O Holocausto, em uma e em 6 milhões de palavras

Livro que repete a expressão 'judeu' em 1.250 páginas suscita debate sobre dois modos de lembrar extermínio em massa: buscar a história de cada vítima ou agrupar anônimos

Jodi Rudoren*, The New York Times/O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2014 | 02h09

Não há nenhum enredo para se comentar - e os personagens são penosamente pouco desenvolvidos. Pelo lado positivo, é rápido de ler - especialmente considerando-se suas 1.250 páginas. O livro, mais arte do que literatura, consiste de uma única palavra, "jew" (judeu) em tipos minúsculos, impressa 6 milhões de vezes, referência ao número de judeus mortos durante o Holocausto. Ele pretende ser uma espécie monumento à memória na forma de um livro luxuoso, um pretexto para conversas e instigador de ideias.

"Quando se olha para ele de certa distância, não se sabe dizer se está de cabeça para baixo ou na posição certa, não se sabe dizer o que está escrito, parece um padrão", diz Phil Chernofski, o autor, embora esse termo possa ser um tanto forçado. "É assim que os nazistas viam suas vítimas: não são indivíduos, não são pessoas, são apenas uma massa que temos de exterminar."

"Agora chegue mais perto, coloque seus óculos de leitura e pegue um 'judeu'", continua Chernofski. "Esse judeu poderia ser você. Próximo dele está seu irmão. Oh, veja, seus tios e tias e primos e toda sua família estendida. Uma coluna, uma linha, esses são seus colegas de escola. Agora você se perde numa espécie de estado meditativo em que ao olhar para uma palavra, 'judeu', você olha para um judeu, você se concentra nele e aí sua mente começa a perguntar quem é ele, onde ele vivia, o que ele queria fazer quando crescesse."

O conceito não é inteiramente original. Há mais de uma década, alunos da 8.ª série de uma pequena cidade do Tennessee se puseram a coletar 6 milhões de clipes de papel, conforme registrado num documentário de 2004. O anonimato das vítimas e a escala da destruição está expresso também nas pilhas aparentemente intermináveis de sapatos e óculos em exposição em antigos campos de extermínio no Leste Europeu.

A Gefen Publishing, uma editora de Jerusalém, imagina que o livro, intitulado And Every Single One Was Someone (E cada um era alguém, em tradução livre do inglês), fará uma declaração semelhante em cada igreja e sinagoga, escola e biblioteca. Embora muitos líderes judeus nos EUA tenham apoiado o livro, alguns estudiosos do Holocausto o consideram uma armadilha.

A obra adota a estratégia oposta à do esforço multimilionário de muitos anos do Yad Vashem, o museu e memorial do Holocausto, que até agora documentou a identidade de 4,3 milhões de vítimas judias. Elas enchem o monumental "Livro de Nomes", com 1,95 metro de altura e 14 metros de circunferência, apresentado em Auschwitz-Birkenau. "Não temos dúvida de que essa é a maneira correta de lidar com a questão", disse Avner Shalev, diretor do Yad Vashem. "Compreendemos que vida humana, seres humanos, indivíduos são o centro de nossa pesquisa e educação. Essa é a razão pela qual estamos investindo tanto na tentativa de recuperar cada simples ser humano, seu nome e detalhes da sua vida." Shalev não quis comentar diretamente o novo livro, mas disse depreciativamente: "A cada ano, temos 6 mil livros publicados sobre a Shoah", usando o termo em hebraico para o Holocausto.

Os defensores do livro não negam seu caráter - Chernofski usou a palavra iídiche "shtick" (truque para chamar a atenção) - mas o considera um artifício poderoso. "Quase todos que veem o livro não param de folhear suas páginas", diz Ilan Greenfield, diretor-presidente da Gefen. "Mesmo depois de olhar dez páginas e saber que só verão a mesma palavra, eles continuam folheando." O catálogo da Gefen lista o livro por US$ 60, mas Greenfield diz que as cópias individuais seriam vendidas mais provavelmente a US$ 90 (na compra de mil exemplares, cada um sai por US$ 36). Como o livro chegou ao mercado alguns meses atrás, ele disse, foram impressos 5 mil: alguém comprou 100 para distribuir para os escritórios de senadores americanos. Líderes judeus na Austrália e na África do Sul, em Los Angeles e em Denver, compraram lotes para as comunidades.

Abraham Foxman, diretor nacional da Liga Antidifamação, escolheu três doadores para comprar mil exemplares cada e doá-los. Ele quer um no Salão Oval e, por fim, em cada mesa do Seder (jantar cerimonial comemorativo) de Páscoa.

A ideia remonta há décadas numa escola secundária do Queens, em Nova York, onde Chernofski lecionava matemática, ciências e estudos judaicos e, um ano, foi encarregado do mural para o Dia de Recordação do Holocausto.

"Eu lhes dei papel em branco e disse para não falarem nos 30 minutos seguintes - isso foi um prazer", lembrou Chernofski, de 65 anos, que cresceu no Brooklyn e se mudou para Israel há 32 anos. "Eu disse 'quero que vocês escrevam a palavra judeu tantas vezes que puderem, sem margens, apenas as amontoem, peguem outra folha e outra folha até eu dizer parem'. Nós somamos a classe toda. Eram somente 40 mil."

Anos depois, Chernofski imprimiu páginas cheias com 6 milhões de exemplos da mesma palavra - "judeu" - e as pôs num caderno de folhas soltas, que ele mostrava a visitantes em seu bagunçado escritório na União Ortodoxa em Nova York, onde ele é diretor educacional. Seu tio levou o caderno a uma feira de livros em Jerusalém, onde um encadernador o viu e fez uma edição limitada. Greenfield teve acesso a uma cópia, e entrou em contato com Chernofski cerca de 18 meses atrás com a ideia de produção em massa.

Cada página tem 40 colunas de 120 linhas - 4.800 "judeus". A fonte é Minion, tamanho 5.5. O livro pesa 3,3 quilos. Sua capa sem título exibe um xale de oração judaico, usado eventualmente para envolver cadáveres para o enterro. Chernofski disse que foi uma escolha da editora; ele teria preferido a capa toda preta ou com uma estrela amarela como a que os nazistas obrigavam os judeus a usar.

Judeu ortodoxo com nove netos, Chernofski é um homem de números, o tipo de pessoa que não consegue subir uma escada sem contar os degraus (41 até o seu apartamento). "Torah Tidbits" (algo como Petiscos da Torá, em tradução livre), a publicação que ele editou por duas décadas, sempre lista o número de sentenças no trecho da Torá da semana (118 em "Estatutos" da semana passada). Ele gosta de brincar com calendários e está encantado porque nos próximos três meses, as datas judaicas e gregorianas combinam: o dia 1.º de fevereiro é o 1.º de adar (mês do calendário hebreu) e o 30 de abril, o 30 de nissan.

Greenfield, o editor, diz que seu objetivo final é imprimir 6 milhões de cópias do livro. Tendo cada exemplar 7 centímetros de espessura, isso preencheria 418 quilômetros de estantes - pouco menos que os 480 quilômetros do comprimento de norte a sul de Israel (e dará a Chernofski US$ 10,8 milhões, à taxa contratada de US$ 1,80 por livro). "Harry Potter, em sete volumes, consumiu 1,1 milhão de palavras", observa Chernofski, um devoto que tem uma vassoura de "quidditch" em seu escritório. "Esse livro tem 6 milhões delas, por isso eu superei J. K. Rowling."

*Jodi Rudoren é jornalista.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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