'O governo Maduro sabe que está em fase terminal'

Principal opositora de Maduro afirma que está recebendo ameaças deministérios desde aprisão de prefeito

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2015 | 02h03

Uma das principais líderes da oposição venezuelana, María Corina Machado, diz que, desde a prisão do prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, na semana passada, ela e a família recebem ameaças de morte. Em entrevista exclusiva ao Estado, a ex-deputada pede a renúncia do presidente Nicolás Maduro e denuncia a repressão. Para ela, o governo sabe que "está em fase terminal".

Em conversa por telefone de sua casa em Caracas, a opositora também faz críticas ao governo da presidente Dilma Rousseff por não exigir garantias democráticas na Venezuela.

Nascida em 1967, María Corina fundou a ONG Súmate e foi recebida pelo ex-presidente americano George W. Bush no salão oval em 2005 como um sinal de seu papel como opositora ao governo do então presidente, Hugo Chávez. Em 2010, foi eleita deputada com o maior número de votos do país. Em março de 2014, seu mandato foi cassado e ela foi denunciada na Justiça por "conspiração" num suposto plano para matar Maduro.

Uma das líderes dos protestos de fevereiro de 2014 contra o governo, María Corina enviará nesta semana uma mensagem à Cúpula de Genebra para Direitos Humanos e Democracia com líderes de todo o mundo pedindo apoio internacional. A seguir, trechos da entrevista.

Qual é a situação depois da prisão do prefeito de Caracas?

A situação é muito crítica. O que ocorreu foi um golpe de Estado promovido de dentro do próprio Estado. Maduro está consciente da deterioração econômica, social e institucional que se acelera a cada hora que passa. A crise não é de alimentação. O que o mundo vê são os venezuelanos fazendo fila por horas para conseguir leite, remédio e farinha. Mas a situação é muito pior. Há o risco de uma crise humanitária na saúde e da imobilização do aparelho produtivo do país. Além disso, há uma falta de governabilidade cada vez maior. Isso tudo se agrava diante das denúncias contra funcionários de alto escalão do governo, que estariam ligados à máfia internacional e ao crime organizado. Tudo isso leva a Venezuela a uma situação altamente instável e o regime sabe que perdeu o respaldo popular.

O que a oposição pede diante da prisão do prefeito?

O que ocorreu com Ledezma é um atropelo descarado. Ele foi sequestrado em seu escritório sem uma ordem judicial. Homens fortemente armados arrebentaram a porta de seu escritório. Falei com ele minutos antes de o levarem. "Estão tentando derrubar a porta", dizia ele. Maduro alega que Ledezma foi preso porque eu e (o líder do partido Voluntad Popular) Leopoldo López assinamos um apelo à união do povo venezuelano pela reconstrução do país. Ratifico esse documento.

Muitos dizem que a senhora pode ser a próxima a ser presa.

O próprio Maduro disse que eu deveria ser perseguida e acusada pelos delitos que supostamente cometemos. As ameaças, desde então, são terríveis. Recebo mensagens de diferentes setores do regime, de pessoas de diferentes ministérios, acusando-me e alertando que vão me prender. A minha família também recebe mensagens dizendo que vão nos matar ou matar meus filhos. É algo indescritível. A polícia política me persegue, meus telefones são monitorados, meus e-mails lidos.

A sra. sentiu que a perseguição aumentou desde a prisão do prefeito de Caracas?

Piora a cada dia. Há duas semanas, o ministro da Alimentação convocou donos de supermercados para uma reunião. Ao sair, dois deles foram detidos. Existem jornalistas, sindicalistas, tuiteiros presos porque estão reclamando. Estudantes estão presos por protestar nas ruas.

A sra. tomou alguma medida de proteção extra depois da prisão do prefeito Ledezma?

Agora estou em casa. Depois da prisão do prefeito de Caracas, fui para o escritório dele. Fui com a esposa dele às ruas. Não tenho medo do regime. É o regime que teme seu povo e, por isso, tenta calar a todos com a censura. Na Venezuela, hoje, existe uma ditadura militar, com ligações com o narcotráfico, que pretende pela força calar uma sociedade. A Venezuela caminha rapidamente para o caos. Tenho o dever, como deputada, de lutar pela transição. Estamos dizendo ao mundo que a Constituição contém um mecanismo que permite lidar com essa situação: a renúncia de Maduro. No Brasil, vocês tiveram o caso de um presidente que foi deposto depois de uma investigação de corrupção (Fernando Collor de Melo). Na Venezuela, uma pessoa viola os direitos humanos e lidera o governo mais corrupto de nosso país.

Falando do Brasil, qual é sua posição sobre a declaração de Dilma Rousseff de que o caso de Ledezma é um tema interno da Venezuela?

Sempre achei que os direitos humanos eram universais. Acho que o Brasil e os demais governos assinaram a carta democrática interamericana. Você me dirá se violar direitos humanos, fechar jornais, perseguir jornalistas e torturar estudantes não são temas que devem tocar os corações e consciências dos latino-americanos e dos brasileiros em particular. Vocês brasileiros viveram uma ditadura. Vocês sabem o que significa quando o mundo e os irmãos latino-americanos dão as costas. A Venezuela sempre foi solidária com o povo sul-americano que era alvo de ditaduras. Hoje, pedimos ao povo brasileiro que saia em defesa dos direitos humanos e da democracia em nosso país. Neste momento, mostrem ao seu governo que é urgente a convocação de uma reunião de emergência de chanceleres da Organização dos Estados Americanos (OEA) para avaliar a situação na Venezuela.

Por que a sra. acredita que o governo brasileiro mantém silêncio sobre o que ocorre na Venezuela?

Entendo que nos últimos anos os governantes tiveram razões de ordem ideológica, geopolítica e econômica. Isso poderia inibir em alguns casos e acabar em uma posição de cruel indiferença. O silêncio do Brasil é um silêncio cúmplice. Maduro cruzou a linha vermelha e, diante disso, toda a indiferença é cumplicidade. Neste momento, nós venezuelanos acreditamos no diálogo e em uma transição para uma democracia incluindo toda a sociedade. Mas, como requisito indispensável, é preciso haver a libertação dos presos políticos. Não vamos permitir a estabilização da ditadura.

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