''O Haiti se esqueceu das atrocidades de Duvalier''

Para jornalista, a única solução para a 'amnésia' é um trabalho de educação, capaz de[br]abordar a questão

, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2011 | 00h00

O destino da jornalista Lilian Pierre-Paul, que ficou exilada de 1980 até 1986, quando caiu o regime de Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, foi diferente dos 30 mil haitianos assassinados pelos Duvaliers.

Questionada sobre o retorno de Baby Doc ao Haiti, a jornalista afirma que "se trata de um pesadelo". "Mas o ex-presidente vitalício tem o direito de voltar." A Constituição de 1987, democrática, baniu figura do exílio, a mesma que os Duvaliers impuseram a Lilian e a milhares de haitianos. "Mas Baby Doc tem muitas contas a prestar", diz a jornalista.

No entanto, a situação de impunidade do regime Duvalier tornou-se ainda mais complicada por causa dos governos que o sucederam, afirma Lilian. "E hoje em dia, essa Justiça (haitiana) não tem mais credibilidade para julgar Baby Doc. Sou a favor de que se faça Justiça, não um linchamento em praça pública. Ele tem responsabilidade sobre um regime totalitário, que fez o sangue jorrar neste país."

A Justiça haitiana já indiciou Baby Doc na semana passada por corrupção e desvio de fundos. E quatro vítimas de seu regime já apresentaram queixas contra o ex-ditador por graves violações dos direitos humanos e mais de cem documentos comprovando torturas, sequestros e execuções foram enviados à promotoria do país.

Nervosa, a jornalista abre um sorriso ao ouvir que, hoje, grande parte dos haitianos - em sua maioria, jovens que não viveram sob o regime - acreditam que agora o Haiti está pior do que no tempo de Baby Doc.

"Isso aqui era o inferno, um regime policial no qual a economia era anêmica e não existia liberdade nenhuma. Foram 30 mil mortos, centenas de milhares de presos e exilados", diz Lilian.

Contra a "amnésia", Lilian afirma que a única solução é educacional. Segundo ela, o Haiti precisaria de um trabalho "de memória" para as novas gerações, com currículos escolares capazes de abordar o terror do período, museus, livros e documentários sobre o tema, além de uma investigação, ampla e pública, sobre as acusações. "Caso contrário, de que Justiça nós estamos falando? Do espetáculo?"

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