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'Futuro da democracia nos EUA vai depender de abraçarmos a diversidade', diz Shirley Wilcher

Para especialista americana, é imperativo ajudar a preparar e treinar as próximas gerações de modo que os não brancos se tornem líderes

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2021 | 17h09

Os Estados Unidos passarão a ser, a partir de 2023 ou 2024, um país de maioria não branca, de acordo com dados do Censo americano. As informações são citadas pela especialista em igualdade e diversidade Shirley J. Wilcher, para quem é imperativo ajudar a preparar e treinar as próximas gerações de modo que os não brancos se tornem líderes. Entre o que está em jogo, Wilcher elenca a futuro da democracia nos EUA. 

"Agora em 2011, 50,7% de todos os bebês nascidos nos Estados Unidos eram negros, latinos ou asiáticos. Isso já pode ser observado em qualquer jardim de infância. Então, nosso país vai abraçar essa diversidade ou fugir dela? Essa é uma questão muito importante", afirmou.

"Queremos poder ajudar a preparar e treinar as próximas gerações de líderes. Garantir que todos possam ser líderes. O futuro da nossa democracia nos EUA vai depender de abraçarmos a diversidade em todas as suas facetas, tanto no mercado de trabalho, quanto na educação, na saúde, na moradia e tudo mais", acrescentou.

Wilcher – diretora executiva da Associação Americana para Acesso, Equidade e Diversidade (AAAED) e presidente e CEO do Fundo para Liderança, Equidade, Acesso e Diversidade (Fundo LEAD) – participou do evento digital Diálogos Brasil-EUA: a questão racial em debate, um projeto para marcar o Black History Month (Mês da História Negra), promovido nesta quinta-feira, 25, pelo Estadão em parceria com a Embaixada e os Consulados dos Estados Unidos.

O painel com o tema "Inclusão no mercado de trabalho. Estamos no caminho?" contou ainda com a participação de Rachel Maia, presidente do Conselho Consultivo da UNICEF Brasil, e Ricardo Sales, consultor de diversidade e pesquisador na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). O encontro foi mediado pelo repórter do Estadão Gonçalo Junior.

Os painelistas afirmaram que o ano de 2020 foi um ponto de inflexão no qual a pauta da diversidade e igualdade ganhou protagonismo no meio empresarial, em grande parte devido à onda de protestos após o assassinato de George Floyd e devido ao fato de que as populações negras foram desproporcionalmente mais atingidas pela pandemia em números de casos e de mortes.

"Que a gente aproveite esse ano de inflexão para acelerar as transformações de que a gente precisa", defendeu Salles. Ele apontou que, embora o meio empresarial tenha feito grandes investimentos para avançar na questão, os esforços foram feitos nas matrizes e, muitas vezes, não chegaram às filiais no Brasil. 

Para Entender

O caso George Floyd

Homem negro de 46 anos foi morto por policial branco durante abordagem; desencadeados pelo assassinato, protestos contra o racismo e a violência policial eclodiram nos EUA e no mundo

"Somos uma sociedade marcadamente racista e discriminatória", disse. "Várias empresas têm mais de 50% dos funcionários negros. Mas onde estão essas pessoas? Muitas vezes, na base dos trabalhos, não nos postos onde as decisões são tomadas. Quando a gente olha para as 500 maiores empresas, segundo o Instituto Ethos, só há 4,7% de negros nas posições de lideranças. Se a gente olha com uma análise interseccional (que sobrepõe várias relações de discriminação, como a de gênero), esse número chega a 0,4%", afirmou.

Sales também refutou um argumento frequentemente difundido pelas empresas que não estão dispostas a se esforçar em função da igualdade – o de que não haveria pessoas negras qualificados no mercado. "Hoje, nas universidades públicas brasileiras, os negros são maioria. Isso desde o ano de 2019. Então dizer que não existem negros e negras capacitados é passar recibo de desinformado", argumentou.

O pesquisador ainda discorreu sobre a questão da negação do problema racial no Brasil. "As pessoas no Brasil tem uma tendência a dizer que não temos um problema social, nós temos um problema de classe. É uma falácia", afirmou, reiterando que o País possui os dois problemas que, como eles estão relacionados, acabam se potencializando.

"Se fosse apenas uma questão de classe e não de raça, uma pessoa negra que ascende socialmente deixaria magicamente de sofrer preconceito. Isso não só não acontece, como muitas vezes ele (o racismo) é potencializado. Porque a pessoa negra que ascende socialmente vai passar a frequentar os restaurantes da elite, morar em um bairro mais elitizado, chegar no avião e virar à esquerda para ir para a classe executiva e está sujeita a situações de racismo de uma forma muito mais intensa", explicou.

Sobre a implementação de mudanças no meio empresarial, Maia afirmou que vê três tipos de companhias: aquelas que correm riscos para tentar precipitar as mudanças, as que "andam lateralmente" e as que fecham as portas e se comportam como sempre se comportaram. 

"É urgente que as empresas entendam que a forma que se atraia talentos até ontem não é mais a mesma forma que se vai atrair novos talentos para se compor a sua pluralidade", explicou. "Se deixarmos da forma natural, é claro que vai ser lento (o progresso). Mas tem um povo negro sedento (por mudanças)", disse. 

Na visão de Wilcher, é necessário usar todos os meios – sejam de organização de movimentos, de litígio na Justiça e de ações do governo – para avançar a pauta. Ela afirmou que é comum encontrar resistência quando há progresso e citou o fato de que muitas universidades americanas questionaram juridicamente a implementação de ações afirmativas no ensino superior. "Vimos, inclusive, decretos presidenciais que impediam programas de diversidade", mencionou, sobre a gestão do ex-presidente americano Donald Trump.

A especialista também aventou a possibilidade de as mudanças demográficas dos EUA estarem por trás de algumas das atividades violentas recentes de supremacistas. "As pessoas têm medo de perder essa maioria", destacou.

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