O governo dá ao Tea Party sua maior vitória

Escândalo da receita federal dos EUA vira munição nas mãos de grupos conservadores, que acusam o Estado de ser obtuso, pesado e de persegui-los

É JORNALISTA, DAVID , WEIGEL, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, DAVID , WEIGEL, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2013 | 02h04

Tom Zawistowski viveu a clássica história das origens do Tea Party. Montou uma empresa, criou uma família. Em 2009, Barack Obama chegou à presidência e ele descobriu a política sentado no sofá de sua casa, em Ohio. "Eu e minha mulher éramos apolíticos", disse. Tom foi um dos fundadores do Tea Party local. "Viajávamos pelo país. Falamos com advogados, que nos disseram que teríamos de solicitar o registro de organização sem fins lucrativos para tornar o grupo uma entidade beneficente. Preenchemos os papéis para obter a isenção de impostos."

Assim começou a saga que tornaria a já desprezada receita federal dos EUA (IRS, na sigla em inglês) mais desprezada ainda. Tom foi um dos ativistas do Tea Party que solicitaram a isenção de impostos e receberam enormes questionários, com até 55 perguntas, sobre as atividades políticas do grupo. O questionário pedia provas de que não havia dívida com a receita. Dezenas de organizações com a palavra "patriota" ou "Tea Party" no nome foram submetidos ao mesmo tratamento. "Nós entramos em contato com eles em 2010", afirma. "A primeira resposta foi em 5 de janeiro de 2012." Toby Walker, que exerce a mesma função no Tea Party de Waco, Texas, diz que levou "de oito a dez meses" para responder a todas as perguntas.

Não há nada de chocante no fato de uma nova organização fazer o possível para obter isenção de impostos. O que choca é o tempo e a estranha preocupação do IRS com os movimentos conservadores. Organizadores de grupos menores do Tea Party - cujos parlamentares pressionaram o governo ontem no Congresso - falam de um processo de aprovação muito lento, durante a maior parte de 2010 e 2011, ao qual se seguiam cartas com umas 20 ou 30 perguntas. A existência delas foi mencionada na época por congressistas republicanos.

Por que esse fato não causou controvérsias na época? Os democratas já haviam falado abertamente sobre a necessidade de perseguir grupos políticos que conseguiam a isenção de impostos. Em 2010 e 2012, eles alertaram que esses grupos estavam guardando dinheiro de doadores secretos. A associação Americans for Prosperity, presidida e financiada por David Koch, conseguiu isenção em 2004 e continuou gastando dezenas de milhões de dólares em anúncios para a campanha.

Consequências. Nos seus relatórios anuais, não se tratava de dinheiro de campanha, mas de dinheiro gasto para "educar os cidadãos americanos sobre os efeitos de uma política econômica sólida para a economia e a estrutura social do país". A receita federal não investigou o grupo Americans for Prosperity. Segundo Ken Vogel e Tarini Parsi, do site Politico, nem mesmo entrou em contato com ele. No entanto, mandou as cartas para os grupos do Tea Party.

Se era uma estratégia, se o IRS estava atendendo aos apelos dos democratas para que coibisse a política sem fins lucrativos, talvez fosse para chegar aos figurões pegando a arraia miúda. A agência se sai muito melhor perseguindo figuras insignificantes que menosprezam as leis do que aqueles que podem ter os melhores advogados.

Talvez estivesse apenas seguindo o manual. O Tea Party de Richmond, em Virgínia, gastou pelo menos US$ 15 mil em honorários de advogados antes mesmo que o questionário gigante chegasse. "Em razão de todas as dificuldades do Tea Party de Richmond, outros grupos conservadores tomaram um caminho diferente", diz Jaime Radtke, que liderou o Tea Party de Richmond por alguns anos antes de deixar o movimento para se candidatar ao Senado.

"Imagine que as pessoas façam doações para um grupo que pode se tornar uma organização sem fins lucrativos. O que ocorre se não for aprovado? Seríamos obrigados a revelar os nomes dos doadores, que achavam que essa informação era confidencial? Teremos de pagar o dinheiro dos impostos?"

Perseguição. Na realidade, o Tea Party de Richmond passou no teste. E também o de Waco. Foram doces triunfos, mas que empalidecem diante da vitória que a receita federal acabou dando ao Tea Party: uma campanha de um ano inteiro para provar que ele estava certo a respeito do governo, que é obtuso, pesado e tem o único objetivo de persegui-lo.

"Quando o povo americano ler as perguntas que foram feitas a esses grupos defensores da liberdade, ficará escandalizado", diz Tom Zawaistowski. "Pensará imediatamente na União Soviética e na Alemanha nazista. Esses são os exemplos mais próximos. A situação é realmente terrível." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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