'O governo norte-coreano deseja um acordo de paz'

Diplomata vê potencial comercial no país e afirma que as sanções que a população enfrenta não funcionaram

Entrevista com

PYONGYANG, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2013 | 02h07

Entre 1989 e 1994, o diplomata brasileiro Roberto Colin testemunhou o colapso da URSS e os primeiros anos da nova Rússia. Na época, ele integrava a missão do País em Moscou. Hoje, é o embaixador na Coreia do Norte. Colin compara Pyongyang à Moscou soviética, com a ressalva de que a dinastia Kim ignora o marxismo-leninismo, preferindo seus próprios princípios - a Juche e o Songun. A seguir, os principais trecho da entrevista que o embaixador concedeu ao Estado.

O que leva o Brasil a manter a embaixada na Coreia do Norte?

Contribuir para a integração internacional da Coreia do Norte. Isso só é possível mediante a cooperação.

Nesse cenário de sanções,

como pode haver cooperação?

As sanções existem há 60 anos e, tal como aconteceu com outros países, elas não funcionaram. O país e a população, em geral, se ressentem, mas aprenderam a lidar com essa situação. Isso afeta possibilidades de negócios. Mesmo assim, elas existem. No ano passado, nosso intercâmbio comercial não chegou a US$ 60 milhões. Mas, em 2008, o comércio bilateral chegou a quase US$ 400 milhões. Isso mostra que há potencial. Logo em seguida, vieram as sanções que inibiram o comércio. Há grandes possibilidades, por exemplo, nas áreas de têxteis e instrumentos musicais.

O Brasil pretende mediar as disputas da Península Coreana?

Pyongyang aprecia muito a atuação internacional do Brasil. Vê o País como uma nação que contribui para a construção de uma ordem internacional mais justa. Nesse contexto, o Brasil poderia desempenhar algum papel mediador. Mas, pelo menos por ora, esse papel caberia aos países do Sexteto (composto por EUA, China, Rússia, Coreia do Sul e Japão, além de Coreia do Norte).

Tendo servido na URSS, como o sr. enxerga o regime daqui?

Há diferenças grandes. Por exemplo, na URSS, uma parcela muito pequena da população integrava o Partido Comunista, acho que 1% ou menos. Na Coreia do Norte, esse porcentual é muito maior. A convivência institucional ocupa uma parte muito maior da vida das pessoas. E, claro, aqui é muito importante a originalidade da ideologia Juche como algo criado aqui.

Como o sr. vê as demonstrações públicas de Pyongyang?

Eu assisti ao último desfile militar da era soviética na Praça Vermelha, o que me impressionou muito. Mas o que vi aqui é algo indescritível, tem um impacto profundo. Aqui, há um aspecto quase religioso da exaltação à memória dos líderes Kim Il-sung e Kim Jong-il. Esse regime assumiu um caráter quase religioso. Os concertos e os desfiles provocam uma profunda emoção.

E as ameaças de abril?

O líder está determinado a mudar essa situação de 60 anos de isolamento. É algo insuportável. E sabe que isso só é possível mudar com diálogo com os EUA. A Coreia do Norte deseja um acordo de paz para que acabem as sanções. Em algum momento em abril, talvez por influência do estamento militar, o regime considerou que era suficientemente forte para falar de igual para igual com os americanos e essas ações tinham por objetivo forçar um diálogo. Mas, aparentemente, eles exageraram na dose e o resultado não foi o esperado. / F.C.

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