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O futuro de Trump

Ele poderia sair dessa doença com uma mudança de atitude, mas é mais certo que use sua cura para dizer que estava certo

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2020 | 22h01

Donald Trump testou positivo para a covid-19 e entrou em quarentena na sexta-feira. O impacto disso sobre a corrida presidencial depende de dois fatores: a evolução do quadro do presidente e as percepções dos indecisos a respeito da pandemia e das atitudes de Trump em relação a ela.

De acordo com as primeiras informações da Casa Branca, Trump tinha sintomas leves e continuaria governando. Se isso ocorrer, ele seguirá em campanha pelo Twitter e por plataformas de vídeo, incluindo comícios remotos.

A convenção republicana, de 24 a 27 de agosto, foi em grande parte virtual, e muito bem conduzida. Entretanto, Trump fez questão de fazer seu discurso de aceitação presencialmente, para uma audiência de cerca de 1,5 mil pessoas, no recém-restaurado Jardim das Rosas da Casa Branca.

Ao longo da campanha, o presidente tem realizado eventos presenciais, para demonstrar que é mais capaz de reunir seguidores, mais saudável e viril do que seu adversário, Joe Biden.

Trump declarou, no dia 3 de abril: “De certa forma, sentado no Salão Oval, atrás daquela bonita Mesa da Resolução com presidentes, primeiros-ministros, ditadores, reis e rainhas – não sei, de certa forma não é para mim”. No imaginário de Trump e de parte de seus seguidores, o poder está associado à invulnerabilidade. É isso que o teste positivo pode desfazer. Se seguir as regras das autoridades de saúde de seu governo, ele ficará metade do que resta da campanha – as eleições são dia 3 de novembro – confinado.

Claro que não se pode subestimar a capacidade do presidente de modificar suas narrativas – e de seus seguidores, de assimilar essas mudanças. Até aqui, a percepção de eleitores de Trump era de exagero na forma como a mídia e os democratas retratavam a ameaça da covid-19, com intuito de paralisar a economia e sabotar a reeleição do presidente. 

Entre os mais velhos, havia uma visão fatalista, de que todos teremos de morrer um dia. Os mais jovens tendiam a exaltar sua displicência, em praias, balneários e bares como prova de coragem e alegria de viver. Muitos diziam: “Se o presidente não usa máscaras e não faz distanciamento social, por que eu o faria?” Segundo pesquisa do Pew Research Center, realizada entre 27 de julho e 2 de agosto, 87% dos eleitores democratas e independentes com inclinação democrata consideravam a resposta dos EUA à pandemia menos efetiva do que outros países ricos. Já entre os republicanos e os independentes de tendência republicana, 22% achavam mais efetiva, 42%, igualmente efetiva, e 34%, menos efetiva.

É sobre esses 34% que a quarentena de Trump pode ter impacto maior. Nessa amostra, 28% eram republicanos e 17%, independentes de inclinação republicana, somando 45%. Portanto, o grupo potencialmente mais suscetível a se descontentar com o presidente pela resposta à pandemia representaria 15% do eleitorado (34% de 45%). Biden supera Trump nas pesquisas nacionais por 8 pontos porcentuais.

Para se reeleger, Trump precisa repetir as vitórias de 2016 na Flórida, Arizona, Wisconsin, Pensilvânia e Carolina do Norte, que oscilam a cada eleição. Em todos eles, a curva de casos novos de covid estava subindo quando o Instituto Ipsos realizou sua última pesquisa estadual, entre 11 e 16 de setembro. Ela mostrou que o tema não pesava decisivamente contra o presidente entre seus eleitores nesses Estados.

Trump poderia sair dessa doença com uma mudança de atitude, como fizeram o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, e o ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, dois líderes de perfil semelhante ao dele, advertindo que o vírus é perigoso e recomenda cuidados. Mas esse seria um novo Trump. O mais provável é que, se seu quadro continuar favorável, ele use a doença para dizer que estava certo. Seus eleitores vão adorar.

É COLUNISTA DO ESTADÃO E ANALISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS 

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