. É uma questão de comportamento. Há pessoas que não rezam na Líbia. No entanto, quando chega o Ramadã, eles aderem, porque a sociedade inteira adere. É constrangedor não aderir. Por isso, nossa concepção do Islã e da sharia já faz parte de nossa sociedade. Rejeitar na Constituição os princípios da sharia, que são aceitos por todos, seria artificial e contraproducente.

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