O homem certo para o cargo?

Mark Thompson deverá assumir o 'NYT', mas é suspeito de acobertar escândalo de Jimmy Savile

JOE, NOCERA, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA , JOE, NOCERA, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA , O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2012 | 02h05

O cargo de diretor executivo do New York Times não é o mais fácil de ser preenchido. Há desafios óbvios. Como todos os jornais, ele enfrenta problemas financeiros, pois a internet vem desgastando as fontes tradicionais de receita. Os resultados do terceiro trimestre foram típicos: a empresa relatou queda de 9% das receitas em publicidade e declínio de 85% dos ganhos líquidos em comparação com o mesmo período de 2011. Suas ações caíram 22%.

Além disso, há a família Sulzberger, que controla a Times Company. Arthur Sulzberger Jr. é o presidente e o publisher do jornal. Sete outros membros da família trabalham no New York Times. Nenhum diretor executivo toma decisões sem consultar a família. A CEO anterior, Janet Robinson, saiu abruptamente em dezembro, em meio a especulações de que o seu relacionamento com Sulzberger estava desgastado.

Portanto, foi com alívio, depois de longa busca, que Sulzberger anunciou, em agosto, que Mark Thompson - então diretor-geral da BBC - assumiria o cargo. Sua gestão como chefe da TV britânica incluiu uma expansão internacional e um forte crescimento digital, duas áreas em que a Times Company poderia usar suas habilidades. Ele deverá assumir no dia 12. A placa com o seu nome já está na porta do escritório. Mas, desde o início de outubro, o que todos fazem a respeito dele são duas perguntas: O que ele sabia? Quando ele soube?

As perguntas são em razão do escândalo de abuso sexual que envolve a BBC. No centro, está Jimmy Savile, que por 30 anos foi uma das personalidades mais famosas da emissora. Ele foi acusado de ser um pedófilo que teria molestado centenas de jovens. Embora tenha deixado de aparecer na BBC em meados dos anos 90, sua popularidade era tanta que, quando morreu, em outubro do ano passado, as pessoas em sua cidade natal, Leeds, se enfileiraram nas ruas para homenageá-lo durante seu cortejo fúnebre.

Logo após sua morte, um programa de da BBC chamado Newsnight, começou a investigar as preferências sexuais de Savile. Embora uma mulher tenha dito em entrevista que foi molestada por ele, a reportagem foi cancelada. No início do mês, uma concorrente da BBC, a ITV, exibiu uma série de revelações devastadoras sobre Savile e levantou a possibilidade de a emissora rival ter encoberto os crimes de seu ex-apresentador.

Claramente, a resposta é sim. O que é muito menos certo é até que escalão da BBC se envolveu no caso. Thompson disse nunca ter ouvido nenhum boato a respeito e afirmou desconhecer a investigação do Newsnight. Considerando a burocracia da BBC, sua negativa é plausível.

No entanto, há um ponto menos plausível. Thompson diz que um repórter lhe perguntou durante um coquetel em dezembro: "Você está preocupado com a investigação do Newsnight sobre Savile?" Em seguida, Thompson perguntou a seus subalternos sobre a investigação e foi informado que o programa fora tirado do ar por motivos jornalísticos. Ele afirma que não fez mais nenhuma pergunta.

Meses depois, caiu como uma bomba a notícia de que a BBC engavetou a investigação sobre Savile. Considerando a gravidade das acusações, seria de se imaginar que Thompson tivesse ido a fundo no caso. Mais uma vez, porém, ele não fez nada. Thompson ignorou os fatos - o que faz as pessoas se perguntarem que tipo de organização era a BBC quando ele a dirigia, que tipo de diretor ele era e qual tipo de diretor ele será no NYT.

Sulzberger está numa situação difícil. Acredita que conseguiu o executivo de que precisava. Apesar de ele ter se recusado a conceder entrevistas para esta coluna, ele aceitou a versão de Thompson sobre seu desconhecimento total das acusações contra Savile, que se tornaram públicas 50 dias após ele ter aceitado o emprego no New York Times. Pelo bem dos funcionários e dos leitores do jornal, esperamos que sua fé em Thompson seja fundamentada. Do contrário, a BBC não será a única a ter de responder sobre seu julgamento. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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