O golpe no Egito é justificável?

Não Quando Mohamed Morsi tornou-se o primeiro presidente eleito do Egito, sua vitória foi particularmente doce para a Irmandade Muçulmana, o mais antigo e mais influente movimento islamista da região. Depois de um passado de repressão, a Irmandade saboreava triunfo. No entanto, seu governo foi de curta duração.

SHADI HAMID É PESQUISADOR DO BROOKINGS DOHA CENTER, ESCREVEU PARA O NEW YORK TIMES, DAVID BROOKS É COLUNISTA DO NEW YORK TIMES, SHADI HAMID É PESQUISADOR DO BROOKINGS DOHA CENTER, ESCREVEU PARA O NEW YORK TIMES, DAVID BROOKS É COLUNISTA DO NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2013 | 02h07

A recente derrota da Irmandade terá profundas implicações no futuro do Islã político e reverberará perigosamente. Um importante desdobramento, nos últimos anos, foi a decisão dos partidos islâmicos de fazer as pazes com a democracia e de se comprometer com as regras do jogo político. Os líderes aconselharam paciência. Seu grande momento chegaria, diziam.

Agora, os partidários da Irmandade se perguntarão, com toda razão, se a democracia ainda terá algo a lhes oferecer. A destituição de Morsi dará nova vida às reivindicações ideológicas dos radicais. A Al-Qaeda e seus seguidores há muito afirmam que não se pode implementar mudanças por meio da democracia dos "infiéis". A violência é o único caminho.

Os mentores intelectuais da Al-Qaeda surgiram nas décadas de 50 e 60, moldados pelos acontecimentos que guardam uma inquietante semelhança com os da semana passada. Em 1954, o Exército egípcio, apoiado pelo povo, confrontou a Irmandade, prendeu milhares de pessoas e desmantelou a organização. A prisão fez de Sayyid Qutb, importante ideólogo da Irmandade, um radical, que foi torturado por seus captores antes de ser executado, em 1966. Muitos seguidores de Qutb, mais tarde, deixaram a proteção da organização e seguiram um caminho próprio, criando grupos militantes que começaram a praticar atos terroristas.

Em 1954, ninguém poderia imaginar que a brutal repressão contra o movimento desencadearia uma sucessão de eventos de terríveis consequências para a região e para os EUA. Os recentes acontecimentos poderão ter implicações igualmente profundas. Nas horas que se seguiram à destituição de Morsi, os novos líderes militares suspenderam a Constituição, fecharam pelo menos três TVs islamistas e, o que é ainda mais perigoso, expediram mandados de prisão contra pelo menos 300 membros da Irmandade. Liberais de destaque pedem agora a "dissolução" da Irmandade e a realização de julgamentos.

Os EUA estão numa situação delicada. Depois do golpe, o presidente Barack Obama expressou sua "profunda preocupação" e evitou uma condenação explícita. O que mais perturba é o fato de ele ter pedido a restauração de "um governo eleito democraticamente" - e não "do governo eleito democraticamente". Quando conversei com um dos principais assessores de Morsi, na noite de 30 de junho, ele culpou de antemão os EUA. Se houver um golpe, ele afirmou, significará que ou os EUA o apoiam ou irão ignorá-lo.

Tudo no Egito ocorreu enquanto o mundo estava olhando - e 2013 permanecerá como um momento histórico na tradição islâmica, incorporado pelas futuras gerações de militantes e aprofundará seu discurso contundente de perseguição, repressão e lamentação. Os EUA são culpados por grande parte dessa situação.

Não há necessidade de acrescentar mais uma queixa à lista. Seria prudente que o governo Obama se distanciasse das ações do Exército egípcio e usasse sua influência, particularmente a promessa de assistência financeira, para pressionar os militares a respeitarem os direitos dos islamistas.

Se pretender limitar as consequências dos acontecimentos da semana passada, o novo governo do Egito deverá garantir que a Irmandade e seu Partido Liberdade e Justiça sejam incorporados ao processo político e possam concorrer - e vencer - as eleições parlamentares e presidenciais. De outro modo, a fé do partido islamista na democracia ficará irrevogavelmente abalada.

'

Sim O debate sobre o Egito tem se desenrolado entre os que enfatizam o processo e os que enfatizam a substância. Os que enfatizam o processo disseram que o presidente Mohamed Morsi foi eleito e seu respaldo democrático foi confirmado diversas vezes. Dizem que é importante proteger as frágeis instituições democráticas. A Irmandade Muçulmana pode chegar ao poder com crenças radicais, mas, uma vez ali, ela tem de se preocupar com classificações de crédito e a opinião popular. Governar a fará mais moderada.

Os que enfatizam a substância, por sua vez, argumentam que os membros da Irmandade são definidos por certas crenças. Eles rejeitam o pluralismo, a democracia secular e a modernidade. Quando se elegem fanáticos, não se alcança uma democracia avançada. O importante é retirar pessoas assim do poder, mesmo que seja preciso um golpe. A meta é enfraquecer o islamismo político.

Os acontecimentos dos últimos meses justificaram os que optaram pela substância. Ficou claro - no Egito, Turquia, Irã, Gaza e alhures - que islamistas radicais são incapazes de fazer um governo moderno. Muitos têm uma mentalidade absolutista. Eles têm um estranho fascínio por uma cultura da morte. "Morrer pelo amor a Deus é a mais sublime das coisas", declarou um orador num comício pró-Morsi, no Cairo.

Os islamistas podem ser suficientemente determinados para dirigir movimentos de oposição eficazes e comprometidos com a prestação de serviços sociais, mas lhes falta o equipamento mental para governar. Uma vez no cargo, eles sempre centralizam o poder e solapam a democracia. Nathan Brown defendeu essa posição sobre a Irmandade Muçulmana na revista New Republic. "A organização solidamente constituída para resistir ao autoritarismo evoluiu para um movimento voltado para dentro e até paranoico quando tentou se remodelar como partido governante."

Uma vez eleita, a Irmandade subverteu o Judiciário, reprimiu a sociedade civil, prendeu ativistas, perverteu o processo de elaboração da Constituição, concentrou poderes e tornou impossível a democracia. Não vale a pena lamentar a queda de Morsi, porque a incompetência está no DNA intelectual do islamismo radical. Vimos isso na Argélia, Irã, Palestina e Egito.

Os defensores da substância estão certos. Promover eleições é uma coisa boa, mesmo quando elas produzem vitórias de forças democráticas das quais discordamos. Mas eleições não são uma coisa boa quando alçam pessoas cujas crenças substantivas caem fora da órbita democrática. É preciso investigar o núcleo das crenças de um partido e não aceitar qualquer um que surja de um processo democrático.

O golpe militar pode trazer o Egito de volta ao ponto em que ele estava: um super-Estado inchado e disfuncional controlado por uma elite militar agindo em causa própria. Mas, pelo menos o islamismo radical, a principal ameaça à paz global, foi parcialmente desacreditado e removido do poder.

Os EUA não lidaram bem com a situação. Barack Obama mostrou uma deferência indevida a um processo democrático autofágico. A embaixadora no Cairo, Anne Paterson, fez o que embaixadores tendem a fazer: tentou construir relações com quem está no poder. Isso deu a impressão de que ela é subserviente à Irmandade, alienou as massas egípcias e mostrou que os EUA pareceram hostis ao movimento popular.

A verdade é que os EUA não têm a capacidade de influenciar os eventos políticos no Egito. O único ponto de influência real é no nível das ideias. Neste momento, há grandes populações no Oriente Médio que sentem uma raiva intensa e uma insatisfação geral com o status quo e não têm ideia de como melhorar as coisas. Os pensadores modernos, que poderiam orientá-las, foram encarcerados ou exilados. Não é que o Egito não tenha uma receita para a transição democrática. Ao que parece, faltam os ingredientes mentais básicos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.