O gestor de crises externas de Obama

Tom Donilon é quem acorda o presidente quando um embaixador é morto na Líbia, tenta impedir Israel de cortar relações e mantém o Egito nos trilhos

Peter Baker, The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2012 | 03h07

NOVA YORK - Quando o presidente Barack Obama voou para Nova York na segunda-feira para a Assembleia-Geral das Nações Unidas, ele dispensou a bateria habitual de reuniões particulares com líderes mundiais para gravar uma aparição no "The View" (um conhecido talk show vespertino da rede ABC) e voltar no meio da semana a um dos Estados eleitoralmente indefinidos, Ohio. Tom Donilon foi deixado para acalmar os ânimos.

De terno cinza, meticuloso e pouco conhecido do público, Donilon é o consultor de segurança nacional do presidente e uma figura central na política externa americana, "a pessoa mais importante do mix", segundo o vice-presidente Joe Biden. Nesta temporada crítica de campanha, ele se tornou também o guarda-costas geopolítico do presidente, encarregado de manter o mundo em espera por mais 43 dias.

Donilon é aquele que acorda o presidente quando um embaixador é morto na Líbia, que tenta impedir Israel de cortar relações e o Egito de sair dos trilhos. Soluções para problemas intratáveis como o programa nuclear do Irã são para outro dia. Por enquanto, a missão de Donilon é gerir problemas e impedir que eles se agravem, para Obama poder se concentrar em Mitt Romney e não em Binyamin Netanyahu.

Mas o mundo não tem cooperado com o calendário político americano, como atestam os tumultos nos países muçulmanos. Soldados afegãos continuam matando soldados americanos. A Síria continua massacrando seu povo. China e Japão continuam trocando farpas.

O Irã segue desafiando o Ocidente. E a conta vencerá em novembro, quando Obama enfrentará uma lista assustadora de desafios que as semanas finais da campanha presidencial aparentemente colocaram em banho-maria.

Se alguém pode gerir tudo isso, dizem colegas, é Donilon. "Tom pode manter 10 coisas importantes na cabeça ao mesmo tempo enquanto faz malabarismo com outras, tentando evitar que alguma se espatife no chão", disse a secretária de Estado Hillary Clinton. Jacob Lew, o chefe de gabinete da Casa Branca, afirmou que Donilon "cuida para vermos como todas as questões se conectam".

Biden, cuja mulher, Jill, emprega a mulher de Donilon, Cathy Russell, como sua chefe de gabinete, disse que Donilon é uma correia de transmissão de Obama. "Em certo sentido, ele pensa como o presidente", disse Biden. "Tom sabe onde o presidente quer chegar. Tom sabe quando o presidente quer ir para a esquerda, para a direita, para cima ou para baixo." Um veterano agente político, Donilon metodicamente se reinventou como um maestro dos assuntos internacionais, consolidando o controle do aparato de segurança nacional num escritório de canto da Ala Oeste repleto de livros de informes confidenciais grossos como punhos. Ele supervisionou o apoio à guerra na Líbia que derrubou o coronel Muamar Kadafi e a operação que matou Osama bin Laden. Ele cuidou para que os soldados enviados como reforço saíssem do Afeganistão dentro do cronograma. Ele é um defensor do chamado "pivô" de Obama para a Ásia.

Mas Donilon não escapou às controvérsias. Colegas falam de choques com o Pentágono e o Departamento de Estado e acessos de fúria que deveriam durar 30 segundos, mas se estenderam por 10 minutos. Os republicanos suspeitam que ele orquestre vazamentos de segurança nacional para fazer Obama parecer bem, "o que um porta-voz chama de 'absolutamente falso'".

E alguns especialistas em política externa o consideram um impostor, sem uma visão concreta. "Ele é ferozmente protetor das prioridades do presidente", o que é parte do seu trabalho, disse Kori Schake, que trabalhou na equipe de segurança nacional do presidente George W. Bush, "mas critica abertamente o lado dos interesses políticos do presidente quando eles vão contra nossos interesses nacionais". Ela citou o cronograma imposto ao reforço das tropas no Afeganistão, uma medida que aplacou a esquerda contrária à guerra, mas foi criticada como prematura.

Donilon, 57 anos, que ultimamente tem evitado jornalistas em meio a investigações de vazamento e não quis ser entrevistado para esse artigo, é um improvável especialista em política externa. Ele cresceu em Providence, Rhode Island, estudou na Catholic University, depois ganhou um estágio e mais tarde um emprego na Casa Branca de Jimmy Carter. Em 1980, ele encorajou delegados à convenção para derrotar Edward Kennedy.

Após a derrota de Carter, Donilon estudou Direito na Universidade de Virgínia e trabalhou em campanhas, incluindo a campanha presidencial de 1988 de Biden. Quando Bill Clinton venceu, em 1992, um mentor seu da era Carter, Warren Christopher, tornou-se secretário de Estado e alçou Donilon à chefia de seu gabinete.

Durante seis anos ele trabalhou como executivo na Fannie Mae, a gigante do crédito imobiliário que esteve no centro do crash econômico de 2008 depois que ele saiu. Donilon, que ganhou milhões, não esteve ligado aos problemas da Fannie Mae com irregularidades contábeis, mas era parte de uma gestão que fez lobby no Congresso contra uma regulamentação mais dura.

Donilon foi atraído para a órbita de Obama no fim de 2008 para ajudar a prepará-lo para seus debates na campanha de eleição geral. Após a eleição, Rahm Emanuel, um amigo do governo Clinton que foi escolhido para chefiar o gabinete de Obama, cuidou para que ele se tornasse vice do general James Jones, o novo consultor de segurança nacional.

Jones concentrou-se em reuniões de alta visibilidade com embaixadores e chanceleres, deixando a Donilon a tarefa de fazer os informes ao presidente e presidir o Conselho de Segurança Nacional. Era frequente Emanuel contornar Jones para trabalhar diretamente com Donilon. "Tom e Rahm estavam tomando decisões", disse um ex-funcionário da Casa Branca. "Houve momentos em que ele (Jones) provavelmente se sentiu deslocado", disse o funcionário, mas Donilon "nunca quis prejudicar a imagem do general".

Donilon fez inimigos no Pentágono durante o debate sobre o envio de reforços ao Afeganistão.

Ele suspeitava que os militares estavam tentando manipular o novo presidente. Os militares suspeitavam que Donilon, que nunca havia servido de uniforme nem estado no Afeganistão, estivesse substituindo política por estratégia.

Donilon desentendeu-se com autoridades como Michèle Flournoy, então subsecretária de Defesa. "Ela realmente tomou uma surra de Donilon", disse um colega. Robert Gates, então secretário de Defesa, advertiu que fazer de Donilon consultor de segurança nacional seria "um desastre", segundo um livro de Bob Woodward.

Donilon visitou o Afeganistão depois disso, e colegas disseram que ele forjou relações melhores com os militares. "Não é incomum, especialmente para um novo governo que toma posse, ter a sensação de que os militares poderiam tentar enquadrá-lo numa posição política e acredito que Tom tinha o que eu chamaria de uma natureza um tanto questionadora - será que estamos recebendo as informações verdadeiras?", disse o secretário de Defesa Leon Panetta, que sucedeu a Gates. "Com o tempo e algumas mudanças feitas na cúpula militar, o processo se tornou muito mais cooperativo." Emanuel tentou alistar Donilon para suceder a ele como chefe de gabinete, mas era a Jones que Donilon esperava suceder. Obama, impressionado com a competência meticulosa de Donilon, cedeu.

"Não era uma coisa que ele tinha que aprender", disse o senador Jack Reed, de Rhode Island, que foi colega de Donilon no ensino médio. "Ele esteve se preparando para um papel como esse por várias décadas." Donilon corrigiu uma operação vista como disfuncional. Ele é um "evangelista do processo", opinou um assessor, convocando reunião após reunião para assegurar que todos sejam ouvidos. Suas preparações e ética do trabalho são lendárias.

"A noção de 24/7 (24 horas por dia, sete dias por semana) -, ele dá um novo significado a ela", disse Dennis Ross, um ex-enviado especial. Certa vez, ele foi tão exigente na escolha de uma camiseta de basquete para seu filho, recordou Tommy Victor, seu assessor de imprensa, "que parecia uma reunião de chefes".

Obama o criticou por nunca tirar tempo de folga e o desafiou a perder 23 quilos. Mas ele continua sendo um "estraga prazer". "Ele tem muito com que se preocupar", disse Hillary Clinton. "Ele se preocupa profundamente em fazer a coisa certa." Donilon tem uma relação complicada com Clinton. Colegas disseram que ele parece temê-la e raramente compete com ela. É inseguro sobre ela,tendo perguntado antes de uma viagem recente à China se as suas reuniões eram equivalentes às dela.

Clinton desconsiderou a existência de tensões e esbanjou elogios - "incrivelmente inteligente" e "extraordinariamente eficiente", disse ela. "Tenho uma ótima relação com ele. Nós nem sempre concordamos, é claro. Eu trago minha própria perspectiva e experiência à mesa. Mas ele é de fato um mediador honesto." Donilon tem como modelo James Baker III, outro delegado polemista que virou estadista em política externa.

Quando um assessor disse no meio de brincadeira que Washington ainda via Donilon como um agente político, ele respondeu amargamente, "Quatorze anos em política externa e eu sou um sujeito político. Ok. Eu dirijo o Departamento de Estado, mas tudo bem, Baker também se queixou disso." Para Donilon, a política é, em grande parte, uma coisa do passado.

"Ele dedicou uma quantidade incrível de tempo e energia ao longo de duas décadas para se transformar de agente político em player político", disse Benjamin Rhodes, um vice, "e isso se reflete em tudo que ele faz". / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK * É COLUNISTA

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