O futuro do bolivarianismo

Quando os venezuelanos forem às urnas, levarão por tabela os olhares de boa parte da região. Claro, parte do fascínio é o comovente enredo nacional. Se vencer mais esse pleito, como apontam boa parte das pesquisas, Hugo Chávez pode prorrogar a validade do socialismo do século 21, logomarca que fundou e consolidou durante os últimos 14 anos. Se prevalecer seu rival, será um feito histórico, trunfo não apenas para o jovem governador Henrique Capriles, mas para toda a oposição nacional, que engavetou décadas de picuinha e ranço partidário para repactuar o país.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2012 | 03h08

Só que o pleito na Venezuela tem tudo para ressoar muito além da República Bolivariana. Mais do que o próximo presidente, os 19 milhões de eleitores registrados terão em suas mãos a sorte do experimento mais falado da política latino-americana do último meio século.

Queira ou não, a revolução de Hugo Chávez deixou sua pegada. Converteu em franquia sua mistura de bondades regadas a petróleo, democracia de cabresto, a economia cada vez mais centralizada e o forte marketing anti-ianque. Ganhou acólitos em oito palácios da América Central, do Sul e no Caribe. Conseguiu transformar a Venezuela em estrela-guia para a guerrilha festiva de Hollywood, oferecendo aos companheiros Sean Penn, Danny Glover e Oliver Stone uma Disney cor-de-rosa. Com injeções de petróleo, deu sobrevida à geritocracia de Cuba.

Agora, tudo isto está em jogo e, mesmo ganhando, o futuro da marca bolivariana é incerto. O socialismo do século 21 nasceu de uma conjuntura fortuita e provavelmente passageira. Foi a combinação de uma súbita bonança econômica (petróleo), um vilão hiperdimensionado (George W. Bush) e o surgimento de um salvador da pátria desconhecido e com lábia dourada (Chávez).

Dessa forma, segundo Moisés Naim, jornalista e ex-ministro de Comércio, Chávez ganhou "um cheque em branco" para revirar a política nacional e ainda a indulgência da diplomacia europeia, que dizia que o bolivariano era um bufão, mas vibrava secretamente com seus golpes contra o caubói do império gringo.

Mas o mundo mudou. O demônio foi substituído por Barack Obama, com outra aura e simpatia global. Chávez ainda ataca o americano, mas perdeu sua plateia. O preço do petróleo continua em alta e ainda rega os cofres chavistas, mas a receita é minguante, graças ao aparelhamento da petroleira PDVSA, que pauperizou a indústria e fez despencar a produção. A própria estatal admite ter postergado duas vezes a revisão obrigatória da refinaria de Amuay, onde uma explosão em agosto deixou 39 mortos.

Hoje, a ousada experiência socialista lembra mais o populismo autoritário do que a antiga. Os pobres que ganharam casa própria, medicamentos de graça e bolsa família perderam com a inflação e a taxa de homicídio - uma das mais altas do mundo. O próximo presidente governará um país perplexo, inseguro e historicamente dividido.

Caráter. Finalmente, há o fator humano. Chávez, com 58 anos, luta para superar o câncer que - apesar de seus desmentidos e dos retoques do seu marqueteiro, o petista João Santana - o deixou visivelmente abalado, uma sombra do comandante efusivo de campanhas passadas.

A tragédia pessoal ganha contornos torpes pela megalomania chavista. Para perpetuar a revolução bolivariana, há de criar condições. Instituições fortes, regras estáveis e linha sucessória. Jamais houve isso na Venezuela de Chávez. Absolutista, ele nunca indicou sucessor e tratou de esmagar quem despontasse como seu herdeiro. Plantou intrigas para manter dividida a corte. Distribuiu benesses para comprar lealdade, mas também para impedir traições, criando uma boligarquia de rabo preso.

Sistematicamente, esvaziou as instituições nacionais, loteando tribunais, encampando a mídia, politizando a PDVSA, que nada fazem sem o aval nem o roteiro dele. "É o Inti Rei, imperador-sol", como diz um analista político venezuelano. "Chávez não ouve conselhos de reles mortais."

O dilema é de porte continental. A Nossa América (Alba) é o bolivarianismo para exportação. Uma fotocópia em escala menor da experiência chavista A receita replicou-se na Bolívia, no Equador, na Nicarágua e, de certa forma, também na Argentina. Caudilhos com pinta de redentores imitam Chávez na intimidação dos adversários, no mercado tutelado e no bate-estaca do antiamericanismo.

Condomínio. Só que no arquipélago da Alba, o modelo também sofre desgaste, embora em graus distintos. Enquanto Cristina Kirchner, na Argentina, e o boliviano Evo Morales viram desabar seus índices de aprovação, Rafael Correa segue popular e confiante na sua reeleição.

Sócios menores do projeto chavista, esses países também sentem o declínio na matriz. Pobres e endividados, acostumaram-se com a generosidade de Caracas, o bolsa-petróleo e a rolagem companheira das dívidas que o mercado não aceita. Amanhã, Papai Noel ainda será bolivariano?

Henrique Capriles não deixa dúvidas. Em seu último vídeo de campanha, lançou um apelo simples aos eleitores. "O futuro já começou." Capriles pode não ganhar e, mesmo que ganhe, pode não levar, mas seu recado é claro. Ninguém tem o monopólio do século 21.

*É COLUNISTA DO 'ESTADO', CORRESPONDENTE DA 'NEWSWEEK', EDITA O SITE BRAZILINFOCUS.COM

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