O Hamas e o Catar

O xeque Hamad bin Khalifa al-Thani, emir do Catar, realizou uma visita muito estranha à Faixa de Gaza, território que abriga a base do Hamas palestino. É raro o grupo receber a visita de um chefe de Estado estrangeiro e as raras personalidades que se aventuram a entrar no enclave evitam dar um caráter oficial à sua presença.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2012 | 03h01

Normalmente, todos ignoram os chefes do Hamas, muçulmanos radicais. Assim, os chefes de Estado estrangeiros reservam suas visitas oficiais para outro enclave palestino, a Cisjordânia, governada por palestinos moderados, educados e mais respeitáveis, como o Fatah, da Autoridade Palestina.

No entanto, o emir do Catar inovou e o Hamas o recebeu com toda pompa: bandeiras, festas e júbilo. O xeque gostou e, na sua alegria, decidiu aumentar a ajuda financeira prometida para a Faixa de Gaza de 196 milhões para 400 milhões, uma soma enorme para um território tão pequeno.

A visita do emir é provocativa: o Catar, um pequeno país bilionário, uma esponja cheia de petróleo e dólares, fez sua escolha entre os palestinos: entre os dois irmãos inimigos, ele preferiu os intransigentes do Hamas e desdenhou os moderados do Fatah.

O surpreendente é que o Catar se entende bem com as potências ocidentais. Por exemplo, com a França. O mesmo Catar ofereceu 100 milhões para melhorar a qualidade de vida dos bairros da periferia francesa, áreas instáveis, perigosas e repletas de imigrantes da África e da Ásia.

Enfim, o Catar adora futebol e comprou o time do Paris Saint-Germain, que hoje conta com os jogadores mais caros do mundo, especialmente o genial sueco Zlatan Ibrahimovic e o zagueiro brasileiro Thiago Silva.

Esse minúsculo país é como o deus romano Jano: tem duas faces. De um lado, um amante de futebol, um amigo dos europeus e das democracias. Do outro, sua face mais tenebrosa, que subvenciona o Hamas e a Faixa de Gaza, portanto, os muçulmanos radicais.

Mali. Há um outro país no qual o Catar está interessado. É o Mali, na África Subsaariana, mais especificamente na parte norte do Mali, em secessão depois que os fanáticos da Al-Qaeda do Magreb Islâmico implementaram sua terrível lei, a sharia, na região de Timbuctu.

Ora, parece que esses radicais da Al-Qaeda do Magreb estão abarrotados de dólares do Catar. A diplomacia francesa sabe disso e se cala. As excelentes relações entre Catar e Paris foram estabelecidas por Nicolas Sarkozy. Depois disso, não evoluíram.

O atual presidente francês, François Hollande, está constrangido e mudo. A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, é mais corajosa e afirmou que "os fundos privados da Arábia Saudita, do Kuwait e do Catar são a fonte mais importante dos grupos terroristas sunitas do mundo todo".

No sul da Líbia, há um oásis onde funcionam três campos de formação de jihadistas. Lá, são treinados salafistas líbios e egípcios que aguardam para ser enviados para a região de Timbuctu, onde já estão 6 mil combatentes muito bem treinados e armados - armas transferidas da Líbia após a morte de Muamar Kadafi.

E é claro que as monarquias petrolíferas sunitas fornecem armas e dólares para grupos sunitas na Síria, que, no decorrer dos meses, vieram se juntar aos corajosos sírios que combatem o tirano alauita (e não sunita), Bashar Assad. A ideia é que, na Síria, os guerreiros sunitas em combate pertencem a 14 nacionalidades africanas ou asiáticas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É CORRESPONDENTE EM PARIS

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