O gênio de Jobs

Fundador da Apple tinha capacidade intuitiva característica de personalidades geniais como a de Einstein e Franklin

É AUTOR DE STEVE JOBS: UMA BIOGRAFIA, WALTER, ISAACSON , THE NEW YORK TIMES, É AUTOR DE STEVE JOBS: UMA BIOGRAFIA, WALTER, ISAACSON , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2011 | 03h04

Uma das questões que me surgiram quando estava escrevendo sobre Steve Jobs foi a da sua inteligência. Na superfície, isso não deveria ser um grande problema. Era só assumir a resposta óbvia: ele era realmente, muito realmente, inteligente. Talvez merecedor até de três ou quatro "realmentes". Afinal, ele foi o líder empresarial mais inovador e bem-sucedido de nossa era e personificou em grande estilo o sonho do Vale do Silício: criou um embrião de empresa na garagem de seus pais e o transformou na companhia mais valiosa do mundo.

Lembro-me de ter jantado com ele alguns meses atrás em torno de sua mesa de cozinha, como ele fazia quase todas as noites com a mulher e os filhos. Alguém trouxe um daqueles quebra-cabeças envolvendo um macaco tendo de cruzar uma carga de bananas por um deserto - com um conjunto de restrições sobre até onde e quantas bananas ele poderia carregar de cada vez - e a pessoa tinha de imaginar quanto tempo aquilo levaria. Jobs fez algumas suposições intuitivas, mas não mostrou interesse em atacar o problema com rigor. Pensei em como Bill Gates teria escarafunchado o problema e logicamente cravado uma resposta em 15 segundos. E também em como Gates devorava livros de ciência como uma diversão de férias. Mas me ocorreu também outra coisa: Gates não criou o iPod, criou o Zune.

Jobs era inteligente? Não de modo convencional. Ele era, melhor dizendo, um gênio. Isso pode parecer um estúpido jogo de palavras, mas seu sucesso sublinha de fato uma interessante distinção entre inteligência e gênio. Seus voos imaginativos eram instintivos, inesperados, e, às vezes, mágicos. Eles eram movidos pela intuição, não pelo rigor analítico. Instruído no zen-budismo, Jobs privilegiou a sabedoria experimental em relação à análise empírica. Não estudava dados nem destrinchava números, mas, como um desbravador, podia farejar os ventos e sentir o que havia adiante.

Ele me contou que começou a apreciar o poder da intuição, em contraste com o que chamava de "pensamento racional ocidental", quando perambulou pela Índia depois de largar a faculdade. "As pessoas na zona rural indiana não usam seu intelecto como nós", ele dizia. "Elas usam antes sua intuição. A intuição é algo muito poderoso, mais poderoso que o intelecto. Isso teve um grande impacto no meu trabalho." A intuição de Jobs tinha como base não o aprendizado convencional, mas a sabedoria experimental. Ele também tinha muita imaginação e sabia como aplicá-la. Como disse Einstein, "a imaginação é mais importante que o conhecimento".

Einstein é, evidentemente, o verdadeiro exemplo de gênio. Ele teve contemporâneos que provavelmente poderiam se equiparar a ele em puro poder intelectual no tocante a procedimentos analíticos e matemáticos. Henri Poincaré, por exemplo, foi o primeiro a apresentar alguns componentes da relatividade especial e David Hilbert conseguiu formular equações para a relatividade na mesma época que Einstein. Mas nenhum deles, exceto Einstein, teve o gênio imaginativo para dar o salto criativo completo para o centro de suas teorias. Tudo bem, não é tão simples assim, mas é por isso que ele era Einstein e nós não.

Einstein tinha as qualidades do gênio, que incluíam aquela intuição e imaginação que lhe permitiam pensar de maneira diferente (como os comerciais de Jobs, "pensar diferente"). Embora não fosse religioso, Einstein descreveu seu gênio intuitivo como a capacidade de ler a mente de Deus. Quando avaliava uma teoria, ele se perguntava se seria assim que Deus planejaria o universo. E manifestou seu desconforto com a mecânica quântica - que tinha base na ideia de que a probabilidade joga um papel dominante no universo - ao declarar que não podia acreditar que Deus jogasse dados. Num congresso de Física, Niels Bohr insistiu para que Einstein parasse de "dizer a Deus o que fazer".

Visual. Tanto Einstein como Jobs eram pensadores muito visuais. O caminho para a relatividade começou quando o adolescente Einstein tentava imaginar como seria cavalgar um raio de luz. Jobs passava quase todas as tardes andando pelo estúdio de seu brilhante chefe de design Jony Ive e manuseando modelos de espuma dos produtos que estavam desenvolvendo. O gênio de Jobs não era, como até seus fãs admitem, da mesma órbita quântica que o de Einstein. Assim, provavelmente é melhor conter um pouco a retórica e chamá-lo de engenhosidade. Bill Gates é superinteligente, mas Steve Jobs era superengenhoso. A principal distinção, assim creio, é a capacidade de aplicar criatividade e sensibilidade estética a um desafio.

Num mundo de invenção e inovação, isso significa combinar uma avaliação das humanidades com uma compreensão da ciência - conectando arte e tecnologia, poesia e processadores. Era essa a especialidade de Jobs. "Sempre pensei em mim como alguém das humanidades quando garoto, mas eu gostava de eletrônica", disse ele. "Aí eu li uma coisa que um de meus heróis, Edwin Land, da Polaroid, disse sobre a importância de pessoas que podiam ficar na interseção de humanidades e ciências. E decidi que era isso que eu gostaria de fazer."

A capacidade de fundir criatividade com tecnologia depende da capacidade da pessoa de estar emocionalmente afinada com outras. Jobs podia ser petulante e rude no trato com outras pessoas, o que levou alguns a pensar que lhe faltava a consciência emocional básica. Na verdade, era o oposto. Ele sabia avaliar as pessoas, compreender seus pensamentos íntimos, adulá-las, intimidá-las, identificar suas mais profundas vulnerabilidades. Sabia, intuitivamente, criar produtos de sucesso, interfaces de uso instintivo e mensagens sedutoras de marketing.

Novas ideias são apenas parte da equação. O gênio requer execução. Enquanto outros produziram computadores em forma de caixa com interfaces intimidadoras e prompts complicados dizendo coisas como "C:", Jobs percebeu que havia um mercado para uma interface como um quarto de brincar ensolarado. E surgiu o Macintosh. Certo, a Xerox deu início ao desktop gráfico, mas o computador pessoal que ela criou foi um fiasco. De certa maneira, a engenhosidade de Jobs lembra a de Benjamin Franklin, um de meus outros objetos biográficos. Franklin não era o pensador mais profundo - essa distinção vai para Jefferson, Madison, ou Hamilton. Mas ele era engenhoso.

Isso dependia, em parte, de sua capacidade de intuir as relações entre coisas diferentes. Quando inventou a bateria, produziu faíscas que ele e amigos usaram para matar um peru. Em seu diário, registrou as semelhanças entre as faíscas e os raios durante tempestades. Aí ele empinou um papagaio na chuva, atraiu eletricidade do céu e acabou inventando o para-raios. Como Jobs, Franklin gostava do conceito de criatividade aplicada - pegar ideias inteligentes e planos sagazes e aplicá-los a dispositivos úteis.

A China e a Índia provavelmente produzem muitos pensadores analíticos rigorosos e tecnólogos versados. Mas pessoas inteligentes e educadas nem sempre produzem inovação. A vantagem dos EUA, se quiserem continuar tendo alguma, estará na capacidade de produzir pessoas que sejam também mais criativas e imaginativas, aquelas que sabem ficar na interseção das humanidades e das ciências. Essa é a fórmula da verdadeira inovação, como a carreira de Steve Jobs mostrou. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK. PUBLICADO COM A AUTORIZAÇÃO DO AUTOR

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