O grande mito da humilhação da Rússia

Retórica de Moscou sobre o 'triunfalismo' americano é falsa e incapacidade de conter as ambições russas amedronta aliados

ANNE, APPLEBAUM, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2014 | 02h01

Analisando os últimos 25 anos, não é fácil citar uma medida de política externa ocidental que possa ser genuinamente descrita como bem-sucedida. O impacto do auxílio ocidental ao desenvolvimento mundial é questionável. As intervenções ocidentais no Oriente Médio foram desastrosas.

No entanto, há uma política ocidental que se destaca como sucesso fenomenal, especialmente ao ser comparada às baixas expectativas do seu momento inicial: a integração da Europa Central e dos Países Bálticos à União Europeia e à Otan. Graças a esse projeto duplo, mais de 90 milhões de pessoas desfrutam de paz e segurança relativas há mais de duas décadas numa região cuja instabilidade histórica ajudou a desencadear duas guerras mundiais.

Essas duas "expansões", paralelas, mas não idênticas (alguns países são membros de uma organização, mas não da outra), foram transformadoras porque não foram saltos diretos, como implica a palavra "expansão", mas sim lentas negociações. Antes de se juntar à Otan, cada país teve de estabelecer o controle civil de suas Forças Armadas. Antes de entrar para a União Europeia, cada país teve de adotar leis envolvendo comércio, sistema judiciário e direitos humanos. Como resultado, eles se tornaram democracias. Foi um trabalho de "promoção da democracia", que funcionou como nunca antes se viu.

No entanto, os tempos mudam e a milagrosa transformação de uma região historicamente instável tornou-se uma realidade monótona. Em vez de celebrar o feito no 25.º aniversário da queda do Muro de Berlim, tornou-se moda dizer que essa expansão foi um equívoco. Incorretamente, o projeto é lembrado como resultado do "triunfalismo" americano, que teria humilhado a Rússia ao trazer instituições ocidentais à tumultuada vizinhança dos russos.

Essa tese costuma ter como base uma história revisionista promovida pelo atual governo russo - e está errada. Que fique claro: jamais foi assinado com a Rússia um tratado proibindo a expansão da Otan. Nenhuma promessa foi quebrada. O ímpeto para a expansão da Otan não veio de uma Washington "triunfalista". Ao contrário, as primeiras tentativas da Polônia de entrar para esses grupos foram rechaçadas em 1992. Lembro-me bem da reação furiosa do embaixador americano em Varsóvia na época. Polônia e outros países, porém, insistiram, exatamente porque já estavam enxergando os sinais do revanchismo russo que viria em seguida.

Quando a lenta e cautelosa expansão ocorreu, foram feitos constantes esforços para tranquilizar a Rússia. Nenhuma base da Otan foi instalada nos novos países-membros e, até 2013, nenhum exercício militar foi realizado. Um acordo entre Rússia e Otan, estabelecido em 1997, definia que não haveria deslocamento de instalações nucleares. Um conselho Rússia-Otan foi criado, em 1992. Em resposta às objeções da Rússia, Ucrânia e Geórgia tiveram seu pedido de ingresso na Otan negado, em 2008.

Enquanto isso, além de a Rússia não ter sido "humilhada", o país recebeu o status de "grande potência", herdando o assento soviético no Conselho de Segurança da ONU e também as embaixadas soviéticas. A Rússia também recebeu armas nucleares soviéticas, algumas delas transferidas da Ucrânia, em 1994, em troca do reconhecimento de suas fronteiras por parte dos russos.

Durante esse período, a Rússia, ao contrário da Europa Central, não buscou se transformar de acordo com os moldes europeus. Em vez disso, ex-agentes da KGB, declaradamente leais ao sistema soviético, assumiram o controle do Estado, ao lado de seus aliados no crime organizado, buscando evitar a formação das instituições democráticas e enfraquecê-las no exterior.

Na década mais recente, essa elite cleptocrática também buscou recriar um império, usando desde os ataques cibernéticos contra a Estônia até invasões militares na Geórgia e agora na Ucrânia, violando o acordo de 1994.

Em 1991, a Rússia não era mais uma grande potência, seja em termos populacionais ou econômicos. Assim sendo, por que não reconhecemos a realidade, reformamos as Nações Unidas e entregamos o assento do Conselho de Segurança à Índia, ao Japão ou outro país?

A crise na Ucrânia e a perspectiva de uma crise futura na própria Otan não são o resultado do triunfalismo americano, mas sim da incapacidade dos EUA em reagir à agressiva retórica russa e a seus gastos militares. O fracasso de Washington em fazê-lo levou agora a uma assustadora e acentuada queda de confiança na Europa Central. Países antes ansiosos para contribuir com a aliança estão agora com medo.

O erro americano não foi humilhar a Rússia, nas menosprezar o potencial revanchista, revisionista e prejudicial do país. Se o único feito importante do Ocidente nos últimos 25 anos está agora sob ameaça, isso ocorre porque os EUA fracassaram em garantir que a Otan continuasse a fazer na Europa aquele que sempre foi seu objetivo: dissuadir. A dissuasão não é uma política agressiva; trata-se de uma estratégia de defesa. Mas, para funcionar, a dissuasão precisa ser real. Ela exige investimento, consolidação e apoio por parte de todos no Ocidente e, especialmente, dos EUA. Fico feliz em culpar o triunfalismo americano por muitas coisas, mas, na Europa, me parece que mais triunfalismo teria sido melhor. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É AUTORA DE 'GULAG: UMA HISTÓRIA

POLÊMICA DOS CAMPOS DE

PRISIONEIROS SOVIÉTICOS' (EDIOURO), PELO QUAL GANHOU O PRÊMIO PULITZER

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