O homem com cabelo cor-de-rosa

Preocupação dos EUA com Síria e Oriente Médio é o preço que os americanos pagam pelo fato de o país ter a obrigação de proteger os cidadãos globais

THOMAS L. , FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, THOMAS L. , FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2013 | 02h11

Na semana passada, eu participava de uma conferência em Berna, na Suíça, e estava lutando para escrever minha coluna. As notícias sobre a proposta da Rússia para a Síria entregar seu arsenal de gás venenoso chegavam e mudavam a toda hora, forçando-me a reescrever minha coluna a todo momento. Para clarear as ideias, decidi fazer um passeio à margem do Rio Aar.

No caminho, parei num pequeno mercado e comprei algumas nectarinas. Quando fui até o caixa, estava concentrado em contar meus francos suíços e, quando levantei os olhos, tive uma surpresa: ele tinha cabelos cor-de-rosa. Cabelos rosa-choque, um verdadeiro europunk dos anos 90. Enquanto me atendia, uma jovem passou diante da loja e ele mandou um beijo para ela através da janela, completamente despreocupado com o mundo.

Observando toda essa alegria de viver, pensei comigo: "Puxa, não seria ótimo ser suíço? Talvez até exibir um cabelo cor-de-rosa?" Embora não possa afirmar com segurança, tive a sensação de que aquele homem de cabelo rosa-choque não estava nada preocupado com o uso adequado da força contra Bashar Assad. Não é culpa dele. Seu país é minúsculo.

Acho que a preocupação com a Síria é o ônus que se carrega por ser americano ou presidente americano e viver na maior potência do mundo, que ainda acredita, felizmente, que deve proteger os cidadãos do globo. Barack Obama um dia teve cabelos pretos. No entanto, hoje, estão grisalhos - não rosa. E é também por pensar demais no Oriente Médio que faz com que ele caminhe para ter mais cabelos grisalhos ou chegar até mesmo à calvície - mas nunca um cabelo rosa.

Bem, o Grecin é bem-vindo, porque nossos líderes precisarão dele. Minha grande dedução de todo o imbróglio sírio é que, com a Europa em dificuldades, a China ausente e o mundo árabe em convulsão, para um presidente americano continuar a liderar, precisará de mais apoio de Vladimir Putin, porque o nosso presidente não conseguirá ajuda de mais ninguém, incluindo o aval da sociedade americana.

Todo mundo está concentrado na liderança inexpressiva de Obama na crise, mas, na minha opinião, os dois principais protagonistas que formularam o resultado - na forma que não era prevista, mas que terá enormes implicações de longo prazo - foram Putin e o povo americano. Obama foi apanhado de surpresa por ambos. O que isso nos diz?

O fato de os americanos quase unanimemente pedirem ao Congresso para votar contra o bombardeio da Síria em razão do uso de gás venenoso nos informa até que ponto a divisão com relação a essa questão não se limita à direita versus esquerda, mas se trata do topo da pirâmide versus sua base.

A intervenção na Síria foi instigada pelas elites e debatida pelas elites. Não foi um assunto discutido na base. Acho que muitos americanos não entendem porque achamos OK o fato de 100 mil sírios morrerem na guerra, mas precisamos parar tudo e bombardear o país porque 1.400 pessoas foram mortas com gás venenoso.

Eu e outras pessoas apresentamos razões pelas quais, na verdade, devemos retraçar essa linha vermelha, mas muitos americanos parecem pensar que o que estamos fazendo é traçando uma linha vermelha numa poça de sangue. Quem notaria?

Muitos americanos também acham que os resultados dos EUA no mundo árabe e muçulmano, desde o 11 de Setembro, foram zero em três situações. O Afeganistão parece destinado ao fracasso. Seja o que ocorrer no Iraque, pagamos em demasia por isso. E, na Líbia, um tirano foi substituído por guerras tribais.

Penso também que muitas pessoas olham para os rebeldes na Síria e pouquíssimas lembram Nelson Mandela, ou seja, indivíduos lutando pelo direito de ser cidadãos no mesmo pé de igualdade e não apenas pelo triunfo da sua seita. Por isso, a retórica intervencionista de John McCain foi rejeitada.

Acho também que a sociedade percebeu a ambivalência de Obama. Sua retórica, no estilo Winston Churchill, do "não podemos tolerar isso", em choque com o seu "refletindo novamente, buscarei permissão ao Congresso antes de tomar uma posição e não pedirei aos parlamentares para deixarem suas férias para isso". O bombardeio americano seria maior do que uma "espetada", mas também "inacreditavelmente pequeno". O que não acrescentou nada.

Finalmente, a pergunta "você está brincando comigo?" continua no ar, causando um sentimento que, com a estagnação dos salários da classe média, as diferenças de renda aumentando e o desemprego ainda generalizado, tanto entre os colarinhos azuis como brancos, muitos americanos se perguntam: "Esse é o assunto de urgência que o senhor apresenta ao Congresso? A Síria? Esta é a linha vermelha que o senhor deseja traçar? Estou desempregado, mas essa coisa de Síria é o que não deve ser tolerado?".

Quanto a Putin, se não tivesse interferido e apresentado sua proposta para a Síria entregar de todas as suas armas químicas, Obama teria ficado com uma única opção: bombardear a Síria sem aprovação do Congresso ou se retirar envergonhado.

Então, por que Putin salvou Obama? Em parte, sem dúvida, porque sentiu que a única maneira de salvar seu cliente, o presidente sírio, era salvando o presidente americano. No entanto, o grande fator é que Putin realmente deseja ser visto como um grande e relevante líder global. O que alimenta seu ego e tem uma boa repercussão em sua base.

A questão agora é que, com a população americana à margem e Putin se projetando como líder, os EUA podem tirar vantagem da intervenção do presidente russo para que ele se junte a Washington. Isso não permitiria talvez forjar conjuntamente um cessar-fogo na Síria e um fim à crise nuclear iraniana?

Concordo com Obama quando ele afirma que não importa como os EUA chegaram aqui, mas estão num lugar potencialmente melhor. Então, é preciso insistir. É necessário testar até que ponto Putin seguirá com os americanos. Estou cético, mas vale a pena tentar. Do contrário, Obama não só terá cabelos grisalhos em razão do Oriente Médio nos próximos três anos, mas também ficará careca. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA

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