'O governo não poderá dizer que foi um panelaço com teflon'

Cientista político afirma que panelaço contra Cristina foi espontâneo e também incluiu críticas à oposição

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2012 | 02h02

"Doze meses depois das eleições temos uma nova multidão. Nas ruas, durante o panelaço da quinta-feira, provavelmente, havia eleitores que votaram em Cristina Kirchner em 2011." A afirmação é de Julio Burdman, cientista político diretor das cátedras de Ciência Política e de Relações Internacionais da Universidade de Belgrano. Em entrevista ao Estado Burdman disse que "desta vez não foi um panelaço com teflon" (em alusão à classe média alta e classe alta), como alguns setores do governo se referiram pejorativamente ao protesto de setembro.

O governo acusa o jornal 'Clarín' e outros meios de comunicação de estarem por trás do panelaço...

O panelaço teve a caixa de ressonância dos grandes meios de comunicação. Mas isso não é suficiente para explicá-lo. Os meios não deram à luz esta criatura. Seu desenvolvimento se deu por méritos próprios. O panelaço surgiu graças a desconhecidos que usaram as redes sociais e conseguiram distribuir a mensagem a milhões de usuários. Uma mensagem eficaz que coincidiu com as queixas de que não estavam sendo representados pela classe política.

Quais são os motivos para a queda da popularidade de Cristina Kirchner, reeleita em outubro de 2011 com 54% dos votos?

O governo fez ajustes logo depois das eleições, que afetaram setores da classe média e da classe alta. As medidas que o governo está tomando para restringir a compra de dólares, os impostos, os controles da Receita Federal, além da redução segmentada dos subsídios aos serviços públicos são para proteger a parte de baixo da sociedade. Por isso, existem setores da classe média que antes apoiavam o governo e agora se afastaram de Cristina.

O kirchnerismo poderia fazer um "contra-panelaço" e mobilizar seu eleitorado, além dos militantes, para uma exibição de força nas ruas?

Poderia ocorrer uma manifestação kirchnerista de respaldo ao "7-D", (7 de dezembro, data na qual o governo pretende que o grupo Clarín venda a maior parte de seus ativos), caso a presidente não consiga seus objetivos sobre a Lei de Mídia. No entanto, duvido que ocorra uma manifestação do governo como resposta ao panelaço. Ninguém conseguiria equiparar o tamanho dessa manifestação, que além disso foi autoconvocada.

O panelaço teve como alvo somente a presidente Cristina?

Foi um protesto, sem identificação partidária, direcionado contra Cristina. Mas também foi em parte contra os integrantes da oposição.

Esta seria uma "primavera" argentina?

A expressão não se aplica à Argentina, que segue sendo um país democrático. A "primavera" ocorreu em países com governos ditatoriais.

Quais são as principais demandas? Muitos analistas afirmavam que eram heterogêneas. Aliados do governo afirmaram que não havia um conceito unificador...

Não concordo com a ideia de que foi uma marcha totalmente heterogênea e sem conteúdos discerníveis. Houve certa coerência e afinidade nas palavras de ordem. Todas as mensagens se direcionaram contra abusos (reais ou supostos) do poder. Tanto em matéria política, como contra a reforma constitucional, corrupção e a favor da liberdade de imprensa. / A.P.

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