EFE
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O grito de Abbas pela atenção mundial

Enquanto os russos atacam alvos na Síria e o EI se aproxima de Israel, a situação dos palestinos não parece urgente

Daniel Gordis, Bloomberg View

03 Outubro 2015 | 02h00

De certo modo, é uma infelicidade que a bandeira palestina, içada na quarta-feira na ONU, tenha chamado mais a atenção do que o discurso que a precedeu. A ameaça do presidente palestino, Mahmoud Abbas, diante da Assembleia-Geral, de ignorar ou anular os Acordos de Oslo, de 1993, foi mais um grito para chamar a atenção do que qualquer outra coisa. Depois de conseguir a tão procurada foto da bandeira levantando-se no meio da multidão, não faz qualquer sentido mantê-la lá no alto. Abbas, afinal, talvez tenha uma bandeira, mas não tem um Estado.

Os palestinos têm profunda consciência de que Abbas, que exerceu o cargo por mais do dobro do mandato de quatro anos para o qual foi eleito, em 2005, pouco tem a mostrar a respeito deste período na presidência. Os palestinos não têm um Estado. Tampouco têm mais soberania. Abbas foi incapaz de pressionar o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, a congelar a construção dos assentamentos.

O Fundo Monetário Internacional afirma que, pela primeira vez desde 2006, a economia palestina sofreu um declínio em 2014. Abbas é uma figura profundamente impopular e tem afirmado, em mais de uma ocasião, que estuda a possibilidade de deixar o cargo. Mas ainda não o deixou.

E, o que é ainda mais significativo do que os outros problemas, Abbas foi incapaz de manter os palestinos no centro do discurso internacional. Enquanto o presidente russo, Vladimir Putin, se mostra cada vez mais agressivo na Ucrânia e na Síria, o Congresso dos Estados Unidos está preocupado ultimamente com o acordo nuclear iraniano e com o Estado Islâmico, que vem conquistando mais terreno no Iraque e na Síria. Os palestinos temem ter-se tornado motivo de simpatia, mas não de urgência. É isto que Abbas procurava mudar.

Para tanto, ele apostou no simbolismo. A bandeira foi levantada. Ele destacou a questão do acesso ao Monte do Templo, uma área de tensão para Israel, nas últimas semanas, acusando-o de transformar o conflito político num conflito religioso - uma afirmação explosiva nessa região. Entretanto, quantos palestinos notarão que a Autoridade Palestina foi criada pelos Acordos de Oslo, de 1993, que hoje Abbas diz não considerar mais vinculantes?

Com a constante ameaça do Hamas na Cisjordânia, Abbas precisa dos Acordos de Oslo e precisa que os israelenses o mantenha no poder. Portanto, é provável que bem pouco deva mudar. A debilidade e impopularidade fundamentais de Abbas não se modificarão.

Netanyahu condenou imediatamente o discurso de Abbas, classificando-o como impreciso (e era, na verdade) e uma incitação (o que provavelmente também foi correto). Entretanto, Netanyahu, que durante anos só se preocupou com o Irã, agora parece estranhamente míope na questão da óptica do tratamento de Israel em relação aos palestinos.

Sabendo que Abbas falaria na ONU, seu governo aprovou a construção de novos assentamentos, o que deve ter refletido negativamente nas capitais europeias onde Israel já é impopular. Não está claro o motivo pelo qual o governo israelense não se esforçou para divulgar o fato de que muitos dos manifestantes palestinos no Monte do Templo há muito são pagos pelo Catar.

Com isto, não pretendo sugerir que Netanyahu tenha muitas boas razões. Seu flanco direito, e particularmente o ministro da Defesa, Moshe Ya'alon, parece preocupado em acalmar os colonos. Considerando que a popularidade de Netanyahu, atualmente, não é particularmente expressiva, a última coisa que ele quer fazer e arriscar o seu governo.

Entretanto, mesmo que Netanyahu fosse genuinamente propenso a um acordo com os palestinos, a tarefa seria difícil. Alguns veteranos observadores muçulmanos, inclusive Khaled Abu Toameh, notaram que Abbas tenta de fato radicalizar sua população. "Portanto, enquanto alguns israelenses, americanos e europeus estão conversando sobre a necessidade de retomar o processo de paz, os palestinos estão claramente indo em outra direção.

A estratégia da Autoridade Palestina agora é intensificar sua campanha para isolar e tirar a legitimidade de Israel na comunidade internacional e promover todas as formas de boicotes dos israelenses e dos produtos israelenses. A AP agora está convencida de que a única maneira de forçar Israel a fazer concessões é mediante a pressão internacional e a promoção de campanhas de boicote e desinvestimento.

O discurso de Abbas na ONU, criticando duramente Israel pela cessação dos Acordos de Oslo (sem mencionar a Segunda Intifada, que na realidade contribuiu para isto) e a cerimônia da bandeira se encaixam perfeitamente nesta análise. Netanyahu, sem sombra de dúvida, compreende isto, logo, é muito menos míope do que poderia parecer.

Ele sabe que a realidade da comunidade internacional continuará frustrando os palestinos. De fato, várias fontes de informações israelenses, na quinta-feira, focalizaram não o discurso de Abbas na ONU ou os palestinos, mas a descoberta de uma célula de árabes israelenses que trabalham com o Estado Islâmico e planejam lançar um ataque em Israel, bem como as recentes conquistas territoriais do EI ao longo da fronteira israelense.

É por isso que muitos israelenses simplesmente afirmam que, gostando ou não, o status quo terá de ser mantido. Enquanto os jatos russos bombardeiam alvos rebeldes ao longo da fronteira de Israel com a Síria e o Estado Islâmico se aproxima lentamente de Israel e organiza células no próprio Estado israelense, a trágica situação dos palestinos não parece absolutamente urgente. Isto deverá continuar até que a região, de algum modo, exploda, com toda probabilidade em um cenário que, neste momento, poucos conseguem imaginar.

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