Imagem Mac Margolis
Colunista
Mac Margolis
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O futuro de Honduras

Em espanhol, Xiomara significa guerreira. Em grego, soa ainda mais imponente: deusa do fogo. Já em Honduras, é sinônimo de encrenca. Xiomara Castro é a mulher e pretensa herdeira política do ex-presidente Manuel Zelaya, outrora político conservador que se converteu à cartilha de Hugo Chávez, tentou prolongar sua estadia no palácio presidencial e comprou briga com o Congresso, a Justiça e o Exército. Derrubado em 2009, Zelaya foi posto para fora do país de pijama, mas voltou na surdina de chapéu Stetson e retomou o brado bolivariano com anuência do governo brasileiro, cuja embaixada em Tegucigalpa virou refúgio de seus seguidores.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

26 Maio 2013 | 02h07

Criador de cavalos, Zelaya jamais se conformou com um só mandato presidencial e hoje aposta na sua esposa para as eleições de novembro. Xiomara, a guerreira, não negou fogo. Como ele, ostenta um vistoso chapéu de vaqueiro e um discurso abrasado. Espinafra as elites hondurenhas, canta as benesses do socialismo e promete convocar uma Assembleia Constituinte para reformar o Judiciário e alinhar Carta hondurenha pelo manequim chavista.

Para imagina uma distensão política nesse tempestivo pedaço do istmo centro-americano, melhor tirar o cavalo da chuva. Rico, falastrão e polêmico, Zelaya foi eleito em 2006 pelo tradicional Partido Liberal. Afeiçoou-se ao posto e quis repetir a dose. Esbarrou na Constituição que veta a reeleição, como também encerra o mandato de quem teime em mudar a lei para ficar no poder. Parece exagerado, mas talvez faça sentido para um país como Honduras, com democracia em obras e uma larga história de caudilhos.

Zelaya ignorou a proibição e organizou um plebiscito popular para avalizar sua ambição. Ganhou a bênção de José Miguel Insulza, presidente da OEA, que mandou até uma equipe para ajudar organizar o referendo inconstitucional. A reação foi imediata. A maioria do Congresso e o Supremo Tribunal ordenaram a destituição de Zelaya. Só pularam a parte da legítima defesa, pois a Carta não contempla o procedimento de impeachment.

Zelaya foi arrancado da cama e enviado às pressas para Costa Rica. A manobra malandra provocou gritaria continental e a suspensão de Honduras da OEA, que só readmitiu o país em 2011. Com escolta de um tal de Nicolás Maduro, então chanceler da Venezuela, Zelaya voltou escondido ao país e, de seu bunker brasileiro, agitou seus seguidores.

No acordo costurado depois, Zelaya ganhou a liberdade e os hondurenhos, novas eleições. Venceu o candidato anti-Zelaya Porfirio Lobo. Agora, o ex-presidente promete dar o troco. Com ele, Honduras está de volta ao futuro.

Logo após a saída de Zelaya, o país viveu um momento de catarse. O alívio passou e hoje Honduras se aproxima do inferno. Com 81,2 homicídios para cada 100 mil habitantes, é o país mais violento do mundo. A economia também piorou, com o déficit público beirando 6% do PIB. As liberdades encolheram: 15 jornalistas foram assassinados desde 2009. Contrariado pelo Supremo, Lobo removeu quatro juízes.

Hoje, um terço dos hondurenhos reprova as instituições nacionais e não apoia a democracia. O retorno da marca Zelaya garante o continuísmo. É o caudilhismo casado, jogada aprimorada na Argentina, o drible perfeito com o qual os populistas passam a perna na lei para perpetuar-se no poder. Juan Perón e Evita. Nestor e Cristina Kirchner. Zelaya e Xiomara.

MAC MARGOLIS, É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.