REUTERS/Peter Nicholls
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O futuro de Corbyn

Ex-comunista, sectário, líder dos trabalhistas não esconde seu desagrado com a política de Israel

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2018 | 05h00

A seis meses da saída da Grã-Bretanha da União Europeia, marcada para março de 2019, era caso de pensar que o Partido Trabalhista, na oposição, usaria sua energia e talento imaginando o que vai ocorrer após esse salto para o desconhecido. Absolutamente. O assunto que inflama o partido no momento é este: “Podemos ser amigos dos judeus e, ao mesmo tempo, inimigos do Estado de Israel?”. 

O ex-diretor do Conselho de Segurança israelense Shany Mor resumiu bruscamente a questão: “Hoje, existem políticos que adoram judeus, mas detestam Israel. E vice-versa.”

Foi o líder dos trabalhistas, Jeremy Corbyn, que levantou o assunto e insuflou o debate. Ex-comunista, sectário, Corbyn jamais escondeu seu desagrado com a política agressiva de Israel, especialmente depois de Binyamin Netanyahu assumir a chefia do governo. Ele não teme provocação. Mulheres judias que pertencem ao Partido Trabalhista se queixam de que os amigos de Corbyn as importunam. 

“Corbyn é um antissemita virulento”, disse Margaret Hodges. Os que o apoiam respondem: “Não temos mais o direito de criticar as escolhas de Israel. Isso é censura!”

Os pró-israelenses afirmam que o ódio a Israel está no gene de Corbyn. Ele não hesita em cortejar os revisionistas e só reconheceu em 2016 “o direito de existência de Israel, segundo as fronteiras originais do acordo de 1948” – fazendo referência ao plano de divisão proposto pela ONU e rejeitado pelos países árabes. 

Uma revelação galvanizou os oponentes de Corbyn. O tabloide britânico Daily Mail publicou fotos dele na Tunísia, em 2014, depositando uma coroa de flores em memória do comando palestino Setembro Negro, que assassinou atletas israelenses durante os Jogos de Munique, em 1972. Netanyahu exigiu a condenação de “Corbyn por prestar honras aos autores do massacre e comparar Israel aos nazistas”.

Corbyn reagiu. Evocou a repressão israelense da “marcha do retorno a Gaza”, que provocou a morte de 170 pessoas. Os israelenses se exaltaram: Mor, ex-diretor do Conselho de Segurança de Israel, revidou: “Desde os anos 70, ele se insere no grupo dos oponentes obcecados de Israel que vão além da simples crítica política para demonizar o Estado hebreu como um ‘mal supremo’. E essa ideologia conspiratória se desenvolve quando essa esquerda está às portas o poder num país diplomaticamente muito importante.”

Os defensores de Corbyn lançaram dias atrás um novo argumento, observando que o premiê húngaro, Viktor Orban, às vezes, tem se referido de maneira indigna aos judeus, mas Jerusalém não reage às suas infâmias. “Hoje na Europa há políticos que supostamente amam os judeus e detestam Israel. E outros que não gostam dos judeus, mas veneram Israel.”

O editorialista do jornal Haaretz resumiu a questão em termos menos delicados: “Orban é um antissemita maligno. Corbyn é um antissemita idiota”. Essa polêmica ocorre em um momento ruidoso na Grã-Bretanha, em parte em razão da personalidade curiosa de Corbyn, que a cada dia é bombardeado pelos líderes trabalhistas, como Tony Blair. A questão levantada por essas disputas é grave. “É proibido criticar Israel em razão do horror infinito que foi o Holocausto?

No momento, os demais países da Europa estão ocupados com outros casos urgentes: a dispersão acelerada da União Europeia, o sofrimento dos imigrantes rejeitados pela Itália, o avanço irreversível dos populistas de extrema direita.

Certamente, essas últimas batalhas ensurdecedoras, mais uma fissura entre sionistas pró-judeus e os que rejeitam o Estado de Israel e até negam sua existência podem levar, um dia ou outro, a uma deflagração. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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