''O governo está determinado a ganhar, mesmo roubando''

Michel Martelly, cantor e candidato

, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2011 | 00h00

O relatório da Organização dos Estados Americanos (OEA) entregue ontem alça o candidato-celebridade do Haiti, o cantor Michel Martelly, de volta à corrida presidencial em detrimento do governista Jude Celestin. O presidente René Préval deve ainda anunciar se acatará a decisão, mas Martelly já se diz aliviado e provoca: "O governo está determinado a ganhar a eleição, mesmo que seja roubando".

Manifestações violentas após a divulgação dos resultados do primeiro turno foram atribuídas a seus partidários. O sr. teme uma escalada da violência?

Quando anunciaram o resultado do primeiro turno, houve uma imensa frustração em todo país. Votaram Martelly e tiveram seu voto roubado. O resultado não refletia a vontade da população. Diante disso todos foram às ruas. Eu fiz quatro apelos pela calma no país. O que vemos hoje são manifestações organizadas pelo Inite (partido de Celestin), que agora adota discurso de vítima.

Há provas disso?

Tenho informações de que um automóvel com dinheiro e armamento foi detido hoje pela manhã. Mas, em seguida, sob pressão do governo, foi liberado. Tem gente ligando para estações de rádio para dizer que foram pagas para protestar por Celestin. Nunca fizemos isso; nem sequer temos esse poder.

O sr. atribui a responsabilidade pelas dificuldades da eleição ao governo Préval?

O governo Préval teve conquistas reais. É o caso da liberdade de imprensa no Haiti, por exemplo. Precisamos reconhecer também a estabilidade geral do país, cenário muito diferente daquele de 2004 e 2005. Naquela época, disse que só Préval era capaz de estabelecer a ordem. E ele o fez. Mas, depois do terremoto, ele provou que é um mau administrador. Nenhuma casa foi construída para abrigar as vítimas. Apesar da epidemia de cólera, não vemos esforços reais para controlá-la. Não houve esforço do governo para refundar o país. O que houve foram lutas para emplacar o candidato de Préval, Celestin. Estão determinados a ganhar, mesmo que seja roubando. O governo está agora desfazendo a estabilidade que construiu.

Como o sr. vê a presença internacional, sobretudo da Minustah, diante desse cenário?

A Minustah está aqui para nos ajudar. Não temos um Exército e a qualquer momento pode haver caos no país. Mas o principal é que a Minustah deve ter uma agenda e ninguém quer que a missão fique aqui para sempre. A ONU quer, um dia, olhar para trás e ver que fez um trabalho positivo no Haiti.

Quem decidiria essa agenda?

O governo com a Minustah. Isso pode levar cinco ou dez anos, mas não podemos ficar reféns de um mecanismo de renovação da missão. Antes da saída das tropas internacionais, precisamos de uma força nacional capaz de fazer o trabalho delas.

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